Torne-se perito

Cidadãos organizam manifestação a pedir fim de caça à raposa, "prática cruel e bárbara"

Protesto marcado para este sábado em Lisboa.

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Segundo o ICNF), são mortas 14.000 raposas por ano Enric Vives-Rubio

Um grupo de cidadãos juntou-se na luta contra a caça da raposa e organizou uma manifestação, em Lisboa, para a abolição da lei que permite uma "prática cruel e bárbara", e uma petição que já ultrapassou 7.700 assinaturas.

Foram vários aqueles que se insurgiram nas redes sociais contra as diversas batidas à raposa organizadas em Janeiro e Fevereiro e "acabámos por perceber que podíamos fazer alguma coisa contra isso", disse nesta sexta-feira à agência Lusa Octávio Mateus, um dos elementos do Movimento Pela Abolição Caça à Raposa.

Assim, foi decidido realizar uma manifestação, que vai decorrer no sábado, na praça do Comércio, em Lisboa, e uma petição, que já tem mais de 7.700 assinaturas a pedir a abolição da caça à raposa, "uma prática cruel e bárbara".

"Acreditamos que a maioria da população está contra a caça à raposa, uma prática anacrónica", realçou Octávio Mateus, defendendo que o Estado tem o dever de gerir os recursos naturais, nomeadamente de espécies, tendo em consideração "não só caçadores, mas todos aqueles que não caçam, que são muito mais".

As espécies existentes na natureza "são de todos nós e os caçadores, ao caçá-las, estão a privar-nos do direito de observar estas raposas em liberdade", insistiu.

"Estamos no século XXI e parece-nos indicado pedir ao legislador que repense a forma como esta actividade está legislada, sempre tendo em conta a opinião da cidadania e baseando-se também na ética e na ciência", refere o texto da petição.

Segundo os seus autores, vários países estão avançar no sentido de restringir a caça e "o caminho natural será que no futuro esta seja totalmente abolida".

Em resposta a uma questão da agência Lusa, o Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNF), diz que, com base em "estatísticas das últimas dez épocas venatórias [de caça], a média de raposas abatidas pela actividade cinegética é de 14.000 exemplares por ano".

Octávio Mateus apontou que a raposa é uma espécie cinegética que "não está em perigo mas também não está em excesso e ocorre um pouco por todo o país", e há falta de estudos a mostrar um excesso populacional ou a justificar a caça, "feita apenas por fins de desporto".

"Um desporto onde esteja previsto que as raposas podem, por exemplo, ser mortas à paulada, parece-me um desporto de mau gosto", salientou, apelando a que se procurem formas de convivência mútua, em equilíbrio com a natureza.

A questão colocada pelos defensores da abolição da caça à raposa, refere, "não é tanto quanto ao perigo de extinção, é mais pela inutilidade desta prática" e argumenta com estudos internacionais a apontar que "a existência de predadores é das ações mais eficientes para aumentar a biodiversidade".

Os organizadores da manifestação não avançam uma estimativa do número de participantes previsto, mas, na rede social Facebook, são mais de 460 aqueles a dizer que estarão presentes.

Caçadores defendem que batidas à servem para “equilíbrio” das espécies

As batidas à raposa estão em desuso pelo pouco valor comercial das peles ou do interesse pela sua carne, segundo os caçadores de Ortiga, Mação, onde a sua caça é feita para "equilíbrio das espécies" e defesa dos galinheiros.

"A falta de comida nas florestas, como coelhos, lebres e perdizes, leva as raposas a procurar alimento dentro da aldeia causando prejuízos aos proprietários de galinheiros, que só nos últimos dias perderam dezenas de galinhas aqui em Ortiga", disse à agência Lusa o presidente da Associação de Caçadores daquela freguesia do concelho de Mação, no distrito de Santarém.

"São raposas a mais para tão poucos coelhos e no último domingo, a pedido das pessoas lesadas, conseguimos abater cinco raposas num espaço de 800 metros, todas junto das habitações", contou João Durão, para quem a caça à raposa "serve exclusivamente como forma de equilibrar as espécies" existentes na floresta.

"A densidade de raposas aqui é muita e não existe controlo de uma espécie que tem características muito próprias no ataque aos galinheiros, e que são diferentes dos saca-rabos ou das doninhas", observou, tendo feito notar que a raposa, "quando entra no galinheiro, mata tudo e só depois come. Come e leva, ou enterra, para vir mais tarde buscar. Os saca-rabos só matam o que comem, e deixam as carcaças no local, pelo que sabemos diferenciar que tipo de animal ataca os galinheiros".

Segundo aquele caçador, com 30 anos de experiência, "dantes, nos anos 80, as peles valiam dinheiro, cerca de cinco contos cada, mas agora já nem dadas as querem e por isso a população de raposas cresceu muito. E a carne também não é apetecível, pelo que ninguém tem interesse na caça à raposa, mas sim ao javali, esse sim, o pior predador, uma verdadeira praga que devora tudo".

Em Tramagal, no concelho de Abrantes, Vitor Cardoso, caçador há 38 anos, disse à Lusa que ali "não há batidas à raposa porque não existem raposas em excesso", tendo, no entanto, referido que "são vistas dentro da aldeia de Crucifixo", em busca de alimento.

"Há uns anos atrás ainda se fazia um convívio que assinalava o culminar da época de caça com uma batida às raposas, ficando uns com a pele ou com o rabo para troféu. Mas hoje isso já não acontece", afirmou, tendo observado nunca ter "provado" raposa mas que alguns caçadores a faziam de "caldeirada".

Ainda hoje, em Queixoperra, aldeia com 170 habitantes no concelho de Mação, se mantém viva a tradição de confeccionar a raposa embora não se façam batidas, que deixaram de ser vistas como "rivais na caça ao coelho e a competir com o homem pelas mesmas presas", disse à Lusa Vasco Marques, 42 anos.

"Toda a minha vida foi feita aqui no campo, numa aldeia rodeada de bosques e ribeiras, e aprendi a viver com as raposas, a conhecê-las e a respeitá-las. São selvagens mas não fazem mal a ninguém e quando se aproximam das aldeias e dos galinheiros é por falta de comida, pelo que, caçá-las, só para controlo e equilíbrio do número de predadores", referiu.

Questionado sobre a tradição da confecção de raposa, Vasco Marques lembrou que "ninguém caça raposas para comer" mas disse que a sua preparação, que aprendeu com o pai e o avô, "requer um tratamento muito especial", tendo referido que "não servem os machos nem as raposas com cio".

Depois de retirada a pele, "têm de estar dois dias mergulhadas em água corrente da ribeira e mais dois dias em vinha de alho, para perder o odor, e depois dá para fazer um petisco saboroso e em convívio, assim como com texugos e ouriços-caixeiros", contou.

Definindo-se como "um caçador que se preocupa mais com as espécies do que coma caça", Vasco Marques disse à Lusa que a manifestação prevista para sábado em Lisboa pela abolição da caça à raposa, em Portugal, "pode ser uma forma de chamar a atenção para as raposas", tendo defendido, no entanto, que "é na destruição do seu habitat e da sua alimentação" que reside o principal problema da espécie, que se alimenta de pequenos roedores, figos e uvas.

"O maior perigo para as raposas e outras espécies é a mudança de hábitos das pessoas e um espaço rural cada vez mais desertificado porque, sem comida, não podem sobreviver", alertou.

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