Opinião

Exilados de Portugal

Todo um conjunto de criadores e pensadores simplesmente lançados ao mar por Salazar, o que não o impede de ainda ser um “patriota” na imaginação de alguns em 2017.

1. Salazar foi aquele espécime que em 1940 negou nacionalidade a Vieira da Silva-Arpad Szenes quando eles fugiam dos nazis, ao mesmo tempo que inaugurava em Belém uma grandiosa exibição do “Mundo Português”, com as suas “províncias ultramarinas”. A guerra devorava a Europa e quem acolheu Vieira e Arpad foi a primeira das ex-colónias portuguesas: o Brasil. Sete anos durou esse exílio, quase matando Vieira. Agora, uma exposição com vários inéditos dá uma ideia do que os dois artistas criaram durante a temporada brasileira, apesar de tudo.

2. Ela portuguesa, ele judeu húngaro, Vieira e Arpad tinham-se conhecido no meio das Belas Artes em Paris, estavam casados havia uma década. E “acordaram apátridas numa manhã veranil, quando se encontravam de férias com amigos na Ilha de Ré, em França”, escreve Marina Bairrão Ruivo, directora do Museu Arpad Szenes-Vieira da Silva, em Lisboa, curadora desta mostra. Mesmo com ameaça nazi, a ditadura portuguesa determinou que Arpad não ganhasse cidadania e Vieira a perdesse. “Fugidos de França e recusados em Portugal”, aterraram no Rio de Janeiro trazendo toda uma sombra. E isso vê-se na exposição, desde os primeiros desenhos de Vieira. Os corpos trespassados em combate, uns no chão, outros pendendo, como as figuras esqueléticas que o mundo viria a descobrir nos campos de extermínio. A guerra, a morte, a angústia do exílio marcam o primeiro núcleo da exposição. Mas mesmo nas salas seguintes, ocupadas pela paisagem do Rio de Janeiro, a relação com os amigos brasileiros, e tantos dos retratos que Arpad fez de Vieira, essa sombra continua lá. Uma “paleta feita de cores ocres e cinzas que no Brasil se torna mais surda e triste”, escreveu um crítico de arte de então, o brasileiro Rubem Navarra, sobre Vieira: “Sua escala de cores bem como suas atmosferas são o que há de mais longe de um sentimento alegre e sensual do mundo. E em nossa longa convivência nunca houve um dia em que o pensamento da guerra e da prisão não lhe estivesse presente.”

3. O Museu Arpad Szenes-Vieira da Silva já dedicara uma exposição ao exílio do casal “há mais de dez anos”, diz Marina Bairrão Ruivo. Partindo dessa base para uma mostra nova, a pretexto agora de Lisboa Capital Ibero-Americana da Cultura 2017, a curadora tirou das gavetas coisas que nunca tinham sido mostradas, nomeadamente desenhos, e esses inéditos estão presentes em todos os núcleos da exposição. Mas “há muitíssimo mais material por mostrar que merecia um estudo, centenas de coisas”, sublinha. Tanto de Arpad, como de Vieira, incluindo muitas das ilustrações que se tornaram o principal ganha-pão de ambos no Brasil. As vitrinas com algumas dessas imagens, cartas e bilhetes são apenas “um cheirinho” do que há para descobrir. Foi um tempo duro também financeiramente, mas muito produtivo. Cinco das obras que vieram a contar-se entre as mais célebres de Vieira foram pintadas no Rio de Janeiro, sublinha a curadora, e se não estão nesta mostra é por pertencerem a diversas colecções, algumas no estrangeiro. Incluí-las implicaria “outro tipo de exposição”, “um investimento e uma preparação que não eram possíveis” neste caso.

4. Em 2013 vi no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro uma pequena mostra sobre Vieira da Silva e o exílio. Já aí era impressionante o contraste entre a aura do amor de Vieira e Arpad naquele cenário de exuberância tropical e a angústia nas cartas, nos testemunhos, na obra de Vieira. Ao negrume da guerra, e de tudo o que tinham deixado para trás, juntava-se a resistência de um meio artístico brasileiro por um lado muito pequeno, comparado com Paris, por outro lado empenhado numa construção nacional na arte, e portanto menos disponível para dois europeus. Vieira era associada a abstracção e vanguarda; num arroubo de militância identitária, o poeta modernista Mário de Andrade descartou-a como “mero bordado”. Ainda assim, em 1942 Vieira expôs no centralíssimo Museu de Belas Artes do Rio, emocionando gente como Vinicius de Moraes e Manuel Bandeira na abertura, e o poeta Jorge de Lima escreveu: “Olhe o dinamismo das figuras desmanchando a perspectiva, demolindo as pirâmides e desenfaixando as filhas do Faraó. Verdadeiramente [Maria Helena Vieira da Silva] não contrói obras de registro ou de observador disciplinado, mas opera criações de livre iniciativa conspirando debaixo de uma aparência de perfeita disciplina.” Mas o desânimo ao longo de sete anos foi fundo o bastante para levar Vieira a tentar o suicídio. E terá sido Jorge de Lima quem a salvou numa segunda tentativa, segundo a pesquisa da investigadora brasileira Valéria Lamego.

5. De resto, ao longo desses anos, os amigos poetas brasileiros é que foram salvando o quotidiano, e também eles estão em vários esboços, desenhos, pinturas nesta exposição, e nas gavetas do que ainda há por vir. Amigos como Cecília Meireles, de quem Vieira se tornou tão cúmplice, e que foi a ponte para várias das encomendas que permitiram ao casal viver no Rio de Janeiro. Ou Murilo Mendes, que os levou da primeira morada em Copacabana para uma pensão boémia no Flamengo, onde ele mesmo morava, entre gatos e Mozart. Isto, antes de Arpad e Vieira se mudarem para um pequeno chalé no então bucólico Morro do Silvestre, em Santa Teresa, que acabou por ser a morada/atelier principal do exílio. E antes de Murilo casar com outra exilada portuguesa, Maria da Saudade Cortesão, poeta e filha do historiador Jaime Cortesão, também ele expulso de Portugal pela ditadura, nesse ano da Exposição do Mundo Português. Tanto Maria da Saudade como a sua irmã Judith, cientista e ecologista (que veio a casar com Agostinho da Silva) estão presentes nesta exposição, retratadas pela mão de Arpad ou Vieira. Todo um conjunto de criadores e pensadores simplesmente lançados ao mar por Salazar, o que não o impede de ainda ser um “patriota” na imaginação de alguns em 2017.

6. Vieira não conheceu muito do Brasil, por falta de meios e de ânimo, ela mesma o diz. Ainda assim, a vitalidade brasileira emerge aqui ali na sua obra. Por exemplo, nos esboços da Baía da Guanabra, nas vistas do Corcovado ou naquela árvore cheia de frutos como sóis, algumas flores e uma borboleta. E na última sala estão as sucessivas pinturas que Arpad fez retratando essa mulher a quem chamava bicho, bichinho, bichinhamor, ou ambos fundidos num abraço, ele, de cabelos brancos, ela de cabelos negros, duas espécies de pássaros, naquele atelier de exílio, nos cimos do Rio de Janeiro.