Mais do que boa televisão, Girls foi uma boa dose de realidade

A série da HBO chega ao fim de domingo para segunda, às 3h, no TVSéries.

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“Acho que posso ser a voz da minha geração. Ou pelo menos a voz de uma geração”, declarava Lena Dunham na pele de Hannah, na estreia da aguardada série de televisão Girls, em Abril de 2012. Aquele que poderia ser apenas o grito de independência de uma personagem face às suas circunstâncias era também uma proposta ousada para romper com o olhar romantizado sobre o mundo feminino na televisão norte-americana e um convite para passar a vê-lo sem filtros em todas as suas dimensões. O último episódio de Girls, que tem estreia mundial de domingo para segunda, às 3h, no TVSéries (repete na quinta-feira às 23h), conclui seis temporadas da história de quatro amigas na casa dos 20 anos a tentar navegar o início da idade adulta em Nova Iorque.

Tal como nota o New York Times, o ano de Girls foi também o ano de Veep, Scandal e The Mindy Project, três grandes séries encabeçadas por “mulheres complexas cujas problemáticas não eram criadas para fazê-las parecer adoráveis”. Só que nenhuma foi capaz de abrir caminho à discussão acesa, incómoda e controversa que viria a fazer de Girls um movimento — nunca chegou a afirmar-se como um êxito de audiências, mas conseguiu fidelizar uma geração que nela se via ao espelho.

Os olhos estavam todos postos em Lena Dunham quando esta se propôs criar, escrever, produzir e protagonizar a série da HBO que, segundo a mesma, seria uma “espécie de Sexo e a Cidade mais próximo da realidade”. Jenni Konner, co-criadora e produtora da série, recordava em Fevereiro ao Guardian o momento em que Dunham se dirigiu aos responsáveis do canal para apontar a falta de diversidade na ficção norte-americana. “Não me vejo nem a mim nem às minhas amigas representadas na televisão”, terá dito a actriz. O seu desafio era mostrar que as batalhas de todas as mulheres deveriam ser igualmente validadas e celebradas, independentemente dos padrões de beleza popularizados pelos media.

A estreia de Girls reuniu a opinião favorável da crítica, que elogiava o retrato arrojado e sincero de jovens mulheres com vulnerabilidades e imperfeições autênticas. Comparando-a ao brilho de Sexo e a Cidade, Tim Goodman notava no The Hollywood Reporter: “Girls é um caso muito mais lo-fi e enraízado no realismo e tira partido da honestidade das suas personagens para produzir uma comédia sólida e momentos dramáticos genuínos e emocionantes”. Já no Los Angeles Times, Mary McNamara classificou o visionamento da série como uma experiência mais intelectual do que emocional. “As personagens são imperfeitas e estão hiper-conscientes das suas imperfeições, as histórias prestam-se a todos os ângulos da sua auto-análise de tal forma que não há um papel real para o espectador”. No Vulture, Matt Zoller Seitz dizia que Girls era uma “sitcom rara sobre jovens mulheres que parecem pessoas reais (apesar de irritantes) em vez de caricaturas de sitcom”.

A comparação com uma série tão icónica como Sexo e a Cidade é simultaneamente inevitável e indesejada. É verdade que a série de Lena Dunham também mostra quatro amigas em Nova Iorque (foi, aliás, a própria quem, inicialmente, indicou a história de Candace Bushnell como referência) mas a semelhança fica-se por aí. Girls dá voz a uma geração diferente, com relações, empregos e preocupações diferentes, e fá-lo através de um tom que se alinha mais com a comédia dramática que com a sitcom pura. “Gossip Girl falava de adolescentes que cresciam no Upper East Side e Sexo e a Cidade era sobre mulheres que se preocupavam com o trabalho e os amigos e que queriam construir uma família. Havia todo um espaço entre as duas [realidades] que ainda não tinha sido explorado”, atirou Dunham ao The Hollywood Reporter em 2012.

A série mostra protótipos de millennials privilegiados, recém-formados e criados pela tecnologia — aparentemente preparados para tudo, menos para a ardilosa entrada na vida adulta. Afinal, a missão de Hannah (Lena Dunham), Marnie (Alison Williams), Jessa (Jemima Kirke) e Shoshanna (Zosia Mamet) ao longo das seis temporadas é tentar encontrar o rumo das suas carreiras e relações enquanto se encontram a si próprias. Girls serviu de plataforma ao tratamento de questões como a imagem, a auto-estima, o body shaming, o feminismo e a sexualidade. Mas o sexo foi retratado de forma muito particular — nunca foi politicamente correcto nem visualmente apelativo quando a narrativa exigia que fosse, em vez disso, embaraçoso, desconfortável e até, em alguns momentos, difícil de ver.

O despudor com que Girls tratou a sexualidade da mulher é, de acordo com o New York Times, o seu grande legado. “A série não tornou o sexo fácil de ver porque não é fácil para as mulheres descobrirem-se como seres sexuais, terem autonomia e influência para determinar como querem exercer o seu feminismo e a sua sexualidade”. Em contraste com a imagem clean e sensual que Hollywood tanto prezava, em Girls havia barrigas às dobras, pernas com celulite, efeitos hormonais da menstruação e personagens caprichosas e privilegiadas. De acordo com o Washington Post, numa das últimas acções promocionais da série, elenco e produtores reafirmaram que nunca quiseram criar personagens que agradassem ao público, já que “a ideia de agradar a alguém é uma construção sexista antiga e frequentemente aplicada a personagens femininas, um fardo injusto na TV de hoje, que se alimenta de histórias sobre protagonistas complexas e moralmente desleais”.

Foi a série que falhou na frente da diversidade por predefinição ao focar a história de quatro raparigas brancas, uma realidade que foi criticada por não reflectir a demografia dos bairros de Brooklyn e de Nova Iorque. “Não faria outra série com quatro protagonistas brancas”, lamentou Lena Dunham à revista Nylon. Apesar disso, o debate ímpar que causou — sobretudo na Internet — transformou a dinâmica do panorama audiovisual. Com Girls a discussão passou a fazer-se de dentro para fora. “Passamos a perguntar-nos: o que é que isto diz sobre nós mesmos?”, nota o site Uproxx, que adjectiva a série como um “programa do século XXI que muita gente só viveu através de thinkpieces, ou seja, ensaios que partem de material de fundo para, com alguma opinião pessoal, fazer uma análise dos factos.

(O próximo parágrafo que pode conter spoilers da sexta temporada.)

O passar dos anos ensinou a Hannah, Marnie, Jessa e Shoshanna que, na verdade, nenhum adulto controla tanto a sua vida como parece controlar. No penúltimo episódio, vimos Hannah a deixar Nova Iorque para tomar as rédeas da sua vida enquanto futura mãe solteira e preparar-se para ser professora universitária. Seria ingénuo esperar um típico final feliz de uma série que sempre glorificou o caos. Afinal, a vulnerabilidade e a insegurança são uma verdade indissociável do crescimento.