A arquitectura alegre

A primeira retrospectiva dedicada a Victor Palla e a Bento d’Almeida mostra que eles são muito mais dos que os arquitectos dos snack-bares. Ou a história de como dois netos salvam parte da memória da arquitectura moderna portuguesa.

Rampa da moradia de Victor Palla (1948-50)
Rampa da moradia de Victor Palla (1948-50) Victor Palla
Rampa da moradia de Victor Palla
Rampa da moradia de Victor Palla Victor Palla
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A cabeça de uma criança loira espreita num canto da fotografia a preto e branco. Na composição da imagem, a cabeça foi empurrada por uma grande curva e o pormenor humano vem sublinhar a força da forma abstracta. Na fotografia ao lado, a cabeça passou para o interior da forma helicoidal e só quando a câmara se afasta é que percebemos que se trata de um edifício e não de uma escultura.

O comissário da exposição dedicada aos arquitectos Victor Palla (1922-2006) e Bento d’Almeida (1918-1997) hesita em identificar a criança cujo rosto quase não se vê nesta fotografia, em que é impossível não nos determos. É uma das três filhas do arquitecto Victor Palla, mas neste caso é também a sua mãe, uma vez que a exposição que abriu na semana passada no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, é comissariada por dois dos netos desta dupla de arquitectos já desaparecidos. Patrícia Bento d’Almeida e João Palla Martins são a terceira geração de arquitectos nas respectivas famílias e dedicaram parte da sua vida profissional a investigar os avôs.

“Victor Palla tem uma série de fotografias belíssimas com as filhas nesta casa. Utiliza a sua arquitectura como cenário e as suas filhas como modelos.” João Palla Martins explica que estas não são fotografia de arquitectura, mas antes um ensaio fotográfico. Talvez pertençam mais a uma das muitas outras vidas de Victor Palla, a de fotógrafo, que partilhou com a profissão de arquitecto, designer gráfico, pintor, editor, tradutor... As fotografias, inéditas em Portugal, já foram mostradas em 2000 na exposição A Casa, no Centro Cultural da Gulbenkian, em Paris, e o neto lembra que era o próprio Victor Palla — autor de um dos mais importantes livros de fotografia do século XX português (Lisboa, Cidade Triste e Alegre, com Costa Martins) — que dizia que não fazia fotografia de arquitectura.

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Os “retratos recíprocos” de Joaquim Bento d’Almeida e Victor Palla Joaquim Bento d’Almeida e Victor Palla

O que vemos do cenário da casa é a expressão plástica de um zoom sobre a rampa de uma casa, elemento primordial na percepção do espaço moderno, segundo o arquitecto franco-suíço Le Corbusier. Aqui, Victor Palla, como acontece com muitos arquitectos, usou a casa que construiu para a sua família para explorar uma arquitectura mais experimental e que seria com certeza mais difícil de convencer os seus clientes a fazer.

A casa no Bairro do Restelo (1948-50), sublinha João Palla Martins, mostra vários dos pontos da arquitectura moderna defendidos pelo mestre franco-suíço, já vinte anos depois da publicação do seu manifesto Les cinq points d’une achitecture nouvelle: um edifício sobre pilotis com jardim por baixo, uma cobertura plana e a planta livre. “É moderna. MODERNA. O Laginha gostou muito e diz que aprova”, escreve Victor Palla a Bento d’Almeida numa carta sem data mostrada na exposição.

Ao lado, noutra carta da mesma altura apontada pela comissária, Victor Palla está radiante, porque é finalmente arquitecto — o n.º 91 licenciou-se em Fevereiro de 1948. Assina várias vezes numa das folhas, juntando o número à rubrica, e interpela o colega de atelier a despachar-se: “Vai treinando [a assinatura] Joaquim.” Bento d’Almeida tornar-se-ia o arquitecto n.º 142 três anos depois.

Ainda sem diplomas, como conta Patrícia Bento d’Almeida no catálogo, o primeiro atelier conjunto, criado em 1946, instala-se na Rua Coelho da Rocha, n.º 69, num dos estúdios projectados por Cristino da Silva. Convivem com arquitectos, pintores e escultores, como Cottinelli Telmo ou Leopoldo de Almeida, num espaço em Campo de Ourique onde ainda hoje a artista plástica Helena Almeida (filha de Leopoldo) tem o seu atelier. No CCB, podemos ver uma divertida foto tirada na Coelho da Rocha, onde estão os dois jovens arquitectos entre um grupo reunido à volta de um estirador, enquanto alguém é surpreendido a sair de debaixo da mesa. Há, evidentemente, a encenação de uma prática, entre descontracção e alegria.

