Crónica

Falta sempre tempo

Até o bom tempo passa mais depressa. Os dias são maiores, mas não compensam o que se perde. Falar no tempo é a única maneira de o atrasar um bocadinho.

O meu tio Paul contava o tempo como se fosse a moeda verdadeira da vida. O dinheiro de papel, dizia ele, estava para o valor como um retrato estava para a pessoa retratada.

Quando fiquei em casa dele em Manchester, eu tinha 19 anos e dormia dez horas por dia. Depois de uma semana perguntou-me se eu sabia quantos anos é que passaria a dormir, se eu morresse com 90 anos. A resposta era 38 anos. Queria isto dizer que eu, quando morresse com 90 anos, teria apenas uns 52 anos de idade. E rematou: “Não achas trágico um homem esperto como tu morrer tão cedo?”

Ele ensinou-me a dizer as horas conforme outra hora importante. Suponhamos que me deito à meia-noite. Às 14h digo que faltam 10 para a meia-noite. Ou 6 para as 8, a hora em que o sol se põe e a tarde acaba. Ou 23 para a 1 da tarde do dia seguinte.

É verdade que este método causa o pânico. Até parece que acelera a passagem do tempo e as queixas concomitantes. Mas tem a vantagem de mostrar que, apesar de tudo, falta sempre tempo. Por muito adiantados ou atrasados que estejamos, se há tempo para contar as horas que faltam — mais do que as horas que passaram —, é porque ainda falta um bocado para ser tarde de mais.

O tempo passa mais devagar conforme é contado. Deixar de ver as horas é obrigá-las a correr mais. Felizmente isso também é muito bom. Não se pode ganhar.

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