Einstein apanhado com as calças na mão

Genius, uma nova série do National Geographic, quer trazer a ficção original para o canal. Começa com ambição, uma equipa cheia de Óscares e a vida de Albert Einstein.

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Albert Einstein, o mais icónico dos génios do século XX, é interpretado por Geoffrey Rush DR
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Johnny Flynn encarna o Albert Einstein da juventude DR
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Ron Howard, produtor de Genius e realizador do primeiro episódio da série, já teve nas mãos outro génio do século XX, o matemático John Nash cujo retrato em Uma Mente Brilhante lhe deu um Óscar DR
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Albert Einstein foi um homem de muitas mulheres: Milena Maric (Samantha Colley) foi a primeira com quem casou DR
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Elsa (Emily Watson) foi a definitiva senhora Einstein DR
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Um Einstein diferente é aquilo que o National Geographic quer apresentar quando estrear esta quinta-feira Genius, a primeira série dramática escrita para o canal. Quando vemos pela primeira vez o mais famoso cientista do século XX, e talvez de todos os tempos, Albert está com a calças em baixo, a fazer sexo com a secretária.

É um Einstein adúltero que encosta com vigor uma mulher vários anos mais nova contra um quadro de ardósia repleto de equações de matemática escritas a giz. Ouvimos Albert, interpretado por Geoffrey Rush (O Discurso do Rei), a perguntar-lhe por que é que não podem ir viver juntos. Depois de ignorar a pergunta, Betty acaba por responder-lhe que ele já é casado.

Einstein não desiste e afirma que a monogamia não é uma coisa natural, apenas uma convenção. Betty finge novamente que não está interessada na conversa e de agenda na mão lembra-lhe o que o espera naquele dia de Verão de 1922 em que já era um homem famoso.

“Eu gosto de Mozart e de Bach, dos Alpes suíços e do Mar Báltico. Porque é que não posso gostar de ti e da Elsa?”, questiona Albert Einstein, então um homem de 43 anos que vive com a sua segunda mulher, Elsa, a prima direita  com quem casou em 1919. Betty, já de lágrimas nos olhos, diz-lhe: “Para um homem que é um especialista no universo, não percebes nada de pessoas.”

Antes do final desta cena, ainda vamos ser introduzidos a Mileva Maric, a primeira mulher, através de uma chamada telefónica que Einstein se recusa a atender, mesmo depois de Betty insistir que se trata de uma urgência. 

“Acho que é fantástico”, ri-se a actriz Emily Watson, que faz de Elsa Einstein, quando lhe perguntam se não será demasiado inesperado introduzir Albert Einstein através de uma cena de sexo, num encontro com a imprensa em Londres para a apresentação do primeiro episódio de Genius. “É muito divertido que ela fique cheia de equações marcadas a giz nas costas do vestido.”

A série de dez episódios, que inclui várias estrelas com estatuto de Óscar, entre as quais Ron Howard (Uma Mente Brilhante), realizador do primeiro episódio e produtor de Genius, quer revelar “o homem por trás da mente”, como “Albert se transformou em Einstein”, e o seu papel na história do século XX, anuncia a campanha de lançamento.

O primeiro episódio começa dois minutos antes da cena de sexo com o assassinato de Walter Rathenau, ministro dos Negócios Estrangeiros da República de Weimar, numa emboscada em Berlim a caminho do Reichstag, a 24 de Junho de 1922. Amigo de Einstein, e judeu como ele, surge para lembrar como a ameaça nazi apareceu muito cedo na vida do cientista que nasceu na Alemanha em 1879 e cujas teorias chegaram a ser chamadas “física judia”.

Com estas duas cenas contrastantes, está dado o tom da nova série dramática que adapta a conhecida biografia de Walter Isaacson, Einstein: a sua Vida e Universo (Casa das Letras), num argumento de Ken Biller: há muito romance e muita política, além de ciência. O nome da série, Genius, também diz ao que vem – como é a vida de um génio, do excêntrico que todos conhecemos como o cientista que nos desafiou pondo a língua de fora.

