Reportagem

A política francesa vista com sotaque português e um tique Le Pen

O que leva os emigrantes, e os descendentes de emigrantes da Europa do Sul, a simpatizar com o partido de Marine Le Pen? Há estudos que mostram a ligação e há esforços da comunidade portuguesa em França para contrariar essa tendência.

EPA/SEBASTIEN NOGIER
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EPA/SEBASTIEN NOGIER

O jogo é o Benfica-Estoril, ao fim da tarde de um sábado ameno em Paris, que permite gozar de uma esplanada. Mas para os indefectíveis do clube das águias é melhor sofrer lá dentro, a olhar para a televisão de ecrã grande que está colocada a um canto do Café do Château Chez César e Paulo, um ninho de benfiquistas na capital francesa. O que pensam de Marine Le Pen? O tema da política não é o primeiro que vem à cabeça da clientela, mas quase ninguém se furta a discuti-lo – a segunda volta das presidenciais é já domingo.

“Eu não voto, porque não tenho nacionalidade francesa, mas se votasse era na Marine Le Pen”, diz o taxista Igor Gonçalves, madeirense de 32 anos, há 15 emigrante em França, onde se casou com “uma rapariga do Norte” e tem um filho, já nascido ali. “Actualmente há uma demagogia dos partidos, que já não pensam no povo. Só pensam neles.”

“Levo muitas pessoas no táxi que votam em Marine Le Pen não porque são racistas, mas por outros motivos, que se arrastam há anos. E o Governo usou o Artigo 49.3 da Constituição para passar à força leis sem serem votadas pelo Parlamento [incluindo reformas concebidas pelo ex-ministro da Economia e agora candidato independente Emmanuel Macron], é por isso que as pessoas vão votar nela”, diz o taxista português a ver o jogo.

A António Alves, de 70 anos, também taxista, há 44 anos anos em França, “Marine Le Pen não diz nada”. Macron também não. “François Fillon [o candidato da direita tradicional, eliminado na primeira volta] seria o melhor Presidente, para meter um bocado de rigor em França”, diz este homem que não pára de trabalhar, apesar de já ter passado bem a idade da reforma. “Falta segurança e disciplina, o país está à deriva. Perdeu-se o respeito, cada um faz o que quer.”

António Alves também não vota, apesar de estar há tanto tempo em França, mas interessa-se pela política do país em que vive. E pode-se dizer que, com a sua preferência por Fillon, corresponde ao escalão etário dos eleitores de Fillon, que obteve a confiança dos votantes mais velhos.

Os escândalos de corrupção que foram eclodindo em torno do ex-primeiro-ministro de Nicolas Sarkozy, como minas que pisava cegamente, não o impressionam. “Qual é o presidente de câmara hoje que não tem um amigo ou familiar a trabalhar com ele? Já deram cabo de outro homem que era o melhor para governar França, Dominique Strauss-Khan. Os jornalistas de esquerda é que têm dado cabo de França”, considera.

Jovens por Marine

A simpatia dos emigrantes portugueses e luso-descendentes pelos partidos de direita e, mais concretamente, pela Frente Nacional, tem sido observada há vários anos, de forma empírica e em alguns estudos. É como um tique, um gesto que se repete inconscientemente.

Uma sondagem sobre a tendência de voto dos eleitores que iriam ter idade para votar pela primeira vez nas presidenciais de 2017, conduzido pela investigadora Anne Muxel, do Instituto Sciences Po, e divulgado há um ano, concluía que os jovens de origem portuguesa eram os mais conquistados por Marine Le Pen: 50% diziam ter a intenção de votar nela para Presidente de França.

O fenómeno não é único entre os luso-descendentes. A mesma tendência detectava-se entre os jovens descendentes de emigrantes em França de países da Europa do Sul: 45% dos italianos, 41% dos espanhóis. E, em geral, 60% dos jovens desempregados em busca do primeiro emprego expressam simpatia pela Frente Nacional, escrevia a investigadora.

Mas nada disto serve para justificar as escolhas dos portugueses em França, frisa Luciana Gouveia, delegada-geral da associação de promoção da cultura portuguesa Cap Magellan, que apelou a “erguer barragem” contra a Frente Nacional e votar em Emmanuel Macron, com várias acções na rua e online. “Tentar explicar ou justificar [a tendência dos portugueses para a Frente Nacional] não pode servir para os desresponsabilizar. A FN continua a ser um partido racista, xenófobo, mas que tenta enganar as pessoas mostrando-se mais soft”, diz.

“O que está a acontecer em 2017, e não aconteceu nas eleições de 2012, é que há uma banalização da Frente Nacional, mas esta realidade é tão válida para os portugueses como para os restantes franceses. A FN está forte, porque França está fraca”, resume.

“Os emigrantes portugueses receiam talvez que o seu nível de conforto seja posto em causa, e os seus filhos temem de forma mais forte que o trabalho dos pais não seja reconhecido. Mas não podem esquecer que nós somos estrangeiros em França, Marine Le Pen acabará por não fazer diferença”, avisa a dirigente associativa Luciana Gouveia.

Ao contrário do que se passou com o referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, em que os jovens são os mais pró-europeus – o difícil era levá-los às urnas para votar –, a juventude francesa, que nos últimos anos inflectiu claramente à direita, segundo os estudos de Anne Muxel, não é particularmente entusiasta da Europa. Aliás, estão prontos a classificar-se como uma “juventude perdida, uma geração sacrificada” por causa da recessão. A sua visão está colorida por grossas pinceladas de pessimismo.

Estrangeiros

De volta ao café do César, intervalo do jogo do Benfica no último sábado. Cristina Bandeira nasceu em França, e vai votar de certeza – em Emmanuel Macron, por obrigação, depois de ter votado em Benoît Hamon na primeira volta, por convicção. “Não percebo porque é que tantos portugueses gostam da Le Pen, com tudo o que ela diz sobre os estrangeiros.”

Se Marine for eleita Presidente, o que lhe resta? Fazer as malas? “Mas o meu marido é português, os meus filhos são franceses. Faço o quê, corto-me em duas?"

Nélson Malha tem 30 anos, é bancário, nasceu em França, mas tem a nacionalidade portuguesa, viveu entre França e Portugal, metade da vida cá e lá. “Talvez votasse no Macron”, diz. “A Frente Nacional continua a ser uma incógnita e para os portugueses não faz sentido a França sair da União Europeia. Passariam a ser considerados estrangeiros, como em Inglaterra, com o 'Brexit' – a minha irmã vive lá. Não quero que o meu filho seja considerado estrangeiro.”

Macron, sublinha Nélson Malha, na esplanada do café do César, defende o apaziguamento do país. Já a FN, se chegasse ao poder, poria o “país em conflito.” “As pessoas querem que alguma coisa mude, mas não querem sair da Europa. Querem ter estabilidade no emprego, não querem a ‘uberização’ do trabalho; por isso muitas votaram em Jean-Luc Mélenchon. Mas hoje temos uma sociedade multicultural, voltar atrás seria impensável.”

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