Portugal foi a Veneza dizer que já tem uma casa só para a arquitectura

A Casa da Arquitectura que Matosinhos vai inaugurar em Junho representa um investimento de seis milhões de euros. Um museu e um arquivo para acabar com a discriminação da arquitectura nas instituições culturais.

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A Casa da Arquitectura ocupa a antiga Real Vinícola, o primeiro grande edifício industrial de Matosinhos FERNANDO VELUDO/NFACTOS
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Matosinhos, a cidade onde nasceu o arquitecto Álvaro Siza, vai inaugurar a 16 de Junho do próximo ano o primeiro museu inteiramente dedicado à arquitectura em Portugal.

Esta iniciativa “visionária” da Câmara Municipal de Matosinhos, diz ao PÚBLICO Nuno Sampaio, o seu director-executivo, recebeu o nome de Casa da Arquitectura porque a instituição pretende ser mais do que um museu de arquitectura: “Além da actividade expositiva, terá uma grande vocação para tratar espólios de arquitectos de outras entidades. Há 26 instituições que têm espólios de arquitectura em Portugal e algumas, com um ou dois espólios, não os tratam porque não têm possibilidades. Outras, como o Forte de Sacavém, fazem um trabalho fantástico, mas que não é divulgado em exposições.”

Ao mesmo tempo, há também a enorme quantidade de desenhos e todo o tipo de documentos espalhados pelos ateliers que, mais cedo ou mais tarde, também terão de ter um destino. Dentro de um ano e meio, Nuno Sampaio espera ter cerca de 300 projectos tratados.

O objectivo explica o director-executivo, que veio a Veneza fazer a primeira apresentação internacional do projecto, é conseguir montar uma rede nacional de instituições ligadas pela arquitectura: “Em primeiro lugar é preciso que as pessoas nos digam o que têm e em que estado de conservação está. Depois temos de acordar com as entidades que querem tratar os documentos as condições de intervenção. O segundo grande objectivo é que tudo fique disponível on-line, em condições que podem ser mais desvantajosas para nós, se as instituições assim o quiserem, para proteger direitos.”

O director quer mesmo criar “um grande espaço expositivo que seja a mostra do arquivo”, como explicou esta sexta-feira na Universidade IUAV de Veneza, na apresentação sobrelotada (muita gente ficou à porta da Aula Magna e acabou por assistir à sessão em streaming noutra sala) que incluiu um debate entre Álvaro Siza e o reitor do IUAV Alberto Ferlenga (o arquitecto italiano Vittorio Gregotti, autor do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, cancelou a sua participação na sessão por estar doente). No final, solicitado pelos jornalistas para dizer o que espera da Casa da Arquitectura, diria apenas: "Está quase a ser inaugurada e espero que tenha uma longa vida. É claro que é muito importante."

A grande mais-valia da Casa da Arquitectura, sublinha Sampaio, é ser também um Centro Português de Arquitectura – as duas designações estão unidas por um hífen no nome da instituição, nota – e “o primeiro museu português exclusivamente de arquitectura com arquivo e espaços expositivos”.

Ambição internacional

É na antiga Real Vinícola, o primeiro grande edifício industrial de Matosinhos agora alvo de um projecto de reabilitação do arquitecto camarário Guilherme Machado Vaz, orçado em 3,2 milhões de euros, que a Casa da Arquitectura vai verdadeiramente nascer no próximo Verão, apesar de já ter iniciado a sua actividade em 2007. Nessa altura, a Câmara Municipal encomendou mesmo a Siza um ambicioso projecto, feito de raiz, que tinha um custo estimado de cerca de 40 milhões de euros e não foi realizado por impossibilidade financeira.

Só em 2017 o arquivo da Casa da Arquitectura, que já tem cerca de 25 projectos, vai poder receber os desenhos guardados até agora no Centro de Documentação Álvaro Siza, instalado num edifício que pertenceu à família do arquitecto, e no acervo da Câmara de Matosinhos, um município que sempre teve uma relação intensa com a arquitectura portuguesa desenhada a Norte. Irão aqui parar, por exemplo, os desenhos de Siza para as Piscinas das Marés e a Casa de Chá da Boa Nova, os de Alcino Soutinho para o edifício da Câmara e da Biblioteca ou os de Fernando Távora e de Siza para a Quinta da Conceição, bem como os de Eduardo de Souto de Moura para a Marginal de Matosinhos. Entre estas 25 obras construídas no concelho, encontram-se já nomes de uma terceira geração da Escola do Porto, como Nuno Brandão Costa. Serão também albergadas 500 maquetes, de estudo e finais, pertencentes a Souto Moura, em regime de depósito.

A Casa da Arquitectura também já conheceu a doação de projectos de Lisboa, como o de Paulo Mendes da Rocha e Ricardo Bak Gordon para o Museu Nacional dos Coches (Nuno Sampaio é co-autor do projecto museográfico), e numa segunda fase de actuação será objectivo “central” deste Centro Português de Arquitectura a formação de um acervo mais vasto, com uma projecção cultural relevante e abrangente. “Queremos criar uma instituição nacional de âmbito internacional”, afirma Nuno Sampaio, acrescentando ao PÚBLICO que “a arquitectura é a única área da cultura em que o Estado não está presente em nenhuma instituição de programação exclusiva”. 

Além