Há uma carta que vai a caminho para disciplinar comportamentos

Documento que elenca deveres dos pais no desporto é "integralmente subscrito" pelo Governo.

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Entre os deveres propostos para os pais está o de deixarem ser os filhos a escolher o que querem praticar Sérgio Azenha

Se reside nas regiões de Lisboa ou Setúbal e tem filhos com idades até aos 14 que pratiquem futebol, irá provavelmente receber uma carta inabitual nos próximos tempos. Chama-se Carta dos Deveres dos Pais no Desporto, foi apresentada publicamente em Lisboa em Janeiro e elaborada com o objectivo de ajudar os pais a evitar “comportamentos pouco adequados” nos treinos ou jogos em que os seus filhos participem, indicou ao PÚBLICO o presidente do Panathlon Club de Lisboa, Manuel Brito, que é o promotor da iniciativa para a qual conta com o apoio das associações de futebol de Lisboa e Setúbal.

Esta carta foi apresentada em “colaboração com o Plano Nacional para a Ética no Desporto (PNED), pelo que é integralmente subscrita pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ)”, informou o Ministério do Educação, que também tutela esta pasta por via do secretário de Estado da Juventude e Desporto, João Paulo Rebelo.

O Panathlon é uma organização não-governamental internacional que visa promover a ética no desporto e que conta com clubes em muitos países e regiões. O clube de Lisboa é um deles. Na carta para os pais, que tem 10 pontos, afirma-se que a escolha dos desportos a praticar pelos filhos não deve ser imposta pelos pais, que estes têm como dever acompanhar as actividades dos filhos “com discrição”, que não perguntarão aos filhos, no regresso a casa, se perderam ou ganharam, mas sim se se divertiram ou ainda, entre vários outros princípios, que têm de respeitar as competências próprias dos treinadores. 

A carta tem vindo a ser divulgada desde o ano passado pelo Panathlon International, que pretende que venha a ser adoptada pelo Comité Olímpico Internacional (COP) ainda este ano, segundo informação publicada no site da organização.

Em Lisboa foi apresentada publicamente, numa conferência organizada em conjunto com o Comité Olímpico que, apesar de a não ter adoptado, apoia a iniciativa, já que "os princípios que estão expressos no documento são os mesmos do olimpismo e do movimento desporto”, esclareceu a assessora de imprensa do COP.  

Para o presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), Jorge Ascenção, a carta proposta pelo Panathlon Club é “bem-vinda”, embora frise que compete também às entidades responsáveis pela formação desportiva “criarem um ambiente em que seja natural os pais assumirem” os deveres preconizados naquele documento. O que não sucede, segundo ele, não só pelo espírito competitivo alimentado pelos clubes, como também pela secundarização de outras modalidades que não sejam o futebol, o que leva a que se “criem estigmas”, que poderão incentivar os pais a intervirem nas escolhas dos filhos.

As atitudes dos pais no desporto também são abordadas no Código de Ética Desportiva, aprovado pelo anterior Governo. Neste documento refere-se, entre outros itens, que os pais devem respeitar as decisões dos árbitros e treinadores e que deverão “incutir aos filhos o espírito de que a essência do desporto não está na atribuição ou ostentação de títulos”.

O Ministério da Educação refere que, através do IPDJ e do PNED, têm sido desenvolvidas acções em escolas, clubes, associações, entre outras entidades, no âmbito da campanha Educar para a Ética no Desporto, “que visa sensibilizar os pais para o impacto e importância do seu comportamento junto dos filhos, quer na defesa da integridade física e psicológica dos mesmos, quer na dissuasão de condutas eticamente incorrectas junto dos diferentes agentes desportivos”.

Alguns dos deveres dos pais

  • A escolha dos desportos a praticar pelos filhos deverá ser da sua responsabilidade e iniciativa sem qualquer imposição por parte dos pais
  • É dever dos pais acautelar os excessos de carga no treino em competição durante o período infanto-juvenil, em particular na puberdade (...)
  • É dever dos pais acompanhar as actividades dos filhos com discrição (...)
  • É dever dos pais respeitar as competências próprias dos treinadores, limitando-se a questioná-los sobre a forma como os seus filhos se integram na vida da equipa e do clube e sobre as perspectivas de evolução académica
  • É dever dos pais esclarecer os filhos que para serem bons desportistas, para se sentirem felizes e estarem de bem consigo próprios, não é necessário serem campeões
  • É dever dos pais lembrar-lhes que os insucessos terão de ajudar à sua evolução e torná-los mais sábios