Crítica Artes

Um ponto de vista novo sobre Almada

A grande antológica sobre Almada Negreiros na Gulbenkian condensa um ponto de vista toalmente novo sobre a obra do artista.

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De todos os núcleos, salientaremos aquele que é dedicado ao cinema, a ocupar todos os espaços do piso -1 do edifício Enric Vives-Rubio
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Enric Vives-Rubio

Estava já anunciada há algum tempo como uma das grandes exposições do ano, e ela aí está, finalmente: José de Almada Negreiros. Uma maneira de ser moderno inaugurou-se há poucos dias na Gulbenkian, e é já um sucesso de visitas, tudo levando a crer que irá integrar a lista das exposições mais vistas nesta casa, a par e passo com a de Amadeo, de 2010. O caso não era para menos: Almada é uma das figuras mais emblemáticas da vida cultural portuguesa durante o século XX, não só porque é autor de uma produção multifacetada e prolixa, como por ter assumido frequentemente o papel de mentor, descobridor de talentos, provocador, artista com uma relação educada com o Estado Novo, enfim, uma figura pública que foi impossível ignorar durante toda a sua vida activa, até 1970. A própria Fundação Gulbenkian, que durante décadas foi a instituição cultural mais importante em Portugal, não se enganou no papel que Almada exercia no nosso país, e entregou-lhe, pouco tempo antes de este morrer, a tarefa de conceber um painel com um relevo em pedra para o edifício da sede. Hoje entramos na exposição passando por esta peça, que de certa forma condensa todas as características que atribuímos hoje à obra de Almada: elegante, decorativa, erudita, moderna, exigente, abstracta, figurativa, privilegiando o desenho em detrimento da mancha. Wölflin, o grande teórico do estilo, tê-la-ia relacionado sem problemas com uma racionalidade de raiz clássica, e essa seria uma paternidade que não teria decerto repugnado a Almada.

Hoje, em tempos de educação massificada e meios de informação digitais omnipresentes, já será difícil encontrar quem nunca tenha ouvido falar de, digamos, Fernando Pessoa ou Amadeo de Souza-Cardoso — o primeiro presença obrigatória em qualquer plano de estudos juvenil, o segundo objecto de grande divulgação em Lisboa, Porto e Paris nos anos mais recentes. Com a exposição que agora abriu, o mesmo se passará com este autêntico terceiro membro da tríade de ouro do modernismo em Portugal. Almada, como bem perpassa em toda a exposição, foi essencialmente um artista urbano, mundano, frequentador de toda a espécie de tertúlias mais ou menos ousadas — e isto para não falar dos seus tempos de provocação futurista, na senda do grupo do Orpheu e da amizade com Amadeo. Soube relacionar-se com talento com o Estado Novo, intuindo que num meio português praticamente sem mercado privado seria daí, através de encomendas públicas de toda a espécie, que lhe viria o sustento. Graças aos seus dotes sociais, a Lisboa moderna, ou seja, a Lisboa que ultrapassa a mancha da Baixa pombalina e das colinas medievais, é hoje uma cidade onde a presença de Almada Negreiros é permanente. Uma cidade de Almada?

Só o tempo pode responder a esta questão. Voltemos à exposição. Fundamentalmente, ela constrói-se com base numa investigação rigorosa e muitíssimo bem fundamentada sobre a personalidade e o trabalho do artista. Mariana Pinto dos Santos, que com Ana Vasconcelos (para a parte executiva) assina a curadoria da exposição, argumenta que existe não uma leitura modernista da obra de Almada (como a de José-Augusto França, referência fundamental até há pouco tempo de toda a interpretação sobre a obra deste artista), mas que ela se vai desenvolvendo por retornos incessantes a estilos, linguagens, técnicas, temas e outras categorias que possamos descobrir no corpo de trabalho de Almada, que impedem com rigor que se fale de uma ascensão, por exemplo, do desenho humorístico dos primeiros anos até à abstracção que marcaria o fim da vida do pintor. Esta ideia, que é ela própria moderna, vê-se posta em causa de forma óbvia pela própria divisão da exposição em oito núcleos temáticos que não respeitam nem cronologias, nem suportes, nem estilos, nem disciplinas artísticas. Pinto dos Santos apoia-se num desenho inédito, representando um jovem casal a jogar, para demonstrar a sua tese. Mas podemos escolher outra obra nas mais de 400 peças da exposição, como um desenho preparatório para um painel de azulejos de revestimento na Rua do Vale do Pereiro, em Lisboa, dos anos 40, exemplo de aplicação da abstracção geométrica que, para Almada, sintetizaria toda a arte jamais criada — inclusive a figurativa.

Ver, Saltimbancos, Per Formare, Humor e narrativa gráfica são apenas três dos oito núcleos que nos permitem colocar alguma ordem numa produção que se adivinha ter sido torrencial, exaustiva, exigente, virtuosística. As curadoras rejeitam igualmente uma visão centralizada do modernismo de referência parisiense, preferindo a fragmentação periférica que dizem — e nós concordamos — constituir a própria essência do ser moderno. De todos os núcleos, salientaremos aquele que é dedicado ao cinema, a ocupar todos os espaços do piso -1 do edifício, por ser aquele que maiores surpresas reserva. Mas é uma preferência totalmente subjectiva dentro de uma exposição que guarda incontáveis surpresas nas suas salas.