Polónia adquire colecção de arte que contém a Dama com Arminho, de Leonardo da Vinci

Obra-prima do pintor renascentista e uma paisagem de Rembrandt fazem parte da histórica Colecção Czartoryski, exposta no Museu Nacional de Cracóvia.

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Dama com Arminho esteve em exposição na National Gallery, em Londres, em 2011 CARL COURT/ AFP

A Polónia tornou-se esta quinta-feira proprietária da histórica e famosa Colecção Czartoryski, fundada há dois séculos, e que tem como face mais visível um dos raros retratos pintados por Leonardo da Vinci (1452-1519) que chegaram até nós, Dama com Arminho (1489-90), mas também uma pintura de Rembrandt, Paisagem com o Bom Samaritano.

A cerimónia de transacção da colecção da fundação privada Czartoryski para o Estado polaco realizou-se no Castelo Real de Varsóvia. “É com uma grande emoção que posso declarar que todos nós, cidadãos da República polaca, somos a partir de agora proprietários da Colecção Czartoryski”, disse na ocasião o ministro da Cultura, Piotr Glinski, na presença do presidente da fundação, o príncipe Adam Karol Czartoryski, e perante vários convidados.

O valor da transacção, que nos últimos dias deu origem a polémica no país, ascende a apenas 100 milhões de euros. Na última semana, os media polacos apontavam para uma soma possível de 230 milhões, mas lembravam que só a obra de Da Vinci estava segurada em 350 milhões – e falava-se mesmo em dois mil milhões de euros como valor global da colecção.

Mas Adam Karol Czartoryski desvaneceu todas as dúvidas: “Não faço mais do que concretizar os objectivos fixados pelos meus antepassados”, disse o príncipe. “Na vida, fazemos aquilo que temos de fazer; eu queria fazer uma doação, e esta é a minha escolha”, respondeu, tornando claro que a operação que nas últimas semanas fora negociada em segredo com o Governo polaco tem a fórmula mista de “venda e doação”.

As obras e propriedades que constituem o património da Colecção Czartoryski – a AFP fala em dezenas de milhares de peças – passarão agora a ser pertença do Museu Nacional de Cracóvia, onde se encontram já expostas as pinturas atrás referidas.

A Colecção foi fundada no início do século XIX, quando o príncipe polaco Adam Jerzy Czartoryski (1770-1861) comprou a pintura de Leonardo da Vinci numa viagem a Itália, tendo a sua mãe, Izabela Dorota Czartoryska (1746-1835), criado em Cracóvia, em 1801, o primeiro museu da Polónia, com o objectivo de guardar e salvaguardar a arte deste país e da Europa.

A decisão do Governo polaco – que há cerca de duas semanas obtivera uma autorização especial do Parlamento de Varsóvia para realizar a operação – fora já justificada pelo ministro Piotr Glinski: “A verba com a qual o Estado polaco irá comprar esta colecção, com as peças e as reivindicações relativas a obras desaparecidas e que eventualmente venham a ser recuperadas no futuro, não terá relação com o seu preço de mercado; será bastante inferior”, dissera o ministro à rádio pública polaca, citada pela AFP.

Mas a negociação com o príncipe Adam Karol Czartoryski não foi isenta de controvérsia. Ainda segundo a AFP, o conselho de administração da Fundação Czartoryski demitiu-se após ter tido conhecimento da decisão governamental. “O conselho não participou nas entrevistas, não teve nenhuma influência na redacção do contrato nem na definição da instituição que será criada após a aquisição pelo Tesouro público, nem sobre o preço da venda, que, tal como é referido nos media, se afasta grandemente do valor real” da colecção, disse o presidente demissionário, Marian Wolkowski-Wolski.

O Ministério da Cultura justificou a sua acção com o objectivo de "salvaguardar a manutenção da colecção na Polónia”, a pensar nas “gerações futuras”. Isso passava pela necessidade de garantir que a colecção não sairá do país, numa eventual dispersão dos seus bens por decisão dos herdeiros do príncipe Czartoryski, actualmente com 76 anos e a viver fora da Polónia.

De facto, ao longo dos últimos dois séculos, e especialmente na sequência das duas guerras mundiais do século XX, muitas peças da Colecção Czartoryski conheceram diferentes destinos – a história mais conhecida sendo a da própria Dama com Arminho, que foi roubada pelos nazis, e encontrada após o final da guerra, em 1946, num palácio na Baviera que tinha sido ocupado por um alto responsável do regime de Hitler (situação que é referida no filme realizado e protagonizado em 2014 por George Clooney, Os Caçadores de Tesouros).

Dama com Arminho, um óleo sobre madeira, eterniza a figura daquela que se crê ser Cecilia Gallerani, amante de Ludovico Sforza, duque de Milão. É um dos quatro retratos conhecidos de Da Vinci – a par da mítica Gioconda, mas também de Ginevra de Benci e da Bella Ferroniere –, e a sua história é desconhecida até ao momento em que, em 1800, foi adquirida pelo príncipe Czartoryski.

Nos últimos anos, aquele retrato de Da Vinci foi alvo de sofisticados estudos científicos que mostraram que, na sua versão original, o quadro não incluiria o arminho, que o pintor terá depois acrescentado, e que normalmente é interpretado como símbolo de poder e assinatura do duque de Milão, que continha este animal nas suas armas.

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