Uma viagem pelo mundo dos discos da Orfeu, “património de todos”

Discos Orfeu — Imagens, Palavras, Sons reúne parte do espólio da editora discográfica fundada no Porto em 1956 e que até 1983 editou discos dos grandes poetas e músicos nacionais, de Eugénio a Sophia, de José Afonso a José Cid.

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ADRIANO MIRANDA
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Na primeira década do século XX há “um indivíduo que não era nem compositor, nem designer, nem cantor, coreógrafo, contra-regra, ensaísta, ou mestre de baile, muito menos bailarino”. Chamava-se Serguei Diaghilev e foi o pai dos Ballets Russes, a companhia com sede em Paris que mudou a dança para sempre. Em 1956, no Porto, “não sendo poeta, designer, fotógrafo ou músico”, há um empresário que sem adivinhar na altura a dimensão da obra que ajudaria a criar torna-se no “ponto de apoio” que permitiu reunir um núcleo alargado de artistas na construção de um Portugal “moderno” em pleno regime do Estado Novo. Esse empresário é Arnaldo Trindade, fundador da Orfeu, editora discográfica que é o foco da exposição Discos Orfeu — Imagens, Palavras, Sons (1956-1983), patente até ao início de Setembro na Casa do Design, em Matosinhos.  

O paralelo entre Diaghilev e Arnaldo Trindade, actualmente com 83 anos, é traçado por Jorge Cordeiro, antigo colaborador da editora que o PÚBLICO acompanhou numa visita à exposição, juntamente com o fundador da Orfeu e com alguns membros dos Pop Five Music Incorporated. Editada pelo selo portuense, a primeira banda do compositor e administrador da Sociedade Portuguesa de Autores, Tozé Brito, tem um lugar de destaque na exposição, com uma instalação exclusivamente dedicada ao grupo.

“O Arnaldo, que é o mais velho entre nós, é o cristal disto tudo”, diz Jorge Cordeiro, referindo-se a parte do espólio exposto na sala de Matosinhos. “Teve uma visão muito aberta, muitas vezes sem olhar a custos”, conta, recordando que Trindade priorizava a arte e deixava para mais tarde os cálculos do dinheiro que seria gasto com as obras editadas. Quanto vai custar? “Depois vê-se”, dizia muitas vezes Trindade, lembra o antigo colaborador.

Considera-o “a alavanca”, o “homem que abriu caminho” para a divulgação da obra, registada em áudio, de poetas como Miguel Torga, José Régio, Eugénio de Andrade, José Rodrigues Miguéis ou Sophia de Mello Breyner. E também de músicos como Adriano Correia de Oliveira, José Afonso, Fausto, Conjunto António Mafra, Sérgio Godinho, José Cid, Janita Salomé, Vitorino e de bandas rock como os Pop Five Music Incorporated ou Arte e Ofício. O trabalho de imagem sempre foi igualmente uma prioridade. Nas capas dos lançamentos da Orfeu trabalharam designers, muitos deles saídos das Belas Artes do Porto, como José Santa-Bárbara, Fernando Aroso, José Brandão, José Luís Tinoco ou Alberto Lopes, e fotógrafos como Fernando Aroso, Eduardo Gageiro, Álvaro João, Nick Boothman, João Paulo Sotto Mayor ou Patrick Ullmann, responsáveis por boa parte das capas expostas na Casa do Design.

“Fez um trabalho notável e de forma brilhante, sem ir contra ninguém, mas contra um estatuto, e sempre seguindo um caminho pró-modernidade”, afirma ainda Jorge Cordeiro, acrescentando que mesmo que na altura não se soubesse o que poderia ser a modernidade havia a certeza de que o que se vivia na época em Portugal estava longe de o ser. Em matéria de negócios, recorda a forma honesta como se realizavam os contratos: "O Adriano [Correia de Oliveira] disse-me uma vez que o contrato que tinha estava selado com um aperto de mão."

Da Europa à América

Arnaldo Trindade conduz a viagem pela história da Orfeu. O trabalho de edição dos discos expostos é seu, mas fala do percurso da editora como se esta já não lhe pertencesse. A distância permite-lhe contar a história de algo que se tornou maior do que a própria editora, com sede na Rua de Santa Catarina, no Porto. “Já não tenho interesses comerciais associados. Estou à vontade para falar”, diz. Agora, a Orfeu é “património de todos”.

Logo à entrada está a capa de 10.000 Anos depois entre Vénus e Marte, de José Cid, “um dos discos com mais nome” da história da editora, os discos do Tango dos Barbudos, da Tonicha e do italiano Marino Marini, que recorda ter lotado o Coliseu do Porto 3 vezes. Marini terá ficado tão entusiasmado com a cidade que em 1960 grava pela Orfeu Ciao Porto.  O então patrão da editora conta que, depois de composto o instrumental, pediu a Alberto Uva, poeta e na altura director do jornal Primeiro de Janeiro e do Ateneu Comercial do Porto, para escrever a letra: “Curiosamente o lançamento é um sucesso, não por Ciao Porto, mas pelo lado B, Tintarella di luna”.

