Entrevista

"O partido de Rutte e o de Wilders não são assim tão diferentes"

Barbara Vis é professora de Ciência Política na Universidade Livre de Amesterdão.

O primeiro-ministro Mark Rutte em campanha em Haia, na terça-feira
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O primeiro-ministro Mark Rutte em campanha em Haia, na terça-feira Reuters

A professora de ciência política Barbara Vis diz que haverá pouco voto útil contra a extrema-direita porque se tornou claro muito cedo na campanha que Geert Wilders não chegaria a formar governo, mesmo que fosse o mais votado.

Têm sido apontadas três novidades nestas eleições: o número de partidos a concorrer, o número de indecisos tão perto do dia da votação, o enorme decréscimo na votação dos grandes partidos. Qual a importância delas?
O número de indecisos é realmente maior do que o habitual, mas é preciso ver que a maioria das pessoas está indecisa entre dois ou três partidos, no máximo. E não estão indecisas entre grandes e pequenos, porque uma das coisas novas nestas eleições é que não há realmente grandes partidos e pequenos partidos – os grandes partidos desceram tanto que agora todos são médios ou pequenos. Assim, em relação aos indecisos, estes não estão entre um partido de direita maior ou menor e a pensar votar útil para que um seja Governo. O factor decisivo para o voto são as políticas dos partidos.

No início da campanha parecia haver mais pessoas a considerar votar no primeiro-ministro, Mark Rutte, para evitar dar um primeiro lugar da extrema-direita de Geert Wilders, do que agora. Vai haver pouco voto útil neste sentido?
Sim, isso aconteceu porque muito cedo no início da campanha todos os partidos, excepto o 50+ [dos reformados] disseram muito claramente que não governariam com o PVV [Partido da Liberdade, de Wilders]. Assim, tornou-se claro que o partido não formaria governo, e assim tornou-se um partido menos perigoso. E há outra razão, o PVV e o VVD [Partido da Liberdade e Democracia, de Rutte], não são assim tão diferentes, estão ambos claramente no bloco de direita. Normalmente, o voto útil acontece entre dois partidos mais diferentes, um com mais possibilidade de formar Governo.

A grande novidade que mencionou, a descida de popularidade dos ex-grandes partidos, será uma tendência duradoura ou uma espécie de anomalia?
Essa é uma pergunta de resposta muito difícil. Por um lado, vemos que é uma tendência que já tinha começado, os grandes partidos já tinham, nas últimas duas eleições, perdido muitos votos, os vencedores já não eram tão grandes como há 20 anos. Isso pode ser uma indicação de que o eleitorado está a mudar. Também há um aumento da escolha – normalmente temos muitos partidos, mas este ano são 28, são realmente mesmo muitos – e estudos mostram que o facto de haver mais escolha também tem influência. Por outro lado, isso vai obrigar a uma coligação muito grande, com muitos partidos, e se o resultado for que esta não funcione muito bem, as pessoas podem preferir voltar a votar em partidos maiores por ser mais prático. É muito difícil prever o que poderá acontecer.