Crónica

Pagam os olhos

Ultimamente tenho exagerado nas leituras. Nunca pensei escrever esta frase. Também não sabia que os olhos doíam quando se lê demais. Ler demais: mais uma combinação de palavras que nunca me ocorreria fazer se eles não me doessem.

Maltratamos os ouvidos quando ouvimos a música muito alta. O que não sabemos quando começamos a usar auscultadores ou a ir a concertos é que os danos são permanentes. Ficamos a ouvir pior. Quantas vezes foi preciso ouvir a palavra "irreversíveis" até perceber que o mal estava feito e já não tinha cura?

Maltratamos os olhos lendo coisas que não foram feitas para ser lidas (computadores e, particularmente danosos, iPads). Mas o pior é que, mesmo tendo cuidado e lendo só Kindles e papel, é a vez dos nossos olhos não serem feitos para ler livros durante mais de 3 ou 4 horas de cada vez. E estas vezes, ainda por cima, precisam de intervalos cada vez maiores. Em que se faz o quê? Vêem-se filmes num televisor. Acaba-se o segundo e, acordando do feitiço, ambos os olhos ardem de tão apertados, como se alguém tivesse estado sentado em cima deles. Estranho, não é? Quem terá sido?

Mais deprimente ainda do que amaldiçoar os olhos — um triunfo da ingratidão — é ouvir, com os tais ouvidos já muito fraquinhos, que é natural que doam. Para completar a festa só falta perguntarem-me quantos anos é que tenho.

Maldita seja a recordação anímica, perdida nas neblinas da culpabilidade e da infância, de uma voz desincarnada e grave a anunciar, cheia de razão: "hás-de pagá-las!"