Karlon partiu em busca do pó di terra

Passaporti foi sendo criado em paralelo à curta rodada com Salaviza. É o álbum em que Karlon mergulha na história familiar e nas suas raízes. É um álbum para os pais que vieram de Cabo Verde e para os que chegaram depois. É, também, o disco de alguém em busca de si mesmo.

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Helder White / Rimas e Batidas

Vemos a capa. O homem que encara a objectiva, de expressão séria e olhar concentrado, é Abel Furtado, fotografado há muito tempo nos seus terrenos em Praia Baixo, ilha de Santiago, Cabo Verde. Viramos o cd e olhamos a contracapa. A menina de mãos unidas em prece, vestida a rigor para festa religiosa, é a filha de Abel, Maria do Céu Furtado. São o avô e a mãe de Karlon, ou seja, o rapper que conhecemos nos Nigga Poison e que vem construindo mais recentemente uma sólida carreira a solo, e também o actor que protagoniza Altas Cidades de Ossadas, a curta que João Salaviza leva ao Festival Internacional de Cinema de Berlim

Karlon é o autor de Passaporti, álbum que tem dentro o avô Abel, a mãe Maria do Céu e o pai Arlindo Gomes. Álbum que é história individual (a dos pais que imigraram para Portugal em 1974, que cá trabalharam e criaram o filho que os canta), retrato colectivo (o da geração cabo-verdiana na diáspora em Portugal) e celebração de uma cultura através da música (o hip hop crioulo de Karlon florescendo sobre samples da música cabo-verdiana de outrora). Há dois anos, quando da edição de Meskalina, dizia-nos que Nha Momentu (2013) era a sua biografia, “a filosofia de um gajo que nasceu num gueto”, e que Meskalina era viagem interior, “as reflexões que lhe assaltam a cabeça quando se põe a observar o mundo”, como escrevemos na altura. Intenso emocionalmente, ponte comovente entre passado e presente, Passaporti é o resultado de alguém que trabalha para responder a uma pergunta – “o que é que estamos a fazer aqui na Terra?” – e que, mesmo já tendo encontrado a resposta, continua a trabalhar, a escavar mais fundo. “A única coisa que estamos a fazer na Terra é deixar história”, dir-nos-á Karlon. Passaporti é a história que nos deixou agora.

Tudo começou em 2014, quando Pedro Coquenão, o homem por trás de Batida, lhe mostrou os angolanos Conjunto Ngonguenha e MCK ou o brasileiro Marcelo D2, “que misturavam temas tradicionais com hip hop”. Antes, em 2011, Karlon trabalhara com Coquenão no EP Mamã Africana, em que deu rimas a semba rapado. “Ficou sempre aquele bichinho de fazer qualquer coisa com as raízes”, conta. Foi o que fez agora, escavando-as de duas formas. Trocando com o produtor Charlie Beats samples de Tradição, de Tibau Tavares, das batucadeiras do Mára Pánu de Porto Salvo, de Maria de Barros, Zé Cirilo ou dos Cordas do Sol - e chamando dois grandes nomes do nosso rap, Chullage, também de origem cabo-verdiana, e Valete, de origem são-tomense, a juntarem-se-lhe em Foi sodade. Ao mesmo tempo, Karlon passeava pelo seu bairro em Miraflores, arredores de Lisboa, para “apontar histórias com os mais velhos” e lhes perguntar sobre o “pó di terra”, sobre “tudo o que é genuíno de Cabo Verde”.

À procura de um pouco mais de si

Em casa, resgatou os velhos álbuns de família, juntou-lhes a biografia conhecida e, tudo junto, começaram a nascer canções como Cabo Verde, história do país desde o colonialismo à independência e retrato geográfico e cultural do arquipélago e seu povo, das suas plantações e suas praias, do seu funaná, mornas e coladeras. Canções como Mamá tchiga Portugal, nostalgia evocada na melodia da guitarra e ritmo requebrado, e Karlon, quando o beat e a percussão se juntam à mistura, a contar do êxodo dos que se espalharam pela Europa vindos do arquipélago - nela conta a história da sua mãe, ou seja, diz, “dos pais que viveram aquilo que não vivemos, que trabalharam que se fartaram e que sacrificaram tudo para que tivéssemos o que temos, um certo ponto de conforto”. Pouco depois, enquanto nos fala do já demolido bairro da Pedreira dos Húngaros, em que cresceu, do novo bairro e no prédio em que vive agora, conta que tem “a paranóia” de “sair do bairro e comprar uma vivenda": "Estou a trabalhar com esse sentido. É um grande objectivo para mim. Como se vingasse esse objectivo com que os nossos pais vieram, esse sonho que não conseguiram”.

Para Karlon, este é um álbum para eles, os pais. Quanto a isso, missão cumprida. Pela primeira vez, um disco seu teve total aprovação familiar. “’Acertaste, gostei do trabalho, de ver aqui as nossas raízes’”, disse-lhe o pai. Interessa-lhe, também, que seja um álbum para os que nasceram depois. “Quero dar a conhecer aos jovens a cultura de Cabo Verde, essa parte da cultura que já perderam. Vivo para andar para trás no passado, que é a forma de estar no presente com um olho no futuro”. Passaporti é, por fim, para Karlon ele mesmo. Trabalhando nele, cruzando a batida seca e as rimas graves com o ondular do acordeão e a voz doce de Maria de Barros na óptima Fadiga ku kuzê, por exemplo, Karlon procurava um pouco mais de si próprio.

Em Altas Cidades de Ossadas, vemos alguém que foge da cidade, dos edifícios anónimos crescendo na vertical até ao céu, e que se refugia num casebre em ruínas no mato, recusando qualquer contacto e desconfiando de todos os que se aproximam dele para tentar devolvê-lo ao mundo lá em cima. Karlon é Karlon na curta de Salaviza. “É o Karlon da mixtape Paranóia [2014], aquele que diz coisas de que as pessoas têm medo e que não aceitam no mundo real. Eu sou muito acelerado, mas ele [Salaviza] reduziu-me a velocidade, fez um Karlon mais calmo, mais focado na natureza. Indo sozinho, eu não conseguia chegar lá”.

Passaporti foi nascendo paralelamente a Altas Cidades de Ossadas e a gravação de um, diz Karlon, influenciou a rodagem do outro. Passaporti é um trabalho sobre premiar os cabo-verdianos, a sua vida e o seu país. O filme é sobre um rapaz que viveu a cidade, mas que se tornou um bicho-do-mato. Ganhou medo dela e está saturado, cansado, e quer voltar às origens”. Altas Cidades de Ossadas estará em Berlim. Passaporti está disponível para quem o quiser ouvir, mas a sua história ainda não acabou. Karlon planeia ir este ano a Cabo Verde. Consigo irá João Vagos, assistente de imagem na curta rodada com Salaviza. Pretende filmar um vídeo para cada uma das canções de Passaporti e descobrir mais de cada um dos locais de que fala ao longo do álbum. Já tem mais dois discos em preparação, distantes em som e tema deste que agora editou, mas o caminho que Passaporti abriu continuará a ser percorrido. “Este álbum não é uma questão de negócio. Tenho que pesquisar mais, continuar a fazer o trabalho de casa. Isto é mesmo uma questão de história”. Em curso.