Porque derrete a neve no tecto desta prisão síria? (E será um tecto?)

A Amnistia Internacional calcula que pelo menos 17.723 pessoas morreram nas prisões sírias desde o início da guerra civil. É o mesmo que dizer dez pessoas por dia. Muitas morreram na famosa prisão de Saydnaya. A mesma onde os EUA acreditam, agora, que há um crematório.

A prisão síria de Saydnaya, conhecida como o “matadouro” de Bashar al-Assad, está fechada ao mundo. Não há relatos de visitas de inspectores, nem de activistas, jornalistas ou diplomatas. Mas há imagens de satélite e, através delas, olhos treinados fazem uma observação diária do que ali se passa — no exterior, naturalmente.

A vigilância é tão minuciosa que a mais pequena mudança é notada.

Há uns dias, numa conferência de imprensa convocada fora das rotinas, o Departamento de Estado norte-americano anunciou que desclassificara três fotografias da prisão e a seguir distribuiu-as pelos jornalistas. Stuart Jones, um diplomata de carreira que manteve a posição de adjunto do secretário de Estado para o Médio Oriente na passagem da Administração Obama para a de Trump (agora interino), explicou o que eram aquelas imagens e dirigiu o olhar de todos para o tecto de um pequeno edifício que começou a ser construído no complexo de Saydnaya há quatro anos, a poucos metros do bloco principal da prisão.

As fotografias — até agora classificadas como top secret — têm uma tese por trás. O Governo americano apresenta-as como uma “prova” de que Damasco está a cometer crimes contra a humanidade, puníveis pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) de Haia, e que os quer esconder.

Este edifício do segundo bloco de Saydnaya é um pequeno anexo contíguo ao muro que fecha o pátio criado pelo “L” do edifício de quatro andares, onde se imagina que haja celas. Juntos, os dois “L” desenham um quadrado com dois lados altos e dois lados baixos. Foi para o anexo colado ao muro baixo que Stuart Jones pediu atenção.

Olhando de relance e sem pensar, imaginamos que o chão está coberto de areia. Mas o cinzento das imagens de satélite esconde o que, segundo os EUA, é branco puro de neve. Uma das imagens agora desclassificadas é de Janeiro de 2017 e é considerada decisiva. Tudo branco, menos quatro áreas que estão, em notório contraste, cobertas de um tom preto bem nítido.

É desse o tom preto que nasce a teoria norte-americana sobre o que se passa na prisão de Saydnaya.

Segundo Stuart Jones, as imagens deste anexo que foram captadas três anos antes (a 13 de Agosto de 2013) mostram “a fase de construção” do edifício e por isso revelam pormenores que ficam escondidos no fim das obras, entre os quais as “instalações de aquecimento, ventilação e ar condicionado, o tubo de escape, a provável parede corta-fogo e a provável entrada de ar”.

Por saber que Saydnaya é o “matadouro” de Assad e por acreditar que ali haverá 50 a 100 execuções por semana — por semana, não é gralha —, a Administração americana considera “plausível” que o rectângulo negro seja o tecto de um crematório. “Neste momento, acreditamos que o regime sírio instalou um crematório no complexo penitenciário de Saydnaya, onde os restos mortais dos detidos poderiam ser destruídos sem deixarem muitos indícios”, disse Stuart Jones.

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A Amnistia Internacional acredita (e os EUA também) que, entre 2011 e 2015, foram enforcados em Saydnaya pelo menos 13 mil pessoas, a maioria dos quais civis que se opunham ao regime de Damasco. “Se há este nível de produção de assassinatos em massa, usar o crematório ajudaria”, disse Jones. Quando se olha para a imagem do mesmo anexo em Janeiro de 2015, “vemos a neve derretida no telhado que indicaria um crematório”. A ideia é que, “apesar de muitas atrocidades do regime terem sido bem documentadas, a construção de um crematório é um esforço para encobrir a extensão dos assassinatos em massa que ocorrem na prisão de Saydnaya”.

Perante isto, um jornalista perguntou:
— Ou é apenas uma parte mais quente do prédio, certo?
— Possivelmente —, responde Jones.

Não é evidente que a tese norte-americana esteja correcta. É até fácil ver no negro do suposto tecto onde a neve derreteu outras hipóteses para além da de um crematório.