Os dois jovens tinham começado o curso de Arquitectura na Escola de Belas-Artes de Lisboa, mas só se conheceram no Porto, para onde pediram transferência para fugir ao ensino académico de Lisboa. Carlos Ramos, director da Escola do Porto — que será uma referência da arquitectura portuguesa à volta de nomes como Fernando Távora, da mesma geração de Bento d’Almeida e Victor Palla —, ajudou-os a arrancar a vida profissional, assinando conjuntamente um projecto de uma loja na Rua Augusta para o processo poder entrar na Câmara de Lisboa. 

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Snack-bar da Confeitaria Cunha, no Porto Arménio Teixeira

Os primeiros anos também os encontram a criar a imagem não de um atelier com dois arquitectos mas constituído por uma dupla, sublinha o catálogo, que tanto assinava Victor Palla e Bento d’Almeida como Bento d’Almeida e Victor Palla. Essa dupla emerge “não só na frequente troca de correspondência mas também no grafismo criado para a imagem corporativa do atelier e na série de fotografias que foram tirando um ao outro”. Na exposição, estas imagens são identificadas como “retratos recíprocos”, e a comissária aponta ainda os cartões de boas-festas, com um grafismo inovador e cheio de humor. Desenham Boas Frestas (sic) ao lado de uma janela composta por um conjunto de frestas ou desejam um Bom Ano num cartão só com texto: “Arquitectos c. algum conhecimento oferecem-se p. desejar um feliz 1965. Resp. à Rua Conde Redondo, 4.º E, ao n.º 64”.

Contorções e inflexões

Talvez 1965 tenha sido tão feliz como 1966, ano em que desenham a sua obra mais famosa entre mais de 700 projectos, o snack-bar Galeto, na Avenida da República, em Lisboa. A aventura dos snack-bares tinha começado logo no início da vida do atelier com o Términus (1949-50), na Rua 1.º de Dezembro, cujo proprietário quis fazer algo igual ao que tinha visto numa viagem a Londres. Chamaram-lhe Bar-Expresso Términus e seria preciso esperar pelo Pique-Nique (1952-55) no Rossio para a palavra “snack-bar” entrar no vocabulário. Mas em 1962, dez anos depois, os dois arquitectos ainda tentavam explicar numa memória descritiva para a Câmara de Lisboa, diz João Palla Martins na visita à exposição com a imprensa, o que era um snack-bar: “Um restaurante do tipo ‘snack-bar’ — isto é, com refeições rápidas servidas a um balcão.”

Se o balcão do Términus era um simples “U”, já para o Pique-Nique fizeram desenhos mais “ousados”, escreve a comissária, “obrigando a um estudo pormenorizado das contorções e inflexões”. No mesmo catálogo, o historiador da arquitectura e do design João Paulo Martins, num artigo intitulado Pique-Nique, Tique-Taque, Pam-Pam, bossa nova na cidade, chama a atenção para o cuidado em escolher palavras onomatopaicas para os nomes destes estabelecimentos comerciais que reconfiguravam a restauração urbana e apontavam para uma vontade de introduzir uma vida moderna mais cosmopolita no Portugal do pós-guerra, em que “o imaginário norte-americano assumia uma importância crescente”. Uma certa “volúpia fonética, rítmica, de relativa abstracção”, ao lado de outros nomes, como Tarantela ou Carrossel, que evocam a ideia de movimento ou mesmo de festa.

“Eles eram absolutamente militantes do Movimento Moderno. Há essa vontade, seja ao querer viver numa casa sobre pilotis ligada por uma rampa, seja ao propor sentar uma senhora a um balcão de um snack-bar, porque uma senhora não se senta ao lado de um estranho”, explica Patrícia Bento d’Almeida ao Ípsilon. Se um dos snack-bares ainda previu um elevador para levar as mulheres para uma zona mais recatada, o sucesso deste tipo de estabelecimentos, que multiplicava a oportunidade de encontros com desconhecidos, entre sexos e classes sociais diferentes, fez desaparecer esse pudor, e o Pique-Nique, com o seu balcão em ziguezague, é o exemplo do snack-bar visto como “uma verdadeira máquina de seduzir”.

