Empreendedorismo

Volta: uma oficina que é um regresso a casa

Carolina lembra-se do cheiro da oficina de marceneiro do avô. Rita cresceu numa família em que se fazia crochet, bordado, cerâmica e tecelagem. Enquanto construía carrinhos de rolamentos na rua com o pai, Gonçalo queria mesmo era ter uma oficina a sério, daquelas com as silhuetas de martelos e chaves de fendas desenhadas na parede. Hoje, essa oficina existe e é, em vários sentidos, um regresso - às memórias e a Portugal.

Rita Daniel, 30 anos, procurou cedo uma experiência de vida e de trabalho fora de Portugal: começou por São Paulo, esteve três anos em Barcelona e três em Zurique, onde trabalhou num escritório de arquitectura. A amiga Carolina Pacheco Nunes, 31, fez Erasmus na Bélgica e viveu e trabalhou em Barcelona, onde todos os dias na rua se cruzava com mais colegas da Faculdade de Belas Artes do que em Lisboa. As duas conheceram Gonçalo Almeida, 39 anos, em Barcelona. Os três estão hoje de volta a Portugal, emigrantes de uma nova geração: “Estou em contacto com muita gente e outros continuam com uma vontade gigante de voltar”, conta Gonçalo ao PÚBLICO. “E Lisboa está completamente diferente daquilo que eu conhecia há 10 ou 12 anos atrás, e vai mudar mais porque esta geração que esteve fora conheceu outras culturas e isso vem connosco na nossa bagagem”, explica.

Regressar implicava, ainda assim, um plano. Rita tinha a ideia de criar um espaço de oficina partilhada, onde se trabalhassem essencialmente técnicas manuais, semelhante a outros projectos com os quais se tinha cruzado em Zurique. A oportunidade para tornar esse espaço real apareceu quando há pouco mais de um ano e meio ela, Carolina e Gonçalo foram um dos projectos financiados pelo VEM (Valorização do Empreendedorismo Emigrante), um programa governamental que arrancou em 2015 para apoiar projectos de criação do próprio posto de trabalho, ou empresa, por parte de emigrantes com intenção de regressar a Portugal . O VOLTA, nome que já existia, ganhou novo rumo: era altura de voltar a Portugal e às origens. O financiamento a fundo perdido de 20 mil euros permitiu-lhes arrancar, na Lx Factory, em Lisboa, com a oficina criativa que idealizaram: um espaço de contacto com os trabalhos manuais, longe das novas tecnologias, da serigrafia à marcenaria, da encadernação ao têxtil. Um espaço aberto, que é possível utilizar alugando à hora, por exemplo, ou sendo membro do VOLTA e tendo acesso a condições especiais. A par disso, uma aposta na formação, através de workshops: o primeiro, a 10 de Dezembro, vai ensinar a construir um candeeiro de madeira. “Para mim, é um regresso àquilo que posso fazer com as minhas mãos”, explicou Carolina ao Público. Um retorno também aos tempos dos trabalhos nas oficinas de Belas Artes. Ou àquelas da faculdade em Gent, na Bélgica, onde reaprendeu a “transformar ideias em matéria” sem estar preocupada em responder a um exercício ou a ser avaliada para um teste. Um regresso, finalmente, à oficina do avô, que cheirava a madeira e onde se faziam móveis.

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