Análise

Chegar 25 minutos atrasado à festa

Dois adolescentes numa festa de fim de curso: um acanhado num canto, expectante, a tentar passar despercebido, outro francamente extrovertido e a monopolizar as atenções. É uma imagem como tantas outras e serve apenas para ilustrar o que foram os primeiros 25 minutos do Portugal-México. Uma entrada em cena demasiado cinzenta da selecção nacional, muitos furos abaixo do adversário em termos de intensidade, velocidade de circulação e critério na saída de bola. Uma entrada em cena para não repetir.

Tacticamente, não houve revolução que justificasse tamanha apatia. Nem Portugal entrou descaracterizado (a opção por Nani e Quaresma de início permitia transformar com facilidade o 4-4-2 num 4-3-3 e vice-versa), nem o México baralhou profundamente as cartas, como fez tantas vezes ao longo dos últimos meses. A única (relativa) surpresa foi uma aposta em dois avançados, mas que não distorceram muito a organização em 4-3-3 — aquilo a que se assistiu algumas vezes foi a um 4-4-1-1, já que Chicharito, mais móvel, surgia muitas vezes no apoio a Jiménez.

Portugal deu-se mal com o bloco alto do México e com as movimentações de Guardado, Chicharito, Jonathan e, claro, Herrera no corredor central. Não só permitia que o adversário se aproximasse da área — a opção por não pressionar na frente deixava Moreno muito confortável na saída de bola —, como depois se mostrava estranhamente incapaz de engrenar as transições ofensivas. Culpa da falta de qualidade no primeiro passe, que dificultava a ligação entre linhas.

Nessa quase meia-hora de jogo inicial, o que saltou à vista foi também a incapacidade de explorar a profundidade e os mais de 35 metros que separavam o quarteto defensivo mexicano da baliza de Ochoa. Nas poucas ocasiões em que conseguia recuperar a bola, a opção era por sair a jogar em apoio, estratégia imediatamente anulada pela pressão alta e intensa do rival.

O golo de Quaresma foi, por isso, uma pedrada no charco e um aviso aos mexicanos de que não poderiam expor-se de forma tão ousada. Eles, que conseguiram quase sempre ganhar as batalhas dos corredores (muitas vezes com coberturas duplas), obrigaram Portugal a concentrar-se na zona central e foi por aí que Ronaldo ganhou metros a partir do meio-campo até servir o extremo do Besiktas para o 1-0.

Nessa altura, já Fernando Santos tinha aproximado Quaresma e André Gomes no miolo, provocando maiores dificuldades a um México menos rigoroso nas transições defensivas. E como, em organização defensiva, a selecção portuguesa cumpria sem sobressaltos de maior, o jogo parecia bem encaminhado. Até que um erro individual de Raphael Guerreiro abriu portas ao 1-1.

Depois do intervalo, e já em cima da hora de jogo, o México perdeu largura com a troca de Carlos Vela por Giovani dos Santos e Portugal ganhou alguma, com a entrada de Gelson para o lugar de um Nani que nunca conseguiu ser ofensivamente influente. À medida que a quebra física se ia acentuando, a equipa de Juan Carlos Osorio perdia capacidade para se impor no meio-campo português e, com mais espaço e tempo para manobrar, a qualidade do campeão europeu veio ao de cima, ainda que só se tenha tornado verdadeiramente ameaçador com André Silva.

A troca de Quaresma pelo avançado do FC Porto teve o condão de mexer com o jogo (ao contrário do que sucedeu com o lançamento de Peralta para o ataque mexicano), porque Portugal ganhou mais peso na área e uma referência extra para os cruzamentos (André Silva esteve, de resto, perto do golo aos 85’). Adicionalmente, beneficiou de um elemento com capacidade de orquestrar as transições rápidas, que só não resultaram no 3-1 porque o remate de Gelson à meia-volta saiu ligeiramente ao lado.

Tudo somado, a festa terminou com um convidado que viu subir um pouco a auto-estima e outro parcialmente forçado a descer à terra. E há mais um convite no correio para quarta-feira.