Desse pacote de sedução faz parte o empenho dos arquitectos em fazer um projecto total, já que a quase inexistência de design moderno em Portugal levou Victor Palla e Bento de d’Almeida a desenhar praticamente tudo, do mobiliário aos menus e sacos, o que é possível devido à escala relativamente modesta das intervenções. Os dois arquitectos estão presentes em todas as escalas e áreas criativas, nota João Paulo Martins: “Ao longo da sua carreira, ensaiam diferentes princípios de ordem geométrica, sem se deixarem aprisionar em receitas: da estrita ortogonalidade às linhas quebradas, arbitrárias e livres, definindo ângulos agudos, obtusos, ziguezagues; grelhas geradoras de triângulos e hexágonos (casa Quinhones-Levy, 1966-70; Touring Clube de Portugal [Aldeia das Açoteias], 1968); sequências de células desfasadas (loja Costa & Conde, 1972-73); curvas ondulantes, arcos, círculos, elipses (loja Monteiro & Jorge, 1968-69; edifício da Sociedade Farmacêutica Lusitana, 1968-72).”

Para construírem o Galeto (1966-68), conta Patrícia Bento d’Almeida, o seu avô foi com um dos proprietários, Arlindo Gonçalo, a 11 países para estudarem este tipo de estabelecimento. Na inauguração, representantes do Governo de Oliveira Salazar misturaram-se com o público, onde também pontuavam arquitectos e artistas plásticos, antecipando uma clientela que saía do Cinema Monumental e podia frequentar a cafetaria, o snack-bar, o restaurante ou o take-away. Tal como escreveu na revista Arquitectura António Sena da Silva quando o Pique-Nique abriu mais de uma década antes, este snack-bar tinha “uma clientela de formação cinematográfica”. Quando desenham a Confeitaria Cunha no Porto (1970-73), já perto do fim do atelier e com a participação do então jovem arquitecto João Bento d’Almeida, pai da comissária, não sabiam que seria o último dos snack-bares, depois de mais de trinta projectos deste tipo. “Foi experimentado um sistema compartimentado de mesas e bancos fixos que nos remete para os diners americanos”, escreve Patrícia Bento d’Almeida, chamando a atenção do Ípsilon durante a visita à exposição para as fotos de Arménio Teixeira que pretendem evidenciar a necessidade de conservar este património moderno.

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Os compartimentos da Confeitaria Cunha (1970-73), no Porto Arménio Teixeira

A casa para a família Palla no Restelo, que foi demolida em 2006, terá sido provavelmente das primeiras moradias integralmente modernas a serem construídas em Lisboa.

É neste novo bairro lisboeta, com um plano do urbanista João Faria da Costa, que os dois arquitectos constroem a maioria das suas moradias. Cerca de meia centena, contabilizaram agora os comissários. Victor Palla e Bento d’Almeida correm a apresentar-se a potenciais clientes, sempre que há vendas de terrenos em hasta pública na encosta da Ajuda, como era conhecido no início do plano o Bairro do Restelo.

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Moradia feita para Carlos Alberto Teixeira da Silva (1949-51), em Lisboa Horácio Novais

Outra das fotografias significativas da exposição, desta vez feita por Horácio Novais, é a que apanha o contraste entre a linguagem moderna da moradia feita para Carlos Alberto Teixeira da Silva (1949-51) e a das dos seus vizinhos na Praça de Goa, também no Restelo, num estilo Português Suave ao gosto do regime. “A foto é incrível porque revela que a casa é um volume paralelepipédico que aterra na Praça de Goa ao lado destas casinhas com telhados, beirados e janelas contidas. Eles vão trabalhá-lo plasticamente, retirando matéria de um lado e pondo-a noutro.” Um jogo, de cheios e vazios, que articula uma parede rebocada e pintada de branco com outra coberta de azulejos. Feita para um comandante da Marinha, “a casa vem buscar a família e o cliente ao passeio, que entram através de uma ponte-passadiço”, explica a comissária. “É a mais purista”, “a menos expressionista” de todos as moradias, ouve-se o crítico e arquitecto Manuel Graça Dias dizer no Magazine de Artes Visuais, programa da RTP sobre os arquitectos incluído na exposição do CCB.

