Reportagem

“Gostava de ser como os pastorinhos. Afinal, não…”

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Enric Vives-Rubio
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Andreia Rodrigues, 11 anos, tem na ponta da língua a história dos três pastorinhos de Fátima, aprendida na catequese. “Eram uns meninos que, um dia, estavam a pastar as ovelhas e viram luzes e relâmpagos. E apareceu uma senhora a quem eles perguntaram o que lhes queria. Ela disse que não ia contar agora, só quando viesse das outras vezes. Era a Nossa Senhora”, diz. E que mais faziam os meninos. “Pastavam ovelhas”. E iam à escola? Aqui Andreia baralha-se. Pensava que sim, não sabia que Francisco e Jacinta Marto, bem como a prima Lúcia de Jesus, quase não tinham ido à escola. Quando o descobre, ali mesmo, no exterior do Santuário de Fátima onde ela e a sua família não conseguiram entrar, tem uma súbita mudança de opinião. Começa por dizer que “sim, gostava de ser como os pastorinhos”, mas ao ouvir falar dos sacrifícios que se diz que as crianças realizavam e do tempo que passavam a rezar, em vez de irem à escola, franze o nariz no rosto bonito: “Afinal, não…”.

Várias crianças marcaram presença no Santuário de Fátima, no dia em que Francisco e Jacinta Marto foram considerados santos, mas poucas têm uma noção clara da história dos dois irmãos e tudo fica ainda pior quando a palavra “santos” entra na conversa. Dinis Almeida, de 8 anos, chegou na sexta-feira do Porto e até sabe dizer que, no sábado, as duas crianças iam “fazer-se santos”, mas o significado disso escapa-lhe: “Não sei”, admite, confessando que depois de tanto tempo em Fátima já só quer mesmo fazer aquilo de que verdadeiramente gosta: “Estar em casa e ver televisão”.

Ao contrário de Dinis, Carminho, de 13 anos, sobrinha da fadista Cuca Roseta, que teve o privilégio de, com a irmã, Gracinha, de 6 anos, assistir a parte da missa dentro do recinto, mas longe da amálgama de pessoas, tem uma opinião muito clara do que é ser-se santo. “Quer dizer que estão realmente no céu”, diz para a irmã que acabara de confessar não saber o que isso era, depois de contar que “Nossa Senhora apareceu na Cova da Iria aos meninos em cima de uma árvore, mas não me lembro qual”.

A mais nova das duas irmãs responde com um “sim” entusiástico quando lhe perguntam se gostava de ser como Francisco e Jacinta, mas Carminho interpela-a: “Não, isso não, então eles não iam à escola”.

Crianças que viram Nossa Senhora e que pastavam ovelhas é a descrição generalizada das crianças que falaram ao PÚBLICO e que dizem ter ouvido a história na catequese. Mas pouco mais sabem dizer. Manuel Rodrigues, de 6 anos, vive em Lisboa e acrescenta a esta parte da história, a informação de que “Nossa Senhora lhes disse para rezarem muito e serem bons”. Catarina Gomes, de 10 anos, da Malveira, explica que as crianças de Aljustrel que estiveram na origem do culto a Nossa Senhora de Fátima “iam pastar ovelhas e rezar”. Quanto a isso de ser santos, não significa mais para ela do que “ser pessoas importantes”. Tal como Andreia, começa por se entusiasmar com a ideia de poder ter uma vida tão admirada como os dois irmãos Marto, mas também ela acaba por pensar melhor: “Passar o dia todo a rezar, não”.

Já o irmão dela, João Miguel, de 5 anos, um Transformer em cada mão, saltita pelo exterior do recinto do Santuário, e não quer saber de pastorinhos, de Papa Francisco ou de Fátima. “Estou farto de estar aqui”, atira, sem hesitar.

Martim Amorim, de 8 anos, também não está com um ar muito entusiasmado. Cabeça pousada nos braços assentes numa grade de protecção, está com os pais nas traseiras do Santuário, a ver se tem a sorte de ver o Papa Francisco sair e passar por ali. Chegaram de Ponte de Lima na noite do dia 12 e, por enquanto, a maior aventura que teve foi ter dormido no carro. De rosto moreno, começa por dizer que “sim”, sabe quem são Francisco e Jacinta. “Eram dois meninos”, mas depois não vai além disto. Não sabe o que fizeram, que foram tornados santos e que vidas viveram. Ou então está demasiado envergonhado para contar. A mãe, Florbela Rodrigues, admite que "talvez seja a primeira hipótese”. “Se calhar não sabe mesmo. Nós não lhe contamos”, diz.

Martim lá fica, à espera de uma hipótese de vislumbrar o Papa. Lara Marques, de 5 anos, que chegou da Guarda e nada sabe sobre pastorinhos e santos, esperou largos minutos com a família para entrar no recinto do Santuário, mas ainda terá conseguido entrar. Se assim foi, realizou a única vontade que soube transmitir relacionada com esta viagem em família: “Vinha ver o Papa”. Tudo o resto, terá que ficar para quando crescer um pouco mais.