Opinião

SOS: Colecção de arte do Novo Banco

Tem a palavra o Chefe de Estado, o primeiro-ministro e o ministro da Cultura

Nascidos numas das mais proeminentes famílias da vida social e económica portuguesa do século XX, os três irmãos José, Ricardo e Manuel do Espirito Santo Silva, tiveram em comum, além da presidência do prestigiado banco com o seu nome de forma sucessiva, a reunião de apreciáveis colecções de artes.

Ricardo Espiro Santo foi, porém, muito mais que um coleccionador e o seu prematuro desaparecimento com 54 anos de idade não impediu que tivesse alcançando enorme notoriedade além-fronteiras e se tornado uma figura incontornável da história da arte em Portugal do Séc. XX. Dotado de uma esmerada educação, apurada sensibilidade e bagagem cultural, que conjugava com uma notória presença física e áurea de sportsman, integrou com naturalidade os círculos da mais elevada sociedade e alta finança europeia e americana, o que, aliado ao seu prestígio de banqueiro lhe permitiu constituir uma das mais ricas e diversificadas colecções da arte portuguesa de sempre e uma outra de arte francesa de relevância internacional.

Mecenas das artes, apoiou entidades públicas e privadas, organizou exposições, incentivou artistas e editou obras imprescindíveis para a nossa historiografia, como os quatro volumes do Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses de Fernando de Pamplona, a monumental Obras Primas da Pintura Flamenga dos Séculos XV e XVI em Portugal de Luís Reis Santos ou a magnifica revista A Arte de Ontem e de Hoje, dirigida pelo o seu amigo e pintor Eduardo Malta. O momento culminante, e certamente mais feliz, da vida pública de Ricardo Espirito Santo, aconteceu no dia de 28 de Abril de 1953, quando na presença das mais altas individualidades inaugurou o Museu-Escola da Fundação com o seu nome. 

A Fundação Ricardo do Espirito Santo Silva situa-se desde o início num dos recantos de eleição da Lisboa histórica, as Portas do Sol, tendo para o efeito se procedido à aquisição e recuperação, literalmente "salvação", de dois emblemáticos palácios de Lisboa que no seu conjunto nos oferecem uma das mais soberbas frentes solarengas da capital. No Palácio Azurara, que remonta aos finais do século XVI e íntegra na fachada uma torre da cerca moura, foi instalado o Museu de Artes Decorativas Portuguesas, reunindo um vasto acervo de pintura, escultura, mobiliário, ourivesaria, porcelana, faiança, têxteis, encadernações, etc., criteriosamente escolhido pelo instituidor, que nos oferece uma panorâmica do melhor produzido em território português entre os séculos XV e XIX, assim como muitas outras peças provenientes de paragens longínquas mas connosco relacionadas. No contínuo, cerca de um século mais tardio, Palácio do Porteiro-Mor (Sousa e Mello), ficou alojado o "braço funcional" da Fundação, tendo a Escola e as Oficinas de Restauro, mas também de Criação, de algumas das referidas artes, desde então projectado o nome de Portugal nos quatro cantos do mundo.

Desde sempre sob a tutela do Estado, mas apoiada pela família e pelo banco a ela ligado, a recente crise financeira de que este foi uma das principais vitimas, veio pôr em causa a sobrevivência da Fundação, tendo uma forte reacção pública, o empenho dos responsáveis e o precioso apoio da Santa Casa da Misericórdia e da Câmara Municipal de Lisboa evitado aquela que seria uma perda irreparável do nosso património, sendo o espólio artístico classificado e assegurado o funcionamento do Museu, Escola e Oficinas. Mas esta campanha deixou na sombra um outro capítulo de igual emergência patrimonial do qual ninguém fala: o destino da extraordinária Colecção de Arte do Banco Espirito Santo.

Naturalmente vocacionada para as artes, como vimos, a política da segunda geração Espirito Santo, que dirigiu o Banco até 1973, foi prosseguida pelo b anco até hoje, tornando-se o incentivo e a aquisição artística uma das suas "imagens de marca".

Trata-se de um requintado e variado conjunto de artes decorativas, que inclui mobiliário, cerâmica e têxteis e tem o seu expoente no relevante núcleo de pintura que abrange a Escola Portuguesa Clássica, como o conjunto de obras de Josefa de Óbidos recentemente exposto no Museu de Arte Antiga, e o do Morgado de Setúbal, e contemporânea, caso das esplêndidas telas de Eduardo Viana e de Vieira da Silva, mas também europeia, com a inclusão, também a titulo de exemplo, do magnifico óleo quinhentista de Quentin Metsys representando dois "Financeiros" ou o já famoso quadro com o desfile de coches no Paço da Ribeira aquando a chegando do Núncio Apostólico, "presença obrigatória" em exposições de temática setecentista, como a do “Triunfo do Barroco” da Europália, a da "Encomenda Prodigiosa" do referido Museu de Lisboa, ou da Embaixada Joanina do Marquês de Fontes ao Papa, actualmente no Museu de Coches.

