Um quarto dos homens com VIH que fazem sexo com homens não usa preservativo

"Contrariando discursos mais optimistas, ainda é expressivo o uso irregular de preservativo", diz uma das autoras de um estudo em que foram ouvidos 671 homens infectados que fazem sexo com homens.

Investigadoras dizem que a infecção já não é temida como no passado, por ser agora encarada como uma doença crónica, com tratamentos eficazes
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Investigadoras dizem que a infecção já não é temida como no passado, por ser agora encarada como uma doença crónica, com tratamentos eficazes Manuel Roberto

Há um “relaxamento” nos comportamentos preventivos face à infecção por VIH/sida entre os homens que fazem sexo com homens (HSH) e que são seropositivos. Uma investigação pioneira em Portugal concluiu que um em cada quatro (26,1%) dos HSH infectados com VIH não usa sempre preservativo nas relações sexuais, vindo agora comprovar a nível nacional aquilo que já está estudado há anos noutros países.

Não é por terem falta de informação ou de conhecimento que tantos homens seropositivos que fazem sexo com outros homens (homossexuais ou bissexuais) não usam preservativo. É porque a infecção já não é temida como o foi no passado, por ser actualmente encarada como uma doença crónica, com tratamentos cada vez mais eficazes. São conclusões de uma investigação do Instituto de Sociologia da Universidade do Porto e do Centro de Estudos de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa feita a pedido da Direcção-Geral da Saúde (DGS), que encomendou este trabalho por estar preocupada com o recrudescimento de novos casos de infecção neste grupo, particularmente entre os mais jovens. Os resultados foram esta terça-feira apresentados no Porto.

Quem usou a palavra “relaxamento” foi Isabel Dias, a coordenadora do estudo Infecção por VIH entre homens que fazem sexo com homens (HSH): Factores de risco e novas trajectórias de seropositividade. Na base, disse, de “um certo relaxamento dos comportamentos preventivos” está a “sensação de confiança no futuro clínico e nos progressos médicos” que retirou a esta infecção “a carga negativa associada a doenças terminais”. "Contrariando discursos mais optimistas, ainda é expressivo o uso irregular de preservativo", reforçou outra investigadora, Alexandra Lopes. 

Contactos através da Internet

Mas há outras conclusões que emergem deste vasto estudo – que partiu de um inquérito a uma amostra de 671 infectados seguidos em 14 hospitais de Portugal continental. No conjunto dos HSH que dizem usar preservativo, 40% admitem que utilizam esta protecção “de forma irregular” nas relações sexuais com parceiros estáveis. E mais de um quarto afirma não usar preservativo também com parceiros ocasionais. De resto, um em cada três inquiridos diz que se envolve com parceiros sem saber se estão ou não infectados e, quando se trata de uma relação ocasional, isto acontece com três em cada quatro inquiridos. Ao mesmo tempo, quase metade dos inquiridos diz ter encontrado os parceiros sexuais ocasionais através da Internet.

“Este fenómeno não é exclusivo de Portugal, é o que acontece nas ditas epidemias maduras, em que as pessoas têm uma dificuldade de percepção do risco. As pessoas podem ser muito informadas e muito esclarecidas e, mesmo assim, na prática não se protegem”, explicou a médica Isabel Aldir, que é a responsável pelo Programa para a Infecção VIH/sida da DGS e que diz que já está a pensar desenvolver uma aplicação para smartphones para disponibilizarem informações, marcarem consultas, entre outras coisas. "A informação generalista já não chega", frisa, reconhecendo que é necessário passar informação nas redes sociais

Os novos casos de infecção predominam entre os heterossexuais, mas têm vindo a diminuir percentualmente neste grupo, enquanto estão a aumentar no dos homens que fazem sexo com homens, especifica a médica. Nos 841 novos casos notificados no ano passado, 35% são HSH. E estas pessoas, frisa ainda, infectam-se cerca de 10 anos mais cedo, portanto em idades jovens. 

Campanhas de informação

Face às conclusões, os investigadores recomendam que as abordagens de prevenção e de comunicação sejam diversificadas e que se invista em programas de intervenção especialmente direccionados para esta população. São precisas campanhas específicas dirigidas a HSH seropositivos que utilizam plataformas virtuais e aqueles que praticam barebacking sex (não usar preservativo durante o sexo anal).

Os médicos devem, em concreto, explicar o que é viver com o VIH. E também é fulcral investir em campanhas para reduzir o estigma social, que persiste. A homofobia ainda está muito presente, notou Isabel Dias. “A pior parte desta doença é o preconceito”, desabafou um dos homens infectados aos investigadores. “Uma pessoa pode dizer que tem hepatite C, mas não pode dizer que tem VIH”, lamentou outro.

Na amostra dos inquirida o grosso eram homossexuais (78% e 12 % declararam ser bissexuais). Um em cada três tiveram a primeira relação sexual entre os 11 e os 15 anos e quase 40%, entre os 16 e os 18 anos.