O negro pode simplesmente ser uma sombra, se, em vez de um tecto, aquele rectângulo for um vazio. Observando com atenção, o negro do que é identificado como um “tecto” é exactamente igual ao rectângulo negro que está imediatamente acima — e criado pela sombra do muro baixo. Do mesmo modo que é igual ao negro criado pela sombra do braço noroeste do edifício mais alto. A mancha escura é irregular porque a sombra acompanha a forma da neve — e a neve é irregular. Isso é também o que acontece à sombra maior no pátio interior da prisão, cuja forma não é rectilínea.

A Administração Trump sabe que há muitas perguntas que ficam por responder. Por exemplo: como é que o Departamento de Estado tem a certeza de que é um tecto? Não pode ser uma sombra? Como é que sabem que o tecto é preto? Foi pintado ou é coberto por um material preto? Têm fotografias onde se vêem as cores dos outros tectos? E também são pretos? As coberturas dos edifícios novos na Síria costumam ser pretas? Há fotografias da cobertura do edifício em causa na Primavera? A cobertura da metade contígua, que no Inverno fica branca, também é preta quando não há neve? Como se explica a imagem de satélite tirada em Abril de 2017, onde se vê branco na área que em Janeiro de 2015 está preto?

Perante estas dúvidas, Katherine Caro, do gabinete da porta-voz do Departamento de Estado, respondeu ao P2 apenas que, “no momento, não há mais informação para partilhar”. Do mesmo modo que, depois de apresentar a tese, Jones respondeu apenas a duas ou três perguntas dos jornalistas.

Que não haja confusão. Ninguém duvida que o regime de Assad comete — diariamente — atrocidades passíveis de virem a ser julgadas no TPI. Ou que o regime é capaz de construir um crematório para se desfazer do excesso de corpos das suas prisões. É mais seguro reduzir os corpos a cinzas do que enterrá-los em valas comuns (apesar de os crematórios não eliminarem os esqueletos, apenas a carne).

Mas todos se lembram ainda da frase que Colin Powell disse perante o Conselho de Segurança das Nações Unidas, a 5 de Fevereiro de 2003, no início do seu longo (e histórico) discurso sobre o Iraque: “Meus colegas, cada declaração que vou fazer hoje está apoiada em fontes, fontes sólidas. Não se trata de assunções. O que vos vamos dar são factos e conclusões baseadas em intelligence sólida.”

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A própria Amnistia Internacional mantém uma prudente distância em relação à tese do crematório. Mas diz, através do seu director de comunicação em Portugal, Paulo Fontes, que, “apesar de a Amnistia não ter podido analisar de forma independente as fotografias divulgadas pelo Departamento de Estado, nem o uso de crematórios para destruir corpos na prisão de Saydnaya, as declarações do Departamento de Estado tornam ainda mais vital que a Rússia e os EUA exerçam pressão sobre o Governo sírio para garantir o acesso de monitores independentes para investigarem as condições em Saydnaya e em todas as outras prisões na Síria”.

São fortes as razões para um escrutínio internacional, documentadas em vídeos e relatórios impressionantes. Além dos relatos dos (poucos) sobreviventes de Saydnaya, há as fotografias de “César”, nome de código do antigo fotógrafo da polícia militar síria que, antes de desertar, conseguiu enviar para o exterior 50 mil fotografias de vítimas de maus tratos e presos mortos, muitos deles em Saydnaya. O Human Rights Watch disse que as fotografias de “César” eram genuínas depois de uma investigação de nove meses (entrevistou 37 antigos prisioneiros que viram prisioneiros morrer à sua frente, quatro desertores que trabalhavam em prisões e hospitais militares sírios, peritos forenses e familiares de desaparecidos). Em 2014, “César” testemunhou numa audição no Congresso americano com a cabeça coberta por um lenço azul. “As declarações feitas pelo Departamento de Estado evocam de forma arrepiante os horrores que a Amnistia documentou no relatório Human slaughterhouse: Mass hangings and extermination at Saydnaya Prison, Syria, de Fevereiro, no qual foi revelada a existência de uma campanha de execuções extrajudiciais com enforcamentos maciços e políticas de extermínio em Saydnaya”, diz Paulo Fontes.

Com a Forensic Architecture, uma agência de investigação forense com base na Goldsmiths, Universidade de Londres, a Amnistia reconstruiu um modelo 3D interactivo da prisão de Saydnaya. O crematório não faz parte da reconstituição. Mas ajuda a perceber que é possível.