Binhan: “O crioulo guineense é a nossa maior riqueza”

Voz reconhecida da nova geração de músicos guineenses, Binhan apresenta em Lisboa o seu disco de estreia, Lifante Pupa. Esta sexta-feira no B.Leza, às 22h.

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Binhan DR

Não são muitas, as vozes que nos vão chegando da Guiné-Bissau, cuja música ainda muito deve ao histórico poeta e músico José Carlos Schwarz (1949-1977). Mas a juntar aos sons e nomes, já reconhecidos e aqui divulgados, de Manecas Costa, Tabanka Djaz, Super Mama Djombo, Netos de Gumbé, Eneida Marta e Karyna Gomes, chega-nos agora o jovem cantor e compositor Binhan.

Nascido a 8 de Julho de 1977, na aldeia de Ntunguindam, na Guiné-Bissau, Binhanquinhe Quimor (ou Binhan, como é conhecido) já tinha actuado em Portugal em 2016, mas com os Super Mama Djombo e apenas para a comunidade guineense. A solo, estreia-se agora num concerto no B.Leza, em Lisboa, esta sexta-feira às 22h, para apresentar o seu trabalho Lifante Pupa (“o grito do elefante”), lançado na Guiné-Bissau em 2015 e agora reeditado para as plataformas digitais.

"Encorajar o povo"

Binhan começou a actuar muito novo em festas locais e regionais e em 2008 foi distinguido como Cantor Revelação do ano na Guiné-Bissau. Até que Adriano Atchutchy o convidou a integrar a mítica banda guineense Super Mama Djombo. Com ela, fez várias digressões por Europa, África e Ásia, tendo participado na gravação do disco Ar Puro, na Islândia. Mas só após ter recebido o prémio de cantor de música moderna guineense, em 2014, é que gravou o seu disco a solo. O que aprendeu na música, deve-o em parte à Igreja Evangélica em Catió, de cujo coro fez parte. “Em 2004-2005, juntamente com o meu pastor, criámos um grupo que interpretava músicas da igreja e foi a partir daí que comecei a ganhar experiência no canto e na interpretação, a praticar guitarra e depois a compor as minhas próprias músicas. Mas ainda era tudo baseado na música cristã, evangélica. Depois é que fui mudando essa tendência.” A realidade social e política também ajudou. “No momento do conflito militar de 7 de Junho de 1998, comecei a olhar a composição de forma diferente. E compus uma música que gravei em 2003 e onde falava não só do conflito mas também de esperança. Para encorajar o povo, dizendo-lhe que um dia tudo vai passar.”

Todos os 11 temas do disco são de Binhan (letra e música). Guiné nha terra, ele gravou-a com Monique Seka, uma cantora da Costa do Marfim. “Tentei descrever a parte positiva da Guiné-Bissau, mostrando que é uma terra pequena mas bonita e tem tudo para dar ao seu povo. Enquanto em Paz [outro dos temas do disco], como muitas vezes nós criticamos os políticos e os militares, tentei desta vez dizer que somos irmãos e nada deste mundo nos vai separar devido à nossa língua, o crioulo. Nela conversamos, nela nos entendemos, é a nossa maior riqueza. Temos uns 35 grupos étnicos, mas a única língua em que conseguimos entender-nos é o crioulo.” O português permanece língua oficial, mas é no crioulo local que se faz a comunicação quotidiana.

Lokua Kanza e Kaba Mané

Viver da música, na Guiné Bissau, ainda é muito difícil, diz Binhan. “Porque não temos mercado de venda de discos, nem salas de concertos, a não ser o Centro Cultural Franco-Bissau-Guineense ou o Centro Cultural Português, que é pequeno. E há um espaço aberto que um jovem do Senegal construiu…” Agora, finalmente, já há estúdios para gravação. Mas para os festivais de música na Guiné, as aparelhagens de som continuam a ter de vir de Cabo Verde ou do Senegal. Lá não há.

No seu trabalho, Binhan tem duas grandes inspirações: Lokua Kanza, cantautor congolês, e Kaba Mané, músico tradicional guineense radicado em Paris. O título do seu disco de estreia nasce de uma simpatia por um animal que ele vê também como um símbolo. “O elefante, para mim, é um animal bem grande mas humilde e de muito valor. Então este meu disco, inspirado no elefante, fala de três coisas: paz, amor e esperança para os guineenses. A minha música é bem aceite por eles, não só na Guiné mas também nos que estão lá fora. E isso dá-me coragem para continuar.”