A Al-Qaeda tem um príncipe herdeiro cujo rosto se desconhece

Hamza bin Laden, o 15.º filho do terrorista que planeou o 11 de Setembro, tem aproveitado os reveses do Estado Islâmico no Iraque e na Síria para oferecer aos jihadistas uma nova alternativa. Em gravações áudio recentes, apela a ataques a interesses judeus, americanos, europeus.

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A voz é de um jovem calmo de 28 anos, mas a mensagem é um clássico de Osama bin Laden, dando ordens para matar. Quando a gravação áudio começou a aparecer em sites jihadistas, há duas semanas, parecia que o terrorista falecido estava a comunicar através do seu filho preferido.

“Preparem-se com diligência para infligir perdas devastadores aos que não crêem”, diz Hamza bin Laden, filho do homem que planeou o 11 de Setembro, numa voz fina de barítono com ecos sinistros da do pai. “Sigam as pisadas dos mártires que vieram antes de vós.”

Esta gravação, transmitida pela primeira vez a 13 de Maio, faz parte de uma série de declarações recentes feitas pelo homem que muitos peritos em terrorismo vêem como o príncipe herdeiro da rede global da Al-Qaeda. Publicada apenas dois dias antes do atentado terrorista de segunda-feira, em Manchester (Reino Unido), a mensagem inclui um apelo específico a ataques a cidades europeias e norte-americanas, para vingar as mortes de crianças sírias vítimas de ataques aéreos.

De acordo com agentes de espionagem americanos, europeus e do Médio Oriente e especialistas em terrorismo, a gravação fornece provas novas das mudanças preocupantes que estão a ocorrer dentro da organização sob ataque, que declarou guerra ao Ocidente há quase duas décadas. Dizimada por ataques militares americanos e eclipsada há vários anos pelo seu rival terrorista, o Estado Islâmico, a Al-Qaeda parece estar a assinalar um novo capítulo violento na história do grupo, liderado por um novo Bin Laden — um que jurou buscar vingança pela morte do pai.

Encorajada pelos reveses do Estado Islâmico no Iraque e na Síria, a Al-Qaeda está a fazer uma jogada para conquistar a lealdade dos seguidores descontentes do Estado Islâmico, bem como de legiões de simpatizantes em todo o mundo, segundo os analistas. A promoção de um líder jovem com um apelido icónico parece ser um elemento-chave numa tentativa de “renovação da marca” que inclui uma viragem para ataques terroristas ao estilo do Estado Islâmico em todo o Médio Oriente, Europa e América do Norte.

“A Al-Qaeda está a tentar usar este momento — em que o Daesh está a ser atacado — para oferecer aos jihadistas uma nova alternativa”, afirmou um agente de segurança do Médio Oriente, que falou sob condição de manter o anonimato para discutir avaliações de contraterrorismo e que utilizou o acrónimo árabe para o Estado Islâmico. “O que poderá ser mais eficaz do que um Bin Laden?”

“Um leão da cova”

Hamza bin Laden não é propriamente novo no mundo dos militantes islamistas. A sua coroação como líder terrorista está a decorrer desde, pelo menos, 2015, quando o líder histórico da Al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, o apresentou numa mensagem em vídeo como “um leão da cova” da rede terrorista de Bin Laden. Mas, nos últimos meses, Hamza bin Laden tem sido promovido como uma estrela em ascensão em sites pró-Al-Qaeda, com gravações de áudio suas em que incentiva os seguidores a realizar atentados ou faz comentários sobre acontecimentos recentes. Analistas veteranos sobre terrorismo afirmam que a promoção de Hamza bin Laden parece calculada para apelar a militantes islamistas jovens, que ainda admiram Osama bin Laden mas que vêem a Al-Qaeda como ultrapassada ou irrelevante.

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Bin Laden com Ayman al-Zawahiri, líder histórico da Al-Qaeda que intitulou o filho de Bin Laden, Hamzaa, como "um leão da cova" reuters

“Hamza é o indivíduo mais carismático e poderoso da próxima geração de jihadistas, simplesmente devido à sua linhagem e à sua história”, disse Bruce Riedel, que passou 30 anos na CIA e que actualmente é director do Intelligence Project (Projecto de Espionagem) da Brookings Institution. “Numa altura em que al-Zawahiri e al-Baghdadi parecem estar em declínio, Hamza é o herdeiro do trono.” Abu Bakr al-Baghdadi é o líder do Estado Islâmico.

Mas Hamza bin Laden não defende o estilo de jihad do pai. Osama bin Laden era famoso pelas suas operações terroristas ambiciosas e cuidadosamente planeadas, dirigidas pelos generais da Al-Qaeda e apontadas a alvos estratégicos. Em contraste, o filho incentiva os seguidores a aproveitarem qualquer oportunidade para atacar interesses judeus, americanos, europeus e muçulmanos pró-ocidentais, usando qualquer arma que possam ter ao seu dispor.

“Não é necessário ser uma ferramenta militar”, afirma ele na gravação de 13 de Maio. “Se conseguires pegar numa arma de fogo, óptimo; senão, há muitas opções.”

