Crítica

O romance futurista de Arca

Ao terceiro álbum o colaborador de Björk ou Kanye West mostra-se ainda mais como uma das figuras vitais da música actual.

Foto
Arca: uma personagem torrencialmente dramática saída de uma fábula BRIAN WHAR

Ao longo dos últimos anos o venezuelano, a residir em Londres, Alexandro Ghersi, tem estado por trás de algumas das canções mais aventureiras de Björk, FKA Twigs, Kanye West ou Kelela. Mas desde que se estreou com o excelente álbum Xen (2014) que ficou vincado que não queria ser figura secundária. Seguiu-se o mais discreto Mutant (2015) e eis que agora retorna com um registo homónimo, o seu melhor até ao momento.

Até agora não conhecíamos os seus atributos vocais, apenas a habilidade em compor sonoridades futuristas singulares. Mas ainda bem que (ao que parece, convencido por Björk) resolveu assumir a sua voz, cantando em castelhano, porque o efeito é magnífico, com o ruído industrial de fundo entrecortado por linhas melódicas e pelo cântico, como se tudo se passasse numa catedral remotamente perdida no espaço e futuro. Existe algo de ritualístico nesta música, com espasmos electrónicos, configurações retorcidas, ritmos que parecem vidro partido e as sombras misteriosas que se vão desenhando no horizonte a fazerem parte da mesma fascinante teatralização romantizada.

É como se as paisagens electrónicas dilaceradas, os ângulos metalizados e a adrenalina sensual alienígena que já conhecíamos dos anteriores álbuns envolvessem agora uma figura humana, uma personagem torrencialmente dramática saída de uma fábula sobre paixões imprevisíveis, como em alguns dos primeiros filmes de Pedro Almodôvar. O resultado tem também qualquer coisa de operático, com a sua forma de cantar amplificada circundada por quase silêncios ou inesperados clarões sonoros. 

Em canções como Sin rumbo, Anoche ou Coraje — nesta apenas com piano e voz — vislumbramo-lo introspectivo, sozinho, numa espécie de solilóquio com qualquer coisa de trágico, enquanto em Desafio ou Fugaces vem ao de cima a faceta mais envolvente. Mas mesmo quando os ambientes são menos viscosos, existe sempre qualquer coisa que se movimenta a provocar ambiguidade, sem que se perceba exactamente se o som resulta escurecido ou límpido, se é inteligível ou estranho, se é homem ou mulher, robô ou alguém hiper-humano, vulnerável, tangível, sempre à flor da pele.

Num curto espaço de tempo impôs-se como uma das figuras vitais da música actual, alguém que possui um requinte reconhecível e, coisa rara hoje, inimitável. Nem o artista e videasta Jesse Kanda — responsável por alguns dos seus mais notáveis vídeos — que se estreou recentemente com um EP o conseguiu. Por vezes, principalmente no segundo álbum, a música podia ser tão densa e circular que nem sempre era fácil vislumbrar-se janelas de inteligibilidade. Mas não é o caso do novo registo: as justaposições alucinadas de sempre agora configuradas com um novo tipo de carga emocional, mesmo se caótica. Absolutamente fascinante.