Robô submarino português desceu sozinho até aos mil metros

É o primeiro veículo submarino autónomo desenvolvido em Portugal para ir a grande profundidade. Objectivo é que seja usado por instituições científicas do país.

O veículo <i>Medusa Deep Sea</i> durante os testes no mar
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O veículo Medusa Deep Sea durante os testes no mar DR

Navega sozinho debaixo de água a grande profundidade. Chama-se Medusa Deep Sea e é o primeiro veículo submarino autónomo desenvolvido e produzido em Portugal para mergulhar até aos 3000 metros. Acabou de passar um teste importante: pela primeira vez, aventurou-se a descer mais de mil metros, no mar alto.

Os testes no mar decorreram numa campanha (cerca de uma semana) do navio espanhol Sarmiento de Gamboa, a 40 milhas marítimas da costa portuguesa. Houve dois mergulhos do Medusa Deep Sea, um primeiro a 594 metros e depois aquele que atingiu os 1219 metros esta segunda-feira, conta o engenheiro electrotécnico Luís Sebastião, do Instituto de Sistemas e Robótica (ISR) do Instituto Superior Técnico (IST), em Lisboa.

Para explorar o seu imenso mar, incluindo o fundo, Portugal não dispõe de nenhum veículo como o Medusa Deep Sea. O que já tem para avançar pelas profundezas do mar é o robô submarino Luso, que faz parte dos chamados “veículos operados remotamente” (ROV, na sigla em inglês), o que significa que se mantém sempre ligado a um navio com um cabo, por onde é comandado e por onde quem fica no navio vai recebendo imagens em directo e outras informações do fundo do mar durante o mergulho. Foi comprado em 2008, por três milhões de euros, à empresa norueguesa Argus Remote Systems, que o fabricou. É capaz de descer até aos seis mil metros, pelo que chega a 97% de todos os fundos oceânicos. E tem sido usado nos trabalhos de extensão da plataforma continental para lá das 200 milhas.

Já o Medusa Deep Sea, em vez de estar ligado por um cabo a um navio, é o que se designa por um “veículo submarino autónomo” (AUV, em inglês). Ora robôs submarinos como o ROV Luso e o AUV Medusa Deep Sea podem complementar-se na exploração do interior da coluna de água e do fundo do mar e tornar a recolha de informação mais eficiente. Como um batedor no terreno, o Medusa Deep Sea pode fazer os primeiros levantamentos de uma zona com interesse científico ou outro. E, em seguida, poder-se-á enviar o Luso para a explorar com mais pormenor, por exemplo recolhendo amostras de rochas ou biológicas ou obtendo vários tipos imagens de alta resolução. Mas enquanto o Luso é telecomandado, o Medusa Deep Sea segue de modo autónomo um plano de instruções já pré-definidas, resume Luís Sebastião. As informações armazenadas são recuperadas no fim da missão.

Uma família nascida no IST

O novo robô submarino resulta de um consórcio de instituições portuguesas: além do IST, entrou o Centro de Engenharia e Desenvolvimento de Produto (Ceiia), em Matosinhos; o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA); a Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental (EMEPC); e o Instituto do Mar (Imar). Participou ainda a empresa Argus Remote Systems, que desenvolveu os propulsores do novo veículo.

E se o Ceiia coordenou o desenvolvimento do Medusa Deep Sea e foi responsável pelo projecto mecânico, o estudo hidrodinâmico e a produção do corpo do veículo, ao IST coube toda a parte dos sistemas de navegação e controlo e sistemas computacionais e de energia, bem como a sua validação em testes em mar profundo. Já o IPMA, a EMEPC e o Imar entraram como utilizadores finais do veículo, “estabelecendo os requisitos para o que robô deve ser capaz fazer e ajudar a que não fique parado e recolha dados importantes”, explica Luís Sebastião.

“Pelo mundo fora, há robôs deste tipo. Tipicamente, são caros e usados pelas grandes empresas de prospecção de petróleo e gás”, refere o investigador. “Portugal, com a plataforma continental estendida, tem grande interesse em ser capaz de mapear e conhecer o que efectivamente tem [no fundo do mar]. Se não tiver ferramentas deste género, terá de contratar alguma para esse serviço.”

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O veículo submarino autónomo nos testes no mar DR

Iniciado há cerca de um ano, o projecto contou com 370 mil euros – 85% dos quais vindos do Mecanismo Financeiro do Espaço Económico Europeu (ou EEA Grants), que tem a Noruega, a Islândia e o Liechtenstein como doadores de vários países, incluindo Portugal, para corrigir assimetrias. Os restantes 15% vieram dos parceiros do projecto.

“Este Medusa faz parte de uma família. Aproveitámos o cérebro dos outros parentes da família e colocámos um corpo mais robusto que pode ir aos 3000 metros. Os outros veículos são mais pequenos, de um metro e 20 e poucos quilos. Foram muito importantes porque foi neles que testámos o software e os algoritmos”, diz Luís Sebastião, referindo-se a AUV que têm vindo a ser desenvolvidos no IST desde 2009 e que não vão tão fundo. Dois veículos desenvolvidos pelo IST, que descem até 15 metros, foram mesmo vendidos a uma universidade alemã.

O novo Medusa tem 2,80 metros de comprimento e 350 quilos e uma autonomia de oito horas. Ainda está “em fase de desenvolvimento”, como faz questão de dizer o investigador. “Ainda falta fazer muita coisa. Por exemplo, não tem nenhum sensor que permita a um cientista obter dados úteis.” Durante este ano, a equipa pretende instalar-lhe um sonar de varrimento lateral (que através do som obtém imagens do fundo do mar) e uma câmara.

No final de Julho, o Medusa Deep Sea voltará ao mar para mais testes, desta vez em Sesimbra. Os dois corpos que o constituem, por agora cinzentos, já deverão estar vestidos com uma carenagem amarela.