“A Igreja não esqueceu a masturbação, só a moralizou”

The Young Pope exibe as contradições de um Papa que sonha em ser revolucionário. Um grupo de especialistas juntou-se em Lisboa para debater a série.

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A série de Paolo Sorrentino, protagonizada por Jude Law, serviu de mote para debate em Lisboa DR

You can't always get what you want/ But if you try sometimes well you might find/ You get what you need”. Se não o sabíamos antes, os Rolling Stones ensinaram-nos há quase meio século que, se nem sempre temos o que queremos, por vezes encontramos aquilo de que precisamos. The Young Pope (em exibição no TV Séries) volta a impor a questão, numa altura em que o mundo tem um Papa popular, um Papa de que muita gente gosta. Se pensar sobre o papel do Santo Padre através do rock lhe parece herético, é porque ainda não viu a série de Paolo Sorrentino protagonizada por Jude Law (sim, o Papa – jovem, ultraconservador). Francisco é o líder de que a Igreja Católica precisa?

“Nenhum de nós sabe como é que o Papa deve ser”, começa Alexandre Honrado, professor e investigador de Ciências das Religiões na Universidade Lusófona de Humanidades, numa conversa promovida por esta instituição de ensino a propósito da série da HBO. The Young Pope confronta os espectadores com um cenário ficcional, em que o chefe de Estado do Vaticano usa a sua figura carismática para fazer regressar a ideia de uma Igreja temida, fechada, sem rosto. Uma personagem ambígua que assume uma postura beatífica com quem lhe é próximo e uma altivez teatral na relação com a Cúria.

Pelo menos em público, Lenny Belardo (eleito Pio XIII na série) é a antítese de Francisco. Isso faz com esteja errado? Não há uma fórmula que mostre como ser o melhor Papa, insiste Alexandre Honrado. Mas talvez exista uma que mostre como ser o pior: não faltam Papas na História conhecidos por ataques de fúria e métodos pouco ortodoxos. “Basta procurar na Internet uma lista com os dez piores Papas de sempre”, brinca.

“Já houve imensos Papas que se tentaram esconder das pessoas”, mas isso, defende o investigador, é um erro. O Sumo Pontífice deve estar próximo da população para a compreender. É cada vez mais importante que isso aconteça, “até porque não se deve esquecer que é [segundo as estatísticas oficias] o representante de um quinto da população mundial”.

Outra coisa frequentemente esquecida é que o Vaticano é um Estado e que o Papa é o seu representante máximo. “Falamos da única monarquia absoluta no mundo, neste momento”, lembra Alexandre Honrado. E falamos também de alguém que pode exercer uma grande influência sobre líderes políticos mundiais. “Ele tem uma voz no âmbito da comunidade internacional extremamente importante de se fazer ouvir. Não é excepção: há mais gente com essa influência. Mas não deixa de ser extraordinária”, avalia.

“O Papa não tem de ser mais um fundamentalista e extremista”, sentencia. Mas numa altura em que os nacionalismos vão ganhando terreno, a posição do Papa deve alinhar-se com a da própria Igreja: “Tem de estar preparado para responder ao fundamentalismo, mas deve saber que interpreta uma parte da população mundial que, por espiritualidade e por opção profunda, não concorda com esse tipo de extremismos”, acredita Alexandre Honrado. A personagem de Jude Law diria o oposto: as regras da Igreja Católica Apostólica Romana são estas; quem as quiser moldar, ou atenuar, ou reescrever, não é bem-vindo. Um fundamentalista, portanto. Uma inversão na crescente abertura da Santa Sé.

O director do mestrado em Ciências das Religiões da Lusófona, Henrique Pinto, entende, no entanto, que dificilmente se irá inverter caminho trilhado até aqui. “Dois mil anos de Igreja mostraram que já não muda”, afirmou na mesma conversa, que decorreu nesta quinta-feira. A tendência é mesmo a de uma maior abertura, acrescenta Alexandre Honrado: “Nenhuma religião tem futuro quando se fecha. Isso torna-a uma seita”. “[Francisco] foi um Papa que abriu as portas, não só as do Vaticano, mas as de uma Igreja que as pessoas estavam à espera que voltasse às pessoas”, diz.

Um Papa que não acredita em Deus?

Um Papa que fuma, bebe Coca-Cola Cherry Light e está pouco interessado em relações informais. É este o Pio XIII de Paolo Sorrentino (spoiler alert para o resto do parágrafo): um padre que afirma, ainda que em privado e em tom de brincadeira, que não acredita em Deus e que sonha que se dirige aos crentes da varanda da Praça de São Pedro e lhes diz que se devem masturbar mais – embora faça diametralmente o oposto.

“Enquanto exercício cinematográfico é muito bom”, considera a directora da licenciatura em Cinema da Universidade Lusófona, Inês Gil, que também marcou presença no encontro de especialistas em Lisboa. “O contraste, a utilização expressiva da luz para mostrar que personagens são pouco transparentes. A estética faz todo o sentido com o conteúdo”.

“Só um italiano teria o à-vontade para estar no Vaticano e saber exactamente até onde pode chegar”, considera Alexandre Honrado. “As próprias personagens estão muito bem caracterizadas, porque são inspiradas em pessoas que sabemos que existem e em hierarquias que às vezes desconhecemos”, avalia. Um exemplo é o sibilino cardeal Voiello, o secretário de Estado interpretado por Silvio Orlando, que vê o seu poder ser gradualmente esvaziado com a ascensão de Lenny Belardo ao poder.

No entanto, para Henrique Pinto, o conteúdo deixa algo a desejar: “Há uma tentativa de provocação, mas é vazia”. (Os restantes intervenientes concordaram, mas a unanimidade foi quebrada por duas pessoas na plateia, que tinham visto todos os episódios exibidos até agora na televisão portuguesa e que discordavam da inconsequência da sátira dramática de Sorrentino.) Henrique Pinto acredita que mostrar o homem detrás do Papa não é novidade – há muitos livros que tentam fazê-lo. “A própria figura do Papa é uma criação. Todos nós vestimos construções, tomos nós temos uma personagem pública que tem de corresponder a certas convenções. Esta é só mais uma”, sublinha.

Mais interessante, para o director do mestrado em Ciências das Religiões, seria “libertar Deus e Jesus do Vaticano”, separar o cristianismo original da instituição e dos estereótipos. “A Igreja não esqueceu a masturbação, só a moralizou. O sexo na Igreja não está reprimido, é o assunto em que mais se fala”, observa Henrique Pinto.

Texto editado por Hugo Torres