“A relação com a senhora Einstein era tão complicada. Ele era um homem muito, muito, muito complicado. A sua vida pessoal era uma espécie de desastre”, começa por afirmar aos jornalistas Emily Watson, que descreve a relação de Einstein com as mulheres como “disfuncional”, apesar de ele ser um homem cheio de amor. “Estavam sempre às turras, mas eram muito próximos. Ela criou um mundo onde ele podia existir, onde Albert podia ser Einstein. Protegeu-o.” Acabou por dizer-lhe, quando já eram quase como irmãos, que ele podia fazer o que quisesse com outras mulheres, desde que fosse discreto. ‘Eu sou a senhora. Einstein e isso tem de ser respeitado.’ E não é que funcionou?”.  

De certa maneira, Albert Einstein nunca se comportou totalmente como um adulto, acrescenta a actriz. Elsa percebia-o bem, porque sabia disso. “Ela basicamente construiu uma vida para ele, construiu a história de Einstein.”

O tempo é relativo

Genius usa a técnica do flashback logo no primeiro episódio. A palestra que Einstein dá depois da cena de sexo – em que pergunta “o que é o tempo?” ou se “o tempo é absoluto ou universal?”, introduzindo pela primeira vez a Teoria da Relatividade – serve para viajar até 1894, quando tinha cerca de 15 anos e andava no liceu em Munique.

“Claro que aproveitar o facto de o tempo ser relativo na narrativa era uma ideia muito boa”, explica o realizador  Ron Howard ao PÚBLICO sobre o artifício de andar para trás no tempo. “Queríamos recuar até aos anos da escola, mas também era importante no primeiro episódio deixar a audiência perceber que íamos olhar para ambos os aspectos da sua vida: o jovem cientista e as suas relações pessoais mais antigas e a figura pública. A surpresa é não só a complexidade da sua vida pessoal, mas também a pressão e até o perigo que Einstein enfrentou por causa das suas ideias, da sua religião e do seu lugar na cultura popular.”

Quem é Einstein para o realizador? “É um pioneiro, e isso é uma das definições de génio. Indivíduos que querem fazer perguntas difíceis e trabalham contra as convenções. Vejo-o como um grande criador, mas é difícil relacionar-me com ele como um físico porque tenho alguma dificuldade em perceber esse tipo particular de criatividade.”

Por comparação com John Nash, o matemático retratado em Uma Mente Brilhante que Ron Howard chegou a entrevistar para tentar perceber como estas mentes funcionam quando chegam ao momento Eureka, Einstein – diz – é mais fácil de explorar, porque pensava através de imagens.

Se em Uma Mente Brilhante, com que ganhou um Óscar, o realizador usava os números para criar efeitos especiais, em Genius são estas imagens que cruzam a cabeça de Einstein desde os 16 anos, quando imaginou que acompanhava a viagem de um raio de luz. “Einstein, felizmente, era extrovertido, expressivo, escrevia bem e era um visualista. Foi uma grande ajuda.”

O homem mais inteligente

Este Einstein jovem é representado por Johnny Flynn, que vemos no primeiro episódio a apaixonar-se por Marie Winteler, o seu primeiro amor. Cedo é substituída por Mileva Maric, a sérvia que se tornaria a mãe dos seus filhos e com quem acabaria por casar em 1903, a única mulher que estudava Física no Politécnico de Zurique nos primeiros anos do século XX.

Quem é a melhor pessoa para representar o homem mais inteligente do mundo? Fazer de Albert Einstein pode ser “intimidante”. Então, diz o actor Michael McElhatoon (A Guerra dos Tronos), que faz de Philipp Lenard, um físico alemão inimigo de Einstein, é melhor ter alguém que seja à partida convincente, como Geoffrey Rush.

“Ele irradia inteligência porque é inteligente. Isso não é algo que possamos fingir. Em geral, um actor não tem de ter um conhecimento específico, mas para representar uma pessoa brilhante tem de ser brilhante. Nós conseguimos ver essa inteligência nos olhos de Geoffrey. Ele adora construir personagens”, acrescenta o realizador.

Geoffrey Rush, como diz Emily Watson, é um transformer.

Para o actor australiano, Alfred Einstein é uma raridade. “Um herói coerente de uma história de ciência, conflitos mundiais e revoltas domésticas. Não há muitos modelos disponíveis com este tipo de empatia, curiosidade, compaixão e que se tenham tornado tão famosos como Charlie Chaplin. Nós conseguimos entender Chaplin, porque era um grande palhaço do cinema e trabalhava sem linguagem, mas Albert Einstein é um físico teórico, com uma posição filosófica e política, um homem charmoso com humor.”

