Marco Franco privou com o piano até este se deixar tocar

Até há pouco tempo apenas o conhecíamos como baterista, agora estreia-se no piano solo com Mudra. Registo de um músico em conquista romântica de um instrumento.

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Vera Marmelo

Marco Franco, o pianista, apresentou-se pela primeira vez ao vivo no último Festival Rescaldo, na Culturgest. E ninguém sabia muito bem o que esperar. Até então, só conhecíamos Marco Franco, o baterista, que há mais de duas décadas vem construindo uma carreira que começou pelo hard-rock e thrash metal – andou pelos Massive Roar e pelos Ibéria, chegou a participar, em 1990, no Festival RTP da Canção com Os Helena –, guinou para o rock alternativo traçado de funk – quando passou pelos Braindead –, transitou pelos Peste & Sida e migrou depois para a música improvisada e para o jazz, tendo sido um dos fundadores dos Tim Tim por Tim Tum. Nos últimos anos, temo-lo encontrado a tocar com os Mikado Lab, a integrar o excelente quarteto de música improvisada Clocks and Clouds ou a saltar a bordo do duo de rock instrumental Memória de Peixe.

Só que enquanto ia desenvolvendo toda esta actividade pública, Marco Franco foi ultimamente levando uma outra vida secreta, praticando piano longe de ouvidos indiscretos, tendo a sorte de encontrar um exemplar disponível no Goethe Institut onde se encontrava a salvo de passar pelo embaraço de ser apanhado a brincar com um instrumento que só aos poucos começava a amestrar. “Tentei não contar a ninguém e perceber, depois, se valeria a pena mostrar o que estava a fazer”, recorda ao Ípsilon, agora que vai apresentar o seu primeiro álbum de piano solo, Mudra, no Teatro Maria Matos, em Lisboa, a 31 de Maio. Até a própria mulher, estando a par dessa obsessão que desenvolvera com o piano, nunca o ouvira tocar até à noite do Rescaldo. “E não conseguiu ver o concerto, ficou de olhos fechados, em choque, numa espécie de sofrimento”, conta o músico.

“Foi uma decisão um pouco doentia da minha parte”, confessa acerca desse período de prática pianística insistente e em segredo, conquistando um espaço para desenvolver a sua linguagem e as suas capacidades, mas também para que, no caso de esse investimento fracassar, poder equivaler a uma queda invisível para o mundo, por detrás de uma cortina, deixando mazelas de que só o próprio se daria conta. “Acho que foi necessário fazer assim porque foi uma ligação quase íntima, até me ser dada uma resposta de que se calhar seria boa ideia fazer um concerto – antes sequer de pensar num disco.” Para Marco, a questão é quase romântica: “É preciso privar com o instrumento para depois, talvez, ter a permissão do piano para ele se deixar tocar.”

Marco Franco sabe bem que está a romantizar a sua relação com o piano. Mas é a forma mais verdadeira que encontra para definir esta vontade que o invadiu sem saber muito bem como nem porquê. Há muito que os teclados e os sintetizadores fazem parte dos seus recursos essenciais para a composição, mas há toda uma outra dinâmica e uma outra fisicalidade implicadas na abordagem ao piano – “é um instrumento terrivelmente complexo e dos mais difíceis de tocar no planeta”, acredita, com “uma independência de membros assustadoramente enorme”.

É “uma actividade quase de alto risco”, chama-lhe, pensando que um dedo caído na tecla errada do piano, por mais suave que possa ser o toque, se ouve com estrondo. Mas talvez isto fosse algo que Marco teria mesmo de explorar ao cabo de vários anos a ter sonhos recorrentes com pianos. “Acho que uma das razões do chamamento terá sido primeiramente esse lado onírico”, confessa. “E depois toda a minha paixão pela música para piano, que sempre me interessou e sempre ouvi bastante.”

Coisas mais invulgares

Um dos autores que Marco Franco ouviu bastante foi Erik Satie, que parece encontrar-se sempre no rasto das suas peças – mas também a delicadeza de Debussy e, de forma mais longínqua, o minimalismo de Raymond Scott, nas peças de coloração mais lounge. “Conheço tão bem a obra do Satie que não o encontro assim tanto neste disco”, responde Marco Franco, pianista. “Claro que a haver essa presença nunca será acidental porque, de facto, é um dos compositores que me intriga desde há muito tempo.” Esta não é, portanto, uma ode a Satie, por muito que o músico não torça o nariz a essa possibilidade num qualquer momento do seu futuro.

A sua garimpa na exploração da composição para piano, diz, está sobretudo ligada a uma “procura por coisas que são mais invulgares”. Algo que elege, talvez, como a sua missão primordial e que surpreende, antes de mais, porque este não é seguramente o universo musical que se imaginaria Marco a escolher como habitação mais ou menos permanente. Conhecendo o seu percurso recente, seria mais previsível que se tivesse abandonado a uma exploração mais desregrada do piano, numa dinamitação de quaisquer elementos alinhados com uma filiação clássica; em vez disso, há nestas peças um absoluto respeito por estruturas que se diria de canção ou de pequenos estudos pianísticos, com uma solidez harmónica e um lirismo melódico de uma frágil e leve melancolia que dificilmente se poderia antecipar.

Marco Franco não parece o mesmo quer o encontremos atrás da bateria ou de frente para o piano. Ainda assim, na sua cabeça não há propriamente uma cisão entre os dois. Faz-lhe mais sentido pensar “nos hipotéticos heterónimos que todos nós temos ou podemos ter”. Faz-lhe mais sentido citar universos paralelos, embora para si a génese desta segunda vida criativa seja exactamente a mesma de qualquer outro projecto em que se veja metido – a criação musical, a traço grosso. “O instrumento pode ser recente para mim”, diz. “Mas a música não é.” A sua composição instrumental, no entanto, está sedimentada talvez de forma mais sólida na música que tem escrito para teatro, dança e cinema.

Enamorado sobretudo das possibilidades imensas que o piano oferece e cativado por uma hipótese que nunca antes o seduzira – tocar a solo, apesar das propostas que teve para o fazer com a bateria e que sempre descartou, admitindo que trabalha melhor sozinho do que numa sala de aulas, onde tem mais dificuldades de concentração e é mais irrequieto –, Marco tenta em Mudra chegar a lugares que a sua música nunca antes alcançara. Mudra, termo ligado ao budismo, ao hinduísmo e ao ioga, a culturas antigas e rituais de dança, evoca as posições das mãos. E foi por isso que se impôs, quando o músico percebeu que, “no piano, as mãos entram dentro das teclas e do teclado”. De certa forma, é isso que se ouve em Mudra: Marco Franco, o pianista, entrando pelo instrumento, descobrindo uma segunda natureza.