Ir ao centro de saúde só para falar

Carolina Santos estudou medicina na República Checa, fez a especialidade em medicina geral e familiar em Beja e ficou.

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ADRIANO MIRANDA

Domingues da Silva está para ali, sentado num banco corrido, com a cabeça enfiada no jornal, as ovelhas lá atrás, na vida delas. Pergunta-se-lhe pela saúde e ele não se acanha. “Dona Carolina, uma rapariga nova, boa médica”, “vem aí de 15 em 15 dias; quando é possível, de 8 em 8”. “Quando há uma coisa pior, manda para Beja.” Nunca lhe aconteceu, mas há na Trindade, aldeia “muito pequenina, muito engraçada”, quem tenha tido de ir a Évora, Setúbal ou a Lisboa.

Carolina Santos estudou medicina na República Checa. Fez a especialidade em medicina geral e familiar em Beja. Imaginava-se a trabalhar perto da mãe, que mora em Portimão, mas gostou “das pessoas, dos colegas, do trabalho”, da cidade. Ficou. Atende no centro da saúde, na cidade e nas aldeias de Trindade e Albernoa. Cruza a planície, coberta de olivais, vinhas. E nada a inquieta tanto como a solidão alheia. “Muitos estão sozinhos. Muitas vezes, só vão ao centro de saúde para falar.”

Domingues da Silva não sabe como se poderá inverter o declínio: “As pessoas, mesmo os próprios das terras, quando chegam a uma certa idade, abalam para melhorarem a vida. Uns emigraram, outras arranjam outras coisas mais que lhes dêem mais conveniência na vida. Antigamente, as propriedades tinham muita gente a trabalhar, agora já os serviços agrícolas são de outra maneira.”

Domingues lá se vai entretendo. Quando não está à volta das ovelhas, anda no olival. Era vendedor de peixe. “Foi no duro, mas tudo se passa. Criei os filhos e ajudei a criar os netos e ainda cá estou. Vamos ver. Muito tempo já não é, que isto está no fim da viagem. Vamos vendo. Uns mais velhos, outros mais novos, vão abalando e a minha vez já está preparada. Temos de ir todos pelo mesmo caminho.”

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