Uma aventura com Ben Chasny

Momentos vintage, passe a heresia, e novos caminhos.

Foto
É Six Organs vintage, passe a heresia (ele odiaria ser cânone, apostamos), mas não é mais do mesmo

Há alguns anos, Ben Chasny foi pelo caminho mais difícil. Depois de anos a unir a escola de guitarras de John Fahey e Robbie Basho com todas as coisas psicadélicas, o norte-americano inventou um sistema de composição com recurso a cartas e à aleatoriedade. Com o sistema Hexadic, Chasny queria dar novo fôlego à sua relação com a guitarra, fugir ao conforto — e fugiu, como mostram os dois álbuns saídos deste método, plenos de dissonância eléctrica e acústica.

Burning the Threshold é, ao mesmo tempo, um regresso a territórios onde Chasny já foi feliz e um decidido passo em frente, acrescentando páginas à história de quase duas décadas de Six Organs of Admittance. Juntando novos e velhos cúmplices, como Cooper Crain (Bitchin Bajas), Haley Fohr (Circuit des Yeux) e o baterista extraordinário Chris Corsano, Chasny aproxima-se da música de Bert Jansch (a solo ou nos Pentangle), Davy Graham e de outras luminárias do revivalismo folk dos anos 1970, encaixando-a no seu próprio vocabulário.

St. Eustace é talvez onde mais sentimos esta direcção. Estribada numa guitarra acústica circular, como nos bons velhos tempos de School of the Flower (2005), é uma canção a rodopiar sobre si mesma: órgão a planar na sempiterna frase de guitarra, a bateria de Corsano jazzy, nervosa, entre o pulso constante e a vontade de dele sair, as cordas da guitarra em estrépito vibratório. Para Around the axis, Chasny chamou Ryley Walker, multiplicando por duas guitarras — uma em cada canal — os caminhos incertos que Davy Graham desbravou para a folk (compare-se com a fundadora Anji, de Graham).

Noutros momentos sentimos Chasny em paz com o que construiu ao longo de duas décadas. Aninhemo-nos, por exemplo, em Under fixed stars, que tem a dupla Damon & Naomi a sussurrar e a guitarra acústica ora dedilhada com a calma dos sábios ora a desenhar frases simples e lentas. É Six Organs vintage, passe a heresia (ele odiaria ser cânone, apostamos), mas não é mais do mesmo.

Igual coisa poderíamos dizer de Things as they are, aprumada com um refrão que se cola às sinapses (“angels are necessary”, uma referência ao poeta Wallace Stevens), Threshold of light, que recorda a simplicidade de Compathía (2003), e Taken by ascent, que tem a cadência quase stoner do excelente The Sun Awakens (2006), mas enrodilha na escalada psicadélica a voz de Haley Fohr e os teclados de Cooper Crain num roço lisérgico com as guitarras acústica (repetição meditativa) e eléctrica (a possibilidade de fuga).

A aventura de Ben Chasny é imensa. Entremos ou reentremos nela.

Sugerir correcção
Comentar