Na mesma parede à entrada da exposição, separada por três núcleos  cada um dedicado a um período temporal , estão capas de discos de Paulo de Carvalho, Fausto e José Afonso. Deste, mostram-se Cantigas do Maio, “o melhor álbum português de sempre”, e Fados de Coimbra. "Depois do 25 de Abril, o país dividiu-se ao meio: havia os que gostavam e os que não gostavam de José Afonso." Nessa altura, as vendas de Zeca baixaram. “Generoso como era, fez este disco para unificar o público, mas também para vender. Queria retribuir-nos”, recorda Trindade. 

Outra preciosidade da exposição é um registo de Miguel Torga, assinado pelo autor no próprio vinil: “Ia todos os meses a Coimbra, ele assinava e eu pagava”, ri-se o fundador da Orfeu.

Dos grandes sucessos da editora faz também parte o Trio Los Paraguayos. A história do registo que figura em Discos Orfeu — Imagens, Palavras, Sons (1956-1983) cruza-se com a das festas da cidade, corria o ano de 1956. “No São João vieram cá tocar. Depois do concerto fomos gravar numa máquina de quatro pistas." Nasce Historia de un Amor, “um sucesso mundial” e um dos primeiros lançamentos da Orfeu. Há um gravador na exposição, mas não é o mesmo que gravou este trabalho dos paraguaios. “O outro era um Ampex que trouxe dos Estados Unidos, onde todos os anos ia passar férias a casa de um tio”, conta Trindade.

“Tivemos gente de primeira classe a tocar aqui no Porto”, acrescenta. Mais a Norte, em Ofir, em 1969, houve a primeira convenção do disco em Portugal. Nas vitrines da exposição há algumas imagens dessa altura. Por lá passaram os Status Quo, os Foundations e Long John Baldry, número um em Inglaterra na altura e “patrão” de Reginald Dwight. Esclarece Trindade que Reginald era “somente” Elton John, que “ainda ninguém conhecia”. “Foram 48 horas em que ninguém dormiu. Eram todos estes nomes a tocar num lado e José Afonso e Maria da Fé noutro." Quando acabou, toda a gente pediu para que o evento se repetisse, diz.  

Cada capa tem uma história associada e Arnaldo Trindade recorda-se de todas. Um dos discos do Conjunto António Mafra que está em exposição, sem título, tem um avião da companhia Pan Am como cenário de fundo. A primeira viagem que alguma banda portuguesa fez aos Estados Unidos foi em 1960. O conjunto foi tocar a Massachusetts e na bagagem levou cem discos. Foram todos vendidos nesse espectáculo. Um amigo de Trindade que fazia parte da RCA portuguesa fez um contacto com um representante da gravadora nos EUA. A banda foi gravar a um estúdio no Rockefeller Center, em Nova Iorque — em estereofonia, uma novidade. Em Portugal só se gravava em mono. A Pan Am Air ofereceu-se para pagar as capas e fizeram-se 20 mil cópias, nenhuma das quais ficou por vender. Em troca, o avião aterrou na capa.        

Recuperar as masters

Muddy Waters ou John Lee Hooker constavam do reportório dos Pop Five Music Incorporated, que começaram a tocar na segunda metade da década de 60, “a pré-história do rock português”, brinca Tozé Brito, recordando a banda que fundou com David Ferreira, Paulo Godinho (irmão de Sérgio Godinho), Álvaro Azevedo (Arte e Ofício, Trabalhadores do Comércio) e Luís "Pi" Vareta. “Como nós havia outras bandas a tocar em todos os cantos da cidade, mas sem registos. No cenário musical, o Porto era muito forte”, sublinha. “O Arnaldo apareceu e apostou em nós." Em 1967, a banda grava pela Orfeu um EP lançado em 1968, que tem no alinhamento You'll see, primeira música que Tozé Brito compôs. Está lá a capa, numa instalação dedicada à banda que reúne os discos e alguns cartazes de concertos.

Culturalmente falando, Tozé Brito considera a obra da Orfeu “absolutamente brutal”. “Estão aqui verdadeiras obras primas. Coisas que é uma pena não se poderem recuperar, porque em muitos casos perderam-se”, lamenta. Em 1983, a Movieplay Portuguesa adquiriu todo o património da Orfeu, “a partir daí perde-se o rasto de algumas masters"; "dos poucos discos que existem, alguns estarão em mau estado”. O administrador da SPA entende que há discos que mereciam uma reedição em formato digital: “Tudo isto é história e história da boa. O ministério da Cultura deveria envolver-se para descobrir onde estão essas masters, porque isto é património e é um crime de lesa-cultura não se ir à procura dele."