Mas para além deste acervo "natural", o espólio bancário inclui também três riquíssimas "Colecções Autónomas", merecendo cada uma só por si a feitura de um artigo como este.

Pacientemente reunida durante mais de 30 anos e adquirida pelo Banco Espirito Santo na viragem do século, a impressionante colecção numismática do empresário Carlos Marques da Costa é a "(…) A mais completa e bem conservada até hoje em Portugal.” (Prefácio do respectivo Catálogo). São mais de 13 mil exemplares, notas e cédulas bancarias incluídas, que ilustram a História da Moeda em Portugal, abarcando a pré-nacionalidade com os períodos romano, suevo, visigodo e mudejar; a cunhagem de D. Afonso Henriques até a actualidade por cá e em todo o nosso Imperio; o chamado "Mundo Português", ou seja, a moedas europeias connosco relacionadas, como os "Portugaleseres" do século XVI, que eram réplicas do célebre português, feitas na Holanda e na Alemanha, as dos Grão-Mestres Portugueses da Ordem de Malta e as do "nosso" Conde de Lippe, e ainda mais de um milhar de espécies estrangeiras dos séulos. XVII e XVIII que enquadram a colecção. Um verdadeiro "tesouro", único e irrepetível, que urge preservar!

Alvo da cobiça estrangeira após a morte do seu criador e também ela ameaçada de dispersão, a importantíssima "Biblioteca de Estudos Humanísticos-Pina Martins", passou também a integrar o património do banco. Uma das maiores autoridades mundiais da literatura quinhentista e "número um" no estudo da obra do humanista Fiorentino Pico de Mirandola, o investigador e bibliófilo José V. de Pina Martins, que viveu largos períodos em França e Itália, reuniu um vasto e precioso conjunto de livros quinhentistas de um sem número de autores, incluindo de portugueses, sendo a obra do referido Conde italiano e também a de Thomas More sido tratado de forma exaustiva. Exposta de forma parcial na Gulbenkian em meados de 2015, a biblioteca inclui alguns conjuntos inestimáveis, como os 62 raros livros impressos em Veneza ao longo do século XVI na célebre Ooicina do editor Aldo Manutio.

 Também parcialmente exposta no ano passado no edifício do banco do Marquês de Pombal, a eclética Colecção de Fotografia, iniciada em 2004 em simultâneo com o relevante certame anual do BES Photo, foi então alvo de artigo neste jornal (5-4-2016) intitulado: Qual será o futuro das 953 fotografias do Novo Banco, no qual justamente se questionava o destino desta "(…) impressionante colecção a nível internacional", de 280 artistas de 38 nacionalidades, “(…) considerada uma das 80 colecções empresariais mais importantes a nível mundial (…)".

A centenária colecção do Banco Espirito Santo está hoje integrada nos activos do Novo Banco, ou seja, está na posse do Estado, ou, dito por outras palavras, a extraordinária colecção de Arte do Novo Banco é hoje propriedade de todos os portugueses!

Assim sendo, e numa altura em que se prevê para muito em breve a venda do banco e correndo-se o sério risco de ela ir parar a "mãos estranhas", provavelmente estrangeiras, é obrigação do Estado Português conservar a Colecção na sua posse e coloca-la à disposição de todos nós, seja através de uma Exposição Integral, recuperando assim o projecto do "Museu do Banco Espirito Santo" dos antigos donos, seja a partir de uma divisão temática por instituições públicas, como os Museus Nacionais de Arte Antiga, do Chiado e dos Coches; os Museus de Serralves, Arpad Szenes-Vieira Silva e Numismático ou a Biblioteca Nacional, que seriam assim largamente enriquecidos.

Recentemente, num contexto "tirado da fotocópia" do que estamos a abordar, o actual Governo, com os dois ministros da Cultura, decidiu com firmeza e de forma exemplar, que a esplêndida colecção de Joan Miró, que proveniente do Banco Português de Negócios estava na sua posse, assim deveria continuar e passar a ser exposta publicamente. Uma decisão com enorme sentido de Estado, "vistas largas" e potencial retorno financeiro, que provocou uma onda de satisfação e aplauso de uma população que, farta de pagar do seu bolso "buracos financeiros" ao qual é alheia, se sentiu assim de certa forma "compensada".

O que agora se passa é precisamente o mesmo, e esta notável colecção que é de todos nós e que, por várias razões, nos diz ainda mais, deverá continuar a ser de todos nós! Os portugueses de hoje agradecem. E os de amanhã não nos perdoarão se tal não vier a acontecer! Tem a palavra o chefe de Estado, o primeiro-ministro e o ministro da Cultura.

Membro do Fórum Cidadania Lisboa