Um dos projectos preferidos de Patrícia Bento d’Almeida é a Escola Primária do Vale Escuro (1953-56), um dos exemplos das infra-estruturas que se constroem no pós-guerra em consequência do crescimento populacional e do I Primeiro Plano de Fomento. Depois de ter citado a dificuldade que já foi escolher os projectos que cabiam no espaço do CCB, a comissária destaca a maneira como os dois arquitectos levam a que a arquitectura chegue também às crianças: “Defendem que é possível experienciar uma arquitectura moderna logo desde cedo e preocupam-se com a escala da criança.” Destaca a forma como usam o embasamento, desaterrando em parte os pilares estruturais, para fazer um recreio coberto. A maneira como vão articular o programa, à volta da repetição do módulo da sala de aula, dando uma continuidade nas fachadas, “é de uma modernidade ímpar”, onde voltam a convidar vários artistas plásticos para trabalhar com eles.

Arquitectura para todos

Se a dupla se envolve desde cedo no diálogo com os seus pares, uma vez que dois anos após fundarem o atelier, em 1948, são responsáveis pela renovação gráfica e editorial de sete números do periódico Arquitectura, revista de arte e construção (onde Victor Palla reflectiu, por exemplo, sobre o lugar do artista plástico na arquitectura), os dois arquitectos também se preocuparam em levar a disciplina até outras classes sociais, para lá da clientela burguesa do Restelo. Em 1952, através da Eva, uma revista feminina dedicada à mulher e ao lar, passam a ter nas mãos os projectos e a construção de uma moradia que todos os anos são sorteados na altura do Natal. Foram 17 casas em todo o país até 1971, numa sucessão que é, segundo os comissários, uma espécie de evolução da arquitectura e do espaço doméstico portugueses durante quase duas décadas do século XX: “Cada casa, diferente da apresentada no ano anterior, e entre 1957 e 1963 com a possibilidade de escolha entre um de dois projectos, veio revelar um pouco da nossa história da arquitectura, exibindo primeiramente elementos da modernidade, sobretudo na vertente da moderna arquitectura brasileira, e numa fase de revisão crítica do movimento moderno, o retorno a uma arquitectura mais vernacular.”

É a influência do Inquérito à Arquitectura Popular em Portugal, com os ensinamentos da arquitectura local e tradicional, que se vê igualmente no projecto que aparece logo a seguir na exposição, a Casa Quinhones-Levy, na Praia Grande, onde sobre a planta organizada à volta de hexágonos se usam materiais típicos daquela região. Numa resposta ao estilo Português Suave que o regime de Salazar apadrinhava contra o Movimento Moderno, segundo uma ideia de Francisco Keil do Amaral, várias equipas de arquitectos tinham ido para o terreno durante cinco anos, entre 1955 e 1960, para mostrar que havia muitas arquitecturas tradicionais. Esse olhar das gerações mais novas sobre o que se construía em território nacional, mudou o futuro da arquitectura portuguesa, de uma forma que ficou bem expressa no trabalho de Fernando Távora e, depois, de Álvaro Siza.

Nada classificado

Em 1974, no ano da revolução de Abril, quando Victor Palla deixa de fazer arquitectura e Joaquim Bento d’Almeida passa a trabalhar com os filhos José e João, os dois põem fim à sociedade com mais de 25 anos. Mas a cumplicidade continua — os comissários contam que os dois nunca se zangaram — com o projecto da Galeria Prisma 73, a que se junta um dos filhos, Rogério de Freitas, e Manuel Costa Martins, o da Lisboa, Cidade Triste e Alegre.

Um dos grandes contributos do catálogo é a elaboração de uma lista geral de projectos a partir dos 283 rolos de desenhos originais salvos por João Bento d’Almeida quando o atelier foi encerrado. Com pesquisas em arquivos públicos e privados e a partir de uma primeira lista muito vaga do atelier, identificaram e publicam agora mais de 360 projectos.

Dois mestrados e dois doutoramentos depois, o ciclo de investigação fecha-se, após 17 anos, com esta primeira exposição retrospectiva de grande dimensão, que se pretende principalmente didáctica. Os netos querem dizer que “há todo este material que nunca foi mostrado” e que a partir daqui é possível fazer muito mais.

Quando começaram a cruzar-se com as demolições, conseguiram recolher algum mobiliário que é possível descobrir na exposição, como a vitrina do Cabeleireiro Bruna, ao lado de outro que só sobreviveu através dos desenhos. É o caso de um espelho portátil para a loja Monteiro & Jorge em que vemos que o cuidado vai até ao pormenor de detalharem um botão em nogueira para cobrir um parafuso.

Apesar de esta ser “uma arquitectura de outro tempo”, como titula a exposição do CCB, nenhuma das obras de Victor Palla e Bento d’Almeida está classificada ou em vias de classificação, informa a Direcção-Geral do Património Cultural.