Morreu John Berger, um artista (e um espectador) total

O autor de Modos de Ver, obra de referência para sucessivas gerações de críticos e historiadores de arte, tinha 90 anos. Foi romancista, pintor, ensaísta, poeta, crítico, cronista – e, em certo sentido, também um tutor.

Foto
DR

Com G. ganhou o Booker Prize, com Modos de Ver (uma popular série da BBC que veio a ser um popularíssimo livro, trazido a Portugal pelas Edições 70) tornou-se o autor de referência para sucessivas gerações de críticos e de historiadores de arte – publicou ambos no mesmo ano, 1972, e foi assim que se tornou quase instantaneamente "um dos escritores mais influentes da sua geração", como ainda muito recentemente, quando fez 90 anos, aparecia descrito pelo The Guardian. John Berger – romancista, pintor, ensaísta, poeta, crítico, cronista e, em certo sentido, também um tutor – morreu esta segunda-feira, como confirmou ao El País a directora literária da sua editora espanhola, a Alfaguara. Resumi-lo a um artista total seria pouco: foi também, e talvez sobretudo, um espectador total.

Natural de Londres, onde nasceu em 1926, filho de um húngaro de Trieste e de uma sufragista, John Berger nunca quis frequentar a universidade e começou a sua carreira como pintor na década de 1940, enquanto a Inglaterra se recompunha da Segunda Guerra Mundial. Paralelamente, iniciou-se como crítico de arte no New Statesman, assim definindo aquele que viria a ser o seu objecto preferencial, não só como ensaísta mas também como ficcionista: A Painter of Our Time, o seu primeiro romance, que publicou em 1958, ia justamente atrás do enigma do desaparecimento de Janos Lavin, um pintor húngaro exilado, após a descoberta do seu diário por um amigo (e crítico de arte). Continuou, ao longo dos últimos 50 anos, a ir do ensaio ao romance, do teatro à poesia e ao cinema (escreveu três argumentos para o cineasta suíço Alain Tanner: La Salamandre, de 1971; O Centro do Mundo, de 1974; Jonas que Terá 25 Anos no Ano 2000, de 1976).

Profundamente comprometido com a esquerda (quando ganhou o Booker, doou metade do prémio monetário ao braço inglês dos Black Panthers), foi também um escritor militante até ao fim. Como recorda o El Mundo no obituário que lhe dedica, inventariando os seus contactos de juventude com George Orwell e a amizade bem recente com o subcomandante Marcos (a correspondência entre os dois acabou compilada em The Shape of a Pocket), "criou-se no comunismo e consagrou a sua vida à difícil tarefa de se manter fiel aos seus princípios sem cair no rolo compressor do dogmatismo".

As suas amizades, porém, iam muito além das simpatias políticas; eram também afinidades estéticas, como a que a cineasta Sally Potter festejava num dos ensaios que a Zed Books incluiu num volume editado por ocasião dos 90 anos do escritor, A Jar of Wild Flowers: Essays in Celebration of John Berger, e que começava assim: "John Berger tem 90 anos. Uma excelente idade. Na sua presença, contudo, a idade parece absolutamente irrelevante. Isso deve-se não só ao facto de ele parecer viver num presente perpétuo, rastreando permanentemente o mundo à sua volta (...), mas também ao seu entusiasmo e à sua curiosidade em relação ao futuro."

Aos 21 anos, nota Potter recordando a fortíssima impressão que o jovem Berger causou na sua mãe, que o teve como professor por uns meses, era já uma presença "inspiradora"; décadas depois, quando a sua série televisiva ensinou uma audiência incomparavelmente maior a ver, tornou-se uma figura de referência incontornável não só para artistas como para espectadores, dos mais leigos aos mais especializados. "As ideias que ele exprimia com tanta clareza tinham o efeito espantoso de parecerem ao mesmo tempo totalmente novas e contudo óbvias (...). Claro, claro, pensávamos todos: é mesmo isto, só que até então não tínhamos encontrado as palavras certas. Ninguém tinha encontrado as palavras certas."

Era o que John Berger continuava a fazer, diz ainda Sally Potter: a encontrar as palavras certas para ver todos os prodígios e todas as tragédias deste mundo, do maravilhoso cinema de Charlie Chaplin à desgraça do sistema prisional, uma das suas últimas causas. Vivia, por estes dias, em Antony, um subúrbio de Paris (saíra de Inglaterra há décadas), onde a jornalista do Observer foi ter com ele em Novembro, a poucos dias do seu derradeiro aniversário, para o ouvir falar sobre a crise migratória, o "Brexit", os pais, os netos, a paixão pela natação e também um bocadinho (pouco) sobre si próprio: "A maneira como eu observo vem-me naturalmente, sou uma pessoa curiosa. Sou como o vigia, aquele tipo no navio que faz pequenos trabalhos, como atirar carvão para a caldeira; não sou de todo um navegador, sou absolutamente o oposto. Deambulo pelo barco, encontro os meus postos, e limito-me a olhar para o oceano."

Esteve em Portugal em 2002 a convite do teatromosca para a estreia do espectáculo Dog Art, que aquela companhia de Sintra montou a partir do romance King – A Street Story (o grupo voltaria depois ao autor entre 2010 e 2011, com a trilogia As Três Vidas de Lucie CabrolEuropa e Tróia), e depois em 2015, quando o Lisbon & Estoril Film Festival o homenageou com um programa que incluía a exibição de alguns dos filmes que escreveu para Tanner (e da série Modos de Ver) e a exposição Aqui nos Encontramos, juntando desenhos seus e da pintora britânica Yvonne Barlow.

Além de Modos de Ver, foram por cá também editados os volumes Aqui nos Encontramos (Civilização, 2006), em que se inclui um conto sobre Lisboa, E os nossos rostos, meu amor, fugazes como fotografias (Quasi, 2008) e De A para X: Cartas de Amor (Civilização, 2009). O seu arquivo literário foi adquirido em 2009 pela Biblioteca Britânica.