Os homens são como as casas de banho

Eu também tenho direito a uma carreira e a um destino, eu também nasci para viver, respirar, abrir os braços e vencer

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Eu não falto mais ao trabalho quando a minha filha fica doente, já falei com o meu namorado, parceiro, “namorido“ ou sei lá eu o que isto é quando um homem não se quer assumir e casar-se, comprometer-se, crescer-se e amar, falte ele depois de todas as vezes em casa, porque para mim já chega de carregar nos braços sozinha o que leva duas pessoas a fazer, pois enquanto os homens deste mundo correm atrás da ilusão e da fama lixam-se todas as mulheres apenas por serem mães quando os pais não são pais.

Porque eu também tenho direito a uma carreira e a um destino, eu também nasci para viver, respirar, abrir os braços e vencer, e se a culpa é tanto minha como tua quando não quiseste usar o preservativo, porque sabia melhor, não sabia, e já dizia a minha avó como “fazê-los é fácil, o pior é depois”, então assume as tuas responsabilidades de uma vez por todas, faz-te um homem de uma vez por todas, tira os piercings da língua e corta as rastas, larga o telemóvel e deixa os pêlos do peito crescer, vais ver que não custa nada, só dá comichão, eu também já passei dos trinta e não morri e ser radical não é fazer tatuagens, radical é trabalhar e fazermo-nos à vida, isso sim é ser radical!

Porque tudo isto já farta e o que eu às vezes preciso é de um abraço forte mais a certeza de não cair quando já só quero gritar por não mais poder com isto de todos os dias acordar toda a gente nesta casa, vestir toda a gente nesta casa, ser o “Zé Manel taxista” de toda a gente nesta casa porque tu nunca tiveste nem cabeça nem dinheiro para tirar a carta, mas para o tabaco há sempre dinheiro, e dar de comer a toda a gente nesta casa, mudar as fraldas a toda a gente nesta casa, ser a mãe de toda a gente nesta casa, a trabalhar pelos dois sem saber o que fazes tu ao dinheiro, ao nosso dinheiro, mas para os copos há sempre dinheiro e depois a materialista sou eu, a mulher fria sou eu, a responsável última por te queixares à tua mãe (a tua mãe, não eu) sou eu, porque eu não te dou aquilo que queres, um filho homem e sexo na cama quando à noite abres a porta a feder a cerveja e cigarros, mas essa parte não contas tu à tua mãe e depois a megera sou eu, e onde estava eu com a cabeça quando te conheci e te vi, e se calhar era por me fazeres rir, mas eu também consigo rir à frente da televisão e a verdade é a de não precisar de ti para nada, feito mono sentado no sofá a jogar no telefone ao mesmo tempo que gritas para a menina, porque para ti as crianças são cães, basta gritar para lhes meter medo, e o que teria sido de mim se a minha mãe me tivesse feito o mesmo e agora já percebo quanto a tua mãe te fez.

E talvez tenha sido preciso escrevê-lo para perceber quanto a tua mãe te fez, e portanto desculpa mas vou mesmo continuar a faltar ao trabalho, porque no fim isto não tem nada a ver com sermos boas ou más mães, isto não tem nada a ver comigo quando a culpa é de quem insiste em não estar ao meu lado quando é mais preciso, e os gritos no parto não foram de dor mas de raiva, a mesma raiva com que esta manhã mudei a fechadura e esvaziei as tuas gavetas à porta, um clássico, para todos os vizinhos verem e os vizinhos que se f... e tu também, e os homens são mesmo como as casas de banho, ou são uma merda ou estão ocupados, e a única sorte nesta vida é a de poder faltar ao trabalho para ter esta filha nos braços um pouco mais, apenas um pouco mais, antes que um dia destes me fuja para sempre.