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A arte bruta, que nos desafia, ocupa a Oliva

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Pousados em cima de um plástico protector, no chão do segundo andar do Núcleo de Arte da Oliva Creative Factory, os quadros são alinhados por Antonia Gaeta. A curadora de arte contemporânea estuda a ordem da exposição de arte bruta As Leis do Número de Ouro, uma pequena parte da colecção Treger-Saint Silvestre. São mais de 1000 as peças que o português António Saint Silvestre e o zimbabwiano Richard Treger foram colecionando ao longo dos últimos 30 anos e que encontraram casa em São João da Madeira. Esta que é “a única colecção de arte bruta da Península Ibérica”, como Saint Silvestre faz questão de realçar, tem vindo a ser exposta em pequenos conjuntos temáticos. A exposição que inaugura este sábado, 29 de Abril, pelas 17 horas, foca-se na arquitectura e na “beleza do construído, mundos mágicos e fantásticos”, descreve Antonia Gaeta, italiana que há 14 anos vive em Portugal. A arte bruta — termo inventado em 1945 por Jean Dubuffet — designa as criações “produzidas por personalidades cuja alteridade social ou mental as extrai das correntes estéticas dominantes”. É “a arte dos loucos, dos médiuns, das personalidades extraordinárias, invadidos de febre criadora”. Há peças de artistas de todo o mundo — portugueses incluídos, como Jaime Fernandes ou Artur Moreira —, vivos e mortos, com preços de mercado que podem chegar às centenas de milhares de euros. Não há obras para venda nesta colecção, apenas expostas para “dar um look de arte contemporânea à arte bruta”, diz Saint Silvestre numa visita à mostra ainda por montar. Há quadros que só foram descobertos após a morte dos autores, outros que foram oferecidos nas ruas. Há telas pintadas de ambos os lados, folhas de cadernos de hospitais psiquiátricos desenhadas até à exaustão, sem início ou fim. “São obras de visionários, engenheiros, arquitectos, construtores, coisas que nunca serão realizadas. Estão no campo da imaginação, do naïf, do idílico”, descreve Antonia Gaeta. É o “desconforto inicial” que sente ao olhar para as obras pela primeira vez aquilo que mais a atrai. É uma arte “que nos desafia”. “Posso intuir o porquê, mas nunca saberei a causa.” As Leis do Número de Ouro vai ocupar o segundo piso do Núcleo de Arte da Oliva até 1 de Outubro; no primeiro andar há outra exposição da mesma colecção — Arte Bruta – Uma História de Mitologias Individuais — para ver, representada nas últimas três fotografias desta galeria. AMH