Opinião

O Génio calado

É nas entrevistas que o escritor António Lobo Antunes conta como tudo faz para não defraudar o seu Génio; a tarefa é facilitada com a presença de um anjo da guarda.

Falarei aqui de Génio. Mas antes, subjugado pelas etimologias, farei uma pergunta ingénua: o que tem o escritor António Lobo Antunes que o torna um entrevistado apetecível mesmo na época de pousio, fora da circunstância da publicação de um novo livro? (Reenvio para a longa entrevista que o escritor concedeu a Cristina Margato, para o Expresso da semana passada). A minha hipótese, que será mais do que engenhosa (outra vez a etimologia), desdobra-se num duplo movimento: 1) nenhum outro escritor português vivo proporciona aos leitores um confronto tão vivo e tão dramático com o Génio; 2) quanto mais aumenta a necessidade social de estupidez, mais cresce o entusiasmo colectivo pelo Génio (e na medida em que é beneficiado por esta lei, o Génio entende que não deve fazer nada para a contrariar).

Chamo aqui Génio ao que não pode ter outro nome. Refiro-me a essa entidade bem conhecida dos latinos, a quem cada indivíduo era confiado à nascença. A maior parte das pessoas morre sem conhecer o seu Génio, poucas são as que têm o terrível encontro com o Génio e menos ainda as que a ele se entregam sem qualquer resistência, como ele exige. Dizem os estudiosos destas matérias geniais que defraudar o seu Génio é um motivo de infelicidade para toda a vida. Nesta perspectiva, António Lobo Antunes é um escritor feliz porque se encontrou com o seu Génio desde muito cedo. Todas as suas entrevistas falam desse encontro com o ser estranho de onde vem a escrita, falam de um Eu que tem uma vida que não lhe pertence inteiramente, já que tem de partilhá-la com um ser que não conhece, mas com o qual vive em intimidade. Essa entidade impessoal que o incita e o escraviza na tarefa literária é o Génio. E quem disser que se trata de uma ideia mítica, engendrada (malditas etimologias!) por quem desta matéria nada sabe, veja como António Lobo Antunes, na pose física e na fala — em público — parece sempre um homem pequeno e embrulhado em si, à beira de soçobrar ante o peso do Génio. Outros escritores e artistas, tendo-se encontrado com o seu Génio, dão ares de quem recebeu um prémio a que mais ninguém tem direito e estão muito orgulhosos por exibi-lo. Não assim, com António Lobo Antunes: o prémio parece também um castigo. Mas ouvindo as suas palavras, percebermos que ele se habituou aos encontros com o Génio e convive bem com ele. É evidente que a co-habitação com este inquilino que se apoderou da parte mais importante da vida do escritor não é nada fácil e provoca uma tensão entre duas forças: entre a força impessoal do Génio e a fraca força do Eu, que vai definhando. Daí, esta confissão: “Não me é fácil viver comigo. Parece que estou sempre em guerra civil.” A jornalista percebeu muito bem que nestas palavras estava resumido o efeito devastador do Génio. Por isso, destacou-as como título da entrevista.

Não perceberíamos uma parte importante do Génio se não soubéssemos que ele, segundo os estudiosos, está relacionado com a figura cristã do anjo da guarda. Quem é o anjo que guarda o escritor quando este fica entregue ao poder diabólico do seu Génio? É “um americano de Harvard, que está aqui durante três anos só para olhar para mim”. Desconfiada, tentando perceber melhor a relação do Génio com o seu anjo, a jornalista pergunta: “O que ele faz? Conversa consigo?”. Resposta: “Nem isso. Vê-me trabalhar, pede-me para ler estas versões”. E depois de um desvio pela Transilvânia, onde um dia António Lobo Antunes descobriu que os seus rascunhos já eram vendidos em leilões, a jornalista quis saber se o americano não o incomoda. “Não — responde o escritor ou o seu Génio — ele está calado. Eu também”. 

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