Crítica

A solenidade emocional de Julie Byrne

Julie Byrne, guia-se, e encaminha-nos, entre uma música sonhadora, às vezes ornamentada por ecos, outras vezes simplesmente esquelética.

É uma folk sentimental, atmosférica e transparente, aquela que Julie Byrne propõe
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É uma folk sentimental, atmosférica e transparente, aquela que Julie Byrne propõe

É uma nómada a cantora e compositora americana Julie Byrne. Ou pelo menos assim nos faz acreditar, solicitando ao ouvinte que viaje com ela por uma série de paragens exteriores (Kansas, Arkansas, Montana, Wyoming) e por momentos interiores onde vislumbramos confissões apaixonadas ou recordações amargas.

Não é no entanto uma viagem agitada a que propõe. E isso deve-se ao ambiente acolhedor que a generalidade das canções do seu segundo álbum denota – depois da estreia em 2014 com Rooms With Walls and Windows. É uma folk sentimental, atmosférica e transparente, aquela que propõe, marcada pela sua voz elegante, os ambientes quase sempre enevoados, o som ecoado da captação e a tonalidade subtil das orquestrações. 

É uma sonoridade com muitas evocações, que tanto nos pode conduzir a Joni Mitchell ou a Nico, como a Cat Power, Grouper ou Julia Holter, ou até ao clima etéreo de Twin Peaks, a série de David Lynch com banda-sonora de Angelo Badalamenti. Há sussurros intimistas e cenários naturais idílicos e espaçosos, embora povoados por recordações, amores e desilusões, com a voz e a guitarra acústica, rodeada por reverberações, no centro da acção. 

“I traveled only in service of my dreams”, canta às tantas em Sleepwalker, possuída por uma graça desarmante, mesmo quando se pressente que em seu torno pode reinar um aparente caos sentimental. Nada de novo, na verdade. Muitos outros antes dela fizeram o mesmo a partir de cacos emocionais. Talvez o seu segredo seja esse, fazendo-nos acreditar que esta música que parece atravessar décadas, ou mesmo séculos, possui uma sensibilidade desconcertante que só faz sentido neste instante.

E dessa forma simples e solene Julie Byrne guia-se, ao mesmo tempo que nos encaminha também, por entre uma música sonhadora, às vezes ornamentada por ecos, outras vezes simplesmente esquelética, tocando-nos na sua nudez.