É preciso mais do que áudio e uma fotografia antiga

Surpreendentemente, para um homem que aspira a ser a próxima estrela de rock do mundo jihadista, Hamza bin Laden insiste em manter a maioria dos seus detalhes pessoais escondidos do público. Incluindo a cara.

Não existem fotografias confirmadas do jovem terrorista desde a infância, quando foi representado várias vezes como filho dedicado que posava com o seu famoso pai. Acredita-se que é casado, que tem pelo menos dois filhos e que viveu durante algum tempo na região tribal do Noroeste do Paquistão, mas o seu paradeiro é desconhecido.

A sua recusa em permitir que a sua imagem seja publicada pode reflectir uma preocupação fundamentada com a sua segurança pessoal — mas complica a tarefa dos militantes para o transformar num ícone terrorista, afirmou Steven Stalinsky, director executivo do Middle East Media Research Institute, uma organização sem fins lucrativos sediada em Washington, que controla a actividade militante islamista nas redes sociais.

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Não existem fotografias confirmadas do jovem terrorista Hamza bin Laden (possivelmente, será a criança que aparece ao lado do pai, Osama bin Laden, nesta fotografia). getty images

“As pessoas leais à Al-Qaeda e que se opõem ao Estado Islâmico andam à procura de inspiração e percebem que ele pode fornecê-la”, disse Stalinsky. “Mas, para a juventude actual, é preciso mais do que áudio e uma fotografia antiga.”

O que se sabe sobre Hamza bin Laden deriva das suas numerosas gravações, bem como de relatórios de espionagem e de uma grande quantidade de documentos apreendidos durante o raide de 2011 — realizado pelos Navy SEALS americanos — ao esconderijo de Osama bin Laden em Abottabad, no Paquistão. A colecção de documentos incluía cartas pessoais de Hamza ao pai, bem como instruções escritas do velho Bin Laden aos seus apoiantes sobre como Hamza devia ser educado e cuidado.

Estes documentos revelam uma ligação especial entre Hamza bin Laden e o pai, que perdurou apesar de longos períodos de separação. O 15.º dos estimados 20 filhos de Bin Laden, Hamza era o único filho varão da terceira mulher de Bin Laden — e, segundo alguns relatos, a sua preferida — Kaririah Sabar, uma saudita cuja família descende do profeta Maomé.

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Combatentes da Al-Qaeda numa aldeia a norte de Alepo, Síria HOSAM KATAN/ reuters

Rasgos precoces de ambição

Hamza bin Laden passou os primeiros anos da infância com os pais, primeiro na Arábia Saudita e mais tarde no Sudão e no Afeganistão, onde o pai começou a reunir as componentes da sua rede terrorista mundial. Um amigo da família, que conheceu Hamza quando ele era criança, contou que este revelava potencial e rasgos precoces de ambição.

“Era um rapaz muito inteligente e esperto, que gostava muito de andar a cavalo, tal como o pai”, disse este amigo, um associado de longa data da rede da Al-Qaeda, que foi contactado através de um serviço de chat nas redes sociais. “Os pais queriam que ele ficasse longe dos campos de batalha, mas ele tinha discussões com eles sobre isso.”

Então, deram-se os atentados do 11 de Setembro de 2001, que trouxeram notoriedade internacional aos Bin Laden e transformaram o pai de Hamza no homem mais procurado do mundo. Enquanto milícias afegãs apoiadas pelos Estados Unidos cercavam o seu bastião nas montanhas em Tora Bora, no Leste do Afeganistão, Osama bin Laden enviou várias das suas mulheres e filhos para o Irão, acreditando que os líderes da república islâmica podiam oferecer-lhes protecção de ataques aéreos americanos.

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Atentado às Torres Gémeas, 11 Setembro de 2001: Bin Laden tornou-se o homem mais procurado do mundo e enviou várias das suas mulheres e filhos para o Irão, acreditando que os líderes da república islâmica podiam oferecer-lhes protecção Ray Stubblebine/ reuters

Depois disto, Hamza raramente (ou nunca mais) viu o pai. Quando tinha 20 e poucos anos, ainda no Irão — a viver numa espécie de prisão domiciliária —, escreveu uma longa carta ao pai, queixando-se da sua vida “atrás de grades de ferro” e expressando uma vontade de se juntar ao pai como mujahid — isto é, um guerreiro sagrado – no seu combate contra o Ocidente, de acordo com uma cópia da carta que foi encontrada no abrigo secreto de Bin Laden.

“O que me deixa verdadeiramente triste”, escreveu Hamza em 2009, “é que as legiões de mujahidin marcharam e eu não me juntei a elas.”

O Irão permitiu ao clã bin Laden sair do país no ano seguinte. Na altura do raide dos Navy SEALS, em 2011, a mãe de Hamza e outros membros da família viviam no esconderijo do terrorista mais velho, no Paquistão. Uma ausência notável no complexo de Abbottabad era Hamza. Segundo agentes de contraterrorismo dos EUA e do Paquistão, sob as ordens de Osama bin Laden, os seus apoiantes mantinham Hamza num esconderijo separado, com a intenção de o enviar para o Qatar, para ser educado. O patriarca já começava a ver o filho como o futuro líder da Al-Qaeda, a avaliar pelas cartas que escreveu aos seus apoiantes pouco antes da sua morte.

