Crítica

Avenida Paulista 2017 ou um passeio musical pelo bom gosto

O minifestival Avenida Paulista deste ano ultrapassou em qualidade o de 2011. Estão de parabéns os músicos, os promotores e o Teatro São Luiz, que o recebeu nas noites de 10 e 11 de Fevereiro.

Mariana Aydar (imagem de arquivo)
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Mariana Aydar (imagem de arquivo) DR

Quatro concertos em duas noites consecutivas foi o que ofereceu, em 2017, a segunda edição portuguesa da Avenida Paulista, espécie de minifestival destinado a mostrar e promover o que de melhor está a ser feito na cena musical de São Paulo. A edição 2011 teve a participação de Mariana Aydar, Tulipa Ruiz, Thiago Pethit e Raf Vilar. Este ano, porém, os veros paulistas ficaram só para o final, porque o primeiro dia esteve entregue a um mineiro (Momo) e a uma gaúcha de Porto Alegre (Dom La Nena) e a abertura do segundo dia foi feita (brilhantemente, diga-se) por uma baiana, Márcia Castro. Os paulistas Dani Black e Mariana Aydar guardaram para Portugal uma estreia: a sua parceria em palco, que no São Luiz foi justamente aplaudida.

Momo (Marcelo Frota), cantor e compositor brasileiro há dois anos a viver em Lisboa mas já com uma obra gravada digna de nota, baseou a sua (curta) actuação no São Luiz no seu mais recente disco, Voá, chegado às lojas naquele mesmo dia. Junto com um guitarrista (Nuno Carvalho) e um baterista (Filipe Basto), Mono apresentou sete canções, na maioria do novo disco (Esse mar, Mimo, Nanã, Pensando nele ou Alfama, que no disco tem participação vocal de Camané) mas também recordou temas de discos anteriores, como Uu, do CD Cadafalso. Dono de um timbre singular e de modulações vocais tributárias do Clube da Esquina de Milton, Lô Borges ou Ronaldo Bastos (grupo mineiro que é uma das suas maiores inspirações musicais), Momo navega em águas calmas mas seguras, com uma envolvência que cativa quem o ouve.

Dom La Nena, que partilha com Momo essa (nalguns casos só aparente) calmaria, mostrou uma vez mais que em palco é uma verdadeira one-woman-show. Sozinha, construindo loops a partir dos instrumentos que a rodeiam (desde logo o violoncelo, o seu instrumento de eleição, mas também guitarra, cavaquinho, tambores, percussões várias), ela é uma só e uma banda que vai criando com total à-vontade. Começou, só voz e kissange, com Era una vez, tema em espanhol do disco Soyo, cuja digressão mundial ela fechou agora em Lisboa. Na maior parte do concerto, foi Soyo que se ouviu (Llegaré, Buenos Aires, Vivo na maré, Lisboa, La nena soy yo, Juste una chanson, Menino, Golondrina), mas La Nena também recorreu ao seu mais recente disco, o EP Cantando (com Felicidade, de Lupicínio Rodrigues, Scenic world, de Beirut, e Gracias a la vida, de Violeta Parra) ou até ao seu disco de estreia, com Ela, Sambinha, Anjo Gabriel ou Você, já no encore, colando-lhe o refrão de La nena soy yo. Talvez ela não tenha conseguido pôr a plateia a repetir algumas canções com maior ênfase, como tentou, mas a forma como foi aplaudida no final mostrou que o último acto da digressão de Soyo foi, a seu modo, triunfal.

Na noite seguinte, a de sábado (com a sala menos cheia mas, ainda assim, composta), uma boa surpresa. Só voz e violão, um formato nela raro mas que testou com êxito no São Luiz, Márcia Castro abriu a noite com uma balada, Logradouro, daí partindo para duas notáveis composições de Luciano Salvador Bahia: Queda e Vergonha. À vontade no violão, voz claríssima e com finais de frase próximos dos vocais jazzísticos, Márcia conquistou as atenções do público logo de início a manteve-as até final, com Pecadinho, do seu primeiro disco. Pelo meio cantou Na menina dos meus olhos (tema que gravara em dueto com Mayra Andrade), Deusa do amor (do bloco afro Olodum), O ouro e a madeira (do cantor e compositor baiano Ederaldo Gentil, 1947-2012) e Preta pretinha. Em todas elas, Márcia foi exemplar e convincente, mostrando “o que é a baiana tem”: arte, além do samba e da lenda.

Por fim, uma união musical com comprovada química: Mariana Aydar e Dani Black, nomes que Portugal já conhecia de outros palcos, juntaram-se pela primeira vez num espectáculo. E o resultado foi deveras encorajador. Com repertório de ambos, em duetos ou à vez, a dinâmica musical revelada manteve em alta o tom do minifestival (com eles estiveram Sandro Moreno, bateria; Zé Godoy, teclas; e Adriano Magoo, acordeão). O repertório apresentado abriu com Certas coisas e incluiu Vai vadiar, Te faço um cafuné, Areia (com Mariana no baixo eléctrico, enquanto Dani se mantinha na guitarra eléctrica), Seu gosto, Samba triste (Mariana mais perto da bossa, só voz e violão), Comer na mão (um frevo de Chico César), Não não não, Aqui em casa, Os passionais e Isso pode, que Mariana misturou com Carcará. No final, ainda se ouviu Axé acapella (tema que na verdade os juntou, mas que acabou por ser gravado por Maria Gadú) e, no encore definitivo, Maior, que fecha o CD Dilúvio, de Dani Black, com estes versos (que a audiência repetiu, em semi-surdina): “Eu sou maior do que era antes/ Estou melhor de que era ontem/ Eu sou filho do mistério e do silêncio/ Somente o tempo vai me revelar quem sou.”

Poderá haver muito “joio” na nova música brasileira, mas o “trigo” ainda se revela e compensa. A segunda edição lisboeta da Avenida Paulista foi uma inegável prova disso. A pedir bis.

P24 O seu Público em -- -- minutos

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