Crítica

O corpo nas obras de seis colecções

No museu do Oriente, uma exposição surpreendente trata do modo como os artistas representam o corpo.

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Seis dezenas de obras assinadas por cerca de 35 artistas compõem a mais recente exposição temporária do Museu do Oriente, assinada pelo curador João Silvério que lhe deu o nome de O Olhar da Sibila — Corporalidade e Transfiguração. Na realidade, a exposição resulta de um repto lançado aos participantes de um congresso que aqui teve lugar em 2015 sobre colecções corporativas, ou seja, colecções de arte reunidas sob a égide de uma instituição empresarial.

Quer possam ser atribuídas ao empenho de gestores ou directores na sua estreita dependência, como é o caso da colecção EDP ou da colecção pertencente à sociedade de advogados PLMJ, quer provenham de núcleos diversos que se foram fundindo em resultado de decisões políticas ou negociais, como sucede, por exemplo, com a colecção da Fundação Millenium, ou ainda de instituições que se concentraram num tema ou num artista, como acontece com a Fundação Oriente e as diferentes expressões artísticas daquela zona do globo, ou a Fundação Arpad Szènes — Vieira da Silva, para a conservação e exposição de núcleos selecionados da obra deste casal absolutamente fundamental na história da arte modernista europeia, todas estas colecções partilham duas características comuns: a da integração das obras artísticas nos locais de trabalho e o assumir de uma responsabilidade social relativamente à comunidade. A encomenda de uma grande escultura a Rui Chafes pela PLMJ que foi instalada na avenida da Liberdade, em Lisboa, insere-se nesta segunda característica. Um caso particular é o da Colecção da Caixa Geral de Depósitos, fundada em 1983, e que, além de um núcleo notável de obras contemporâneas que foi sendo adquirido depois desta data, acabou por incorporar também o espólio artístico já existente na instituição bancária nessa altura. Divide-se desde então entre a colecção histórica e a colecção de arte contemporânea.

João Silvério realizou uma selecção nos acervos destas seis instituições unicamente centrado no trabalho sobre o corpo, a representação e os olhares com que, através sensivelmente dos últimos cem anos, os artistas consideraram aquele que é não só o modelo nuclear de toda a representação artística, como também o intermediário inevitável entre o espírito de cada artista e a sua obra. Afinal, é através da mão, do olhar, das células nervosas que são as suas, que aquilo que o artista imaginou se concretiza. Encontramos nesta exposição diferentes modos de olhar para o corpo, diferentes modos de o pensar também, um pensamento que é sempre refém tanto do tempo em que ocorre como do lugar e do contexto material em que ele se materializa.

Há obras nesta exposição que interrogam de maneira acutilante não apenas o corpo do modelo — caso das duas belíssimas peças de Júlio Pomar, pertencente à colecção Millenium —, como o modo como a história encarou o corpo do modelo. Neste sentido, um dos trabalhos de Rui Sanches aqui presentes, Madame Récamier segundo David, de 1989 e da Caixa Geral de Depósitos, é exemplar: o escultor salientou as linhas de composição através de volumes paralelepipédicos e esferas de metal, e a brancura do vestido da pintura original por meio de um tecido drapeado de tal forma a reproduzir a curva clara do quadro de David.

Ambos os artistas estão representados de resto na primeira sala da exposição, aquela onde o curador pretendeu mostrar uma espécie de síntese do seu conceito antes de o desenvolver nas salas seguintes. Para além destes artistas, podemos aqui destacar, por exemplo, uma pintura de Sarmento, também do Millenium, e uma pequena peça de Li Yousong, um artista chinês representado na colecção da Fundação do Oriente. Nesta última, que representa um conjunto de personagens femininas dispostas em duas fileiras, como nas antigas fotografias de grupo do princípio do século XX, surpreende-nos a inversão dos estereótipos étnicos habituais: são as figuras claramente chinesas que ocupam o lugar central, fazendo as europeias figura de acompanhantes exóticas das primeiras.

Pode dizer-se que, em geral, e mesmo na maioria dos casos de modo sistemático, João Silvério escolheu do melhor que cada colecção possui. Conhecemos de modo razoável as valências de cada um destes coleccionadores empresariais através das exposições que periodicamente vão realizando do seu acervo — neste momento, por exemplo, decorre uma notável apresentação parcial da colecção da Caixa Geral de Depósitos numa das galerias da Culturgest. E se a FASVS e a Fundação Oriente são as únicas a dispor de um museu para apresentação permanente da colecção, todas as outras nos vão deixando apreciar pelo menos uma vez por ano núcleos específicos daquilo que possuem. A inclusão de uma obra de Malhoa (Millenium), Dar de beber a quem tem sede, num conjunto que trata de questões relacionadas com a representação do nu é uma aposta certeira e muito bem conseguida. Já a presença de certas peças pertencentes à Fundação Oriente deixa-nos perplexos. O que pretenderia o curador ao justapor sensibilidades tão diversas?

A história da colecção em exposição no Museu do Oriente é, de resto, curiosa. Coabitam aí na realidade duas colecções, uma que foi construída pela própria Fundação com compras diversas “alusivas à presença portuguesa na Ásia”, segundo o site do museu, e uma outra, de pendor antropológico e internacionalmente considerada como excelente, que foi oferecida pelo museu Kwok On de Paris. Esta integra cerca de 13000 peças alusivas às artes performativas orientais — e bem sabemos como elas se relacionam com o corpo e as suas transfigurações! E se é possível perceber a natureza da colecção da Fundação Oriente através das peças escolhidas para esta exposição, o mesmo se passa com as outras entidades: colecções mais centradas na actualidade, caso da Fundação EDP e da PLMJ, colecções com um acervo relativo à história recente mais consistente, cado da Millenium e da Caixa. Será caso para perguntar se estas duas últimas estão definitivamente fechadas, ou se ainda haverá margem para enriquecimento dos respectivos acervos.

Finalmente, destaquemos algumas peças, para além de todas as que já citámos. Será obrigatório ver a instalação de Ana Jotta, o Light Corner de Feliciano (ambos da Caixa), a fotografia de Mário Macilau (PLMJ), as peças de Ana Vieira, de José Pedro Croft e de Joana Villaverde (todas da EDP), e um núcleo de livros de artista também pertencentes à Fundação EDP.

Mas sobretudo, e na nossa opinião, estas são as melhores peças de toda a exposição: um conjunto notável de pequenas pinturas que Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szènes foram fazendo durante os anos 20 e 30. Algumas delas nunca foram vistas, segundo nos diz a directora da FASVS, Maria Bairrão Ruivo, mas materializam exemplarmente o conceito que o curador quis para esta exposição: o da transfiguração do corpo, também através da arte, de um outro com quem nos relacionamos.