“Hamza é um dos mujahidin e tem os pensamentos e as preocupações deles”, escreveu Osama bin Laden numa destas cartas. “E, ao mesmo tempo, ele consegue interagir com a nação [muçulmana].”

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Quase uma década depois do 11 de Setembro, um raide de uma força especial dos Seal americanos mata Bin Laden em Abottabad, no Paquistão. A Operação é seguida por Obama, Joe Biden, Hillary Clinton e Robert Gates pete de souza/casa branca/reuters

Um voto de vingança

O sentido de destino pessoal de Hamza bin Laden só se aprofundou com a morte do pai e do meio-irmão, Khalid, às mãos dos soldados americanos.

Em 2015, quando al-Zawahiri apresentou Hamza ao mundo como um “leão” da Al-Qaeda, o jovem (então com 26 anos) já tinha a voz de um militante islamista, incentivando os seus seguidores, numa gravação áudio, a infligir “o maior número possível de ataques dolorosos” a cidades ocidentais, de Washington a Paris.

Um ano depois, fez uma mensagem mais pessoal, que pretendia servir de tributo ao seu falecido pai. Com o título “Somos todos Osama”, o ensaio falado de 21 minutos incluiu um voto de vingança.

“Se pensam que o crime que cometeram em Abbottabad não teve um acerto de contas, estão enganados”, disse. “O vosso acerto de contas vai ser duro. Somos uma nação que não descansa perante a injustiça.”

Os analistas sobre terrorismo identificaram vários temas recorrentes nas publicações em áudio de Hamza bin Laden, que distinguem a sua filosofia de militante islamista das opiniões expressas pelo seu pai e pelo putativo líder da Al-Qaeda, al-Zawahiri. Uma diferença: ao contrário de al-Zawahiri, Hamza bin Laden tem evitado críticas abertas ao Estado Islâmico, talvez para evitar antagonizar os seguidores deste grupo terrorista que podem sentir-se inclinados a mudar para a Al-Qaeda.

O amigo da família Bin Laden sugeriu que esta omissão é deliberada, fazendo parte de uma tentativa de posicionar Hamza bin Laden como uma figura unificadora para os militantes islamistas. Este amigo — que falou sob a condição de manter o anonimato, para poder comentar livremente — indicou que Hamza bin Laden tem várias vantagens neste aspecto, visto que pode afirmar-se como descendente do profeta e como filho da realeza jihadista.

“A ideia é que vai ser muito difícil para a liderança do Daesh atacar Hamza, tendo em conta quem ele é”, disse o amigo da família.

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O ataque em Manchester a 3 de Junho foi reivindicado pelo Daesh. O terrorista Hamza bin Laden tem tentado aliciar os descontentes do Daesh para lutarem em nome da Al-Qaeda getty images

A outra diferença está nos apelos persistentes de Hamza bin Laden a ataques autónomos, cometidos por “lobos solitários”, contra um conjunto vasto de alvos. Neste ponto, parece que ele está a seguir a cartilha do Estado Islâmico, que tem promovido uma espécie de jihad “do homem comum” que não depende de instruções nem da permissão de superiores hierárquicos. As suas publicações na Internet têm elogiado Nidal Hassan — o psiquiatra militar e atirador condenado do atentado de Fort Hood, que matou 13 pessoas num ataque a uma base no Texas, em 2009 —, bem como os dois britânicos de ascendência nigeriana que mataram à machadada o soldado britânico Lee Rigby numa rua junto ao seu quartel em Londres, em 2013.

Nenhum destes atacantes era um membro conhecido da Al-Qaeda. No entanto, ao elogiar estes ataques, Hamza bin Laden parece estar a associar-se a um estilo de terrorismo mais agressivo que apela aos jovens militantes islamitas, segundo os analistas e especialistas. As mensagens deste tipo também transmitem a impressão de uma rede terrorista que, apesar de abalada, está longe de ser derrotada, afirmou Bruce Hoffman, um antigo conselheiro americano sobre contraterrorismo e director do Center for Security Studies da Universidade de Georgetown.

“Ele traz uma garantia de que, apesar de a Al-Qaeda ter sido atacada nos últimos anos, ela continua em boas mãos, com um Bin Laden jovem que está numa situação ideal para continuar a luta”, disse Hoffman. “Desde que era pequeno, Hamza bin Laden queria seguir as pisadas do pai. Do ponto de vista da Al-Qaeda, agora é o momento crucial para ele atingir a maioridade e assumir a autoridade.”

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post

Souad Mekhennet, autor de I Was Told to Come Alone: My Journey Behind the Lines of Jihad é correspondente da secção de Segurança Nacional. É fellow na New America Foundation e co-autora de outros três livros.

Joby Warrick escreve sobre terrorismo. É autor de dois livros, incluindo Black Flags: The Rise of ISIS, publicado em 2015, que recebeu o Prémio Pulitzer para não-ficção em 2016.

Este artigo encontra-se publicado no P2, caderno de domingo do PÚBLICO