Portugal entre os países que mais se opõem a acolher imigrantes

Portugueses são mais tolerantes com a entrada de refugiados e menos com a dos imigrantes por motivos económicos. Resultados de estudo académico será apresentado esta quarta-feira no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

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Ao longo dos 12 anos cobertos pelo estudo, “a tendência, na maioria dos países, vai no sentido da aceitação dos refugiados” Enric Vives-Rubio

Portugal está entre os três países europeus que mais se opõem a receber imigrantes, logo a seguir à Hungria e República Checa. Ao mesmo tempo, e no sentido oposto, os portugueses defendem uma maior flexibilidade aos critérios de entrada de refugiados. Aqui a pergunta colocada às pessoas inquiridas em 20 países era: “Em que medida o Governo deve ser mais generoso a avaliar os pedidos de refugiados?”

Estes são alguns dos resultados realçados no trabalho que vai ser apresentado nesta quarta-feira no encontro “Europa, Migrações e Identidades” no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL). O estudo resulta de um inquérito feito pela primeira vez em 2002 e 2003 pela mesma equipa do programa de investigação Atitudes Sociais dos Portugueses que em 2014 e 2015 voltou a debruçar-se sobre as atitudes e percepções dos europeus relativamente aos refugiados. Cerca de 40.000 pessoas foram inquiridas no conjunto de 20 países analisados. Em Portugal, o inquérito baseou-se numa amostra representativa e aleatória de 1270 pessoas.

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Os resultados mostram que os portugueses são favoráveis a que o Governo português avalie com generosidade os pedidos dos refugiados para entrarem no país e que esteja aberto a receber os refugiados. “Os refugiados não são uma ameaça”, diz Alice Ramos, socióloga doutorada e investigadora do programa Atitudes Sociais dos Portugueses do ICS-UL. Nesta frente, Portugal está acima da média europeia e, como quase todos os outros, evoluiu no sentido de uma maior abertura.

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Refugiados e imigrantes vistos de forma diferente

O nosso país está, por outro lado, entre os que mais se destacam, juntamente com a Polónia, a República Checa, a Hungria e Espanha, ao manifestar uma maior resistência a abrir as fronteiras a muçulmanos do que a cidadãos de países pobres não europeus ou de grupos étnicos diferentes.

Ao longo dos12 anos cobertos pelo estudo, “a tendência, na maioria dos países, vai no sentido da aceitação dos refugiados”. Porém, países como a Holanda, a Bélgica, a Hungria e a República Checa, “que já manifestavam em 2002 e 2003 maior rejeição do que abertura, mantêm essa posição (…)”, lê-se na análise dos dados da autoria de Alice Ramos, Ana Louceiro e João Graça.

Primeira conclusão com o foco no nosso país: os portugueses distinguem refugiados e imigrantes de uma forma que não fazem, por exemplo, os cidadãos da Alemanha, Hungria ou República Checa.

“Os refugiados estão protegidos pela onda de simpatia, de empatia, pelas imagens que todos vemos na televisão. Os refugiados não são percepcionados como uma ameaça, ao contrário dos restantes imigrantes. Há de facto um sentimento de piedade que os protege destas atitudes de oposição. E Portugal, provavelmente, é o país que menos associa os refugiados às restantes categorias de imigrantes”, explica ainda Alice Ramos.

Emigração sem impacto

Segunda conclusão: as pessoas opõem-se à imigração porque associam os imigrantes a uma ameaça. “Acham que lhes vão tirar o trabalho, que vão sobrecarregar o sistema de segurança social, que vão contribuir para o crime. São percepções que as pessoas criam. E não é só em Portugal”, diz Alice Ramos. “A partir do momento em que começam a ver que não há tantas razões para sentir essa ameaça, começam a mudar essa percepção.”

E isso acontece apesar de Portugal ser um país de emigração. “Curiosamente isso não tem impacto. Uma coisa é o que a pessoa, os pais, ou as gerações anteriores foram fazer noutro país. Outra coisa é quando se trata de competição por recursos. Recursos económicos; recursos culturais. São duas realidades diferentes”, acrescenta.

Além disso, continua a investigadora, “os sentimentos racistas continuam a existir” e passam muito por justificar esse sentimento de ameaça, seguindo o seguinte raciocínio: “Se na verdade eles não me tiram o emprego e não contribuem mais do que outros para o crime, por que uso esta percepção de ameaça como justificação? Porque na realidade eu tenho uma crença racista e acho que as pessoas que são negras ou que são de outro grupo étnico valem menos do que os brancos. Aprendemos na escola que isto não se diz. Então o que eu vou dizer é que me oponho a eles porque eles me tiram o trabalho.”

Esta e outras análises constam deste estudo que também conclui que “a percepção que temos de ameaça serve como uma justificação para o racismo e para o preconceito racial”. Tal imagem, no contexto da sociedade, permite ao indivíduo “exprimir os seus sentimentos sem declarar que é racista ou preconceituoso relativamente a pessoas de outros grupos étnicos, de outras religiões”.

Isto é geral, garante Alice Ramos, embora reconheça que esta análise “faz muito sentido” na realidade portuguesa, já que Portugal está entre os países que manifestam maior oposição à imigração. E vem trazer uma nova luz à imagem de Portugal como “um país muito tolerante”. Os portugueses "não são mais tolerantes do que os outros", salienta a investigadora. 

"De facto as pessoas não têm problema nenhum, quer em Portugal, quer noutro país, em dizer: ‘Há pessoas que, por serem de um determinado grupo ou raça, são mais ou menos inteligentes do que outros'.” O inquérito questiona esta raciocínio e confirma, nalgumas respostas, esta convicção.