Geoffrey Rush ficou obcecado com as excentricidades do cientista que fizeram o seu sucesso como figura pop do século XX. “Detalhes pequenos mas muito importantes para mim. Como os chinelos de peluche com que é fotografado em Princeton.” Ficou fascinado com a fotografia, que não lhe parecia real, e quis encontrar uma cena para os extraordinários chinelos.

Não faltaram perguntas sobre o cabelo. “Sim, qual é a razão daquele cabelo? Quando cresceu bastante e se transformou naquele halo rebelde, tornou-se uma espécie de declaração sobre a sua individualidade.”

A parte da ciência, da física, foi para Geoffrey Rush uma espécie de continuação de um sonho de criança. “Eu era aspirante a astrónomo quando era pequeno. Fiquei obcecado com o programa espacial aos dez anos, porque John Glenn, numa das suas órbitas, voou sobre a Austrália e todos tínhamos as luzes acesas. Sempre tive interesse num pensamento cosmológico.” Mas as coisas aceleraram muito nos últimos anos, porque quando o actor andava no liceu no anos 60 pensava-se que havia outras 14 galáxias, e agora, com o telescópio Hubble, sabe-se que são afinal centenas de milhares de milhões.

Geoffrey Rush estudou as teorias de Einstein para fazer o papel, diz ao PÚBLICO. “Fiz uma aprendizagem de papagaio: o princípio da incerteza de Heisenberg  é completamente compreensível…”, ironiza. “Mas tínhamos dois físicos na rodagem para conferir toda a ciência.” Fala de Niels Bohr e de como depois de todas as descobertas Einstein não entendeu o caos da teoria quântica dentro de uma estrutura atómica. “Ele não acreditava, achava que o universo era mais equilibrado. “Passou todo o resto da vida a tentar encontrar a última equação para descrever as forças da realidade física.”

Quando perguntaram ao actor quem era Einstein, teve a melhor tirada de toda a entrevista colectiva, em que não parou de fazer humor. “É um emoji, o melhor de todos.” Algo que todos sabemos o que significa se recebermos um símbolo com a sua cara.

Um lado negro?

É a Samantha Colley (Mileva Maric) que cabe contar a história mais complicada sobre Einstein, com quem casou em 1903, dois anos antes de publicar cinco artigos que iriam alterar o futuro da física moderna: “Há duas escolas de pensamento: uma, mais fácil, que diz que ela não tinha nada a ver com o seu trabalho e que é apenas uma mulher a querer ter o seu lugar na História; outra, em que acredito porque o próprio Einstein escreve ‘o nosso trabalho’, diz que ela ia para a biblioteca investigar enquanto ele estava no seu trabalho [no gabinete de patentes]. As pessoas dizem que ter o nome de uma mulher num artigo diminuía a sua credibilidade, mas ela merece ter o seu trabalho reconhecido e é uma tristeza que não tenha.”

A reivindicação do lugar de Mileva Maric, que a actriz chama um ícone feminista, também está na série. “É uma das coisas que eu gosto. Estou muito contente que tenham dado tempo e espaço à história desta mulher.”

O nascimento da primeira criança, Lieserl, terá sido o “catalisador” para Mileva abandonar os estudos. A história desta filha ilegítima, nascida um ano antes do casamento e que Einstein nunca conheceu – terá morrido com escarlatina ou sido dada para adopção –, é uma tragédia que ensombrou a vida do casal, mas Samantha Colley acha que é um exagero falar de um lado negro deste homem. “O problema com o feminismo é que às vezes pode soar anti-homens. Não quero atravessar essa fronteira com Einstein, porque penso que ele era um homem maravilhoso.”

Einstein acabou por prometer entregar a Mileva o dinheiro de um futuro (e hipotético) Prémio Nobel, se ela lhe concedesse o divórcio em 1919. Mileva pensou uma semana e aceitou.

O Nobel da Física chegou em 1922. Einstein cumpriu a promessa, lembra Emily Watson.

O PÚBLICO viajou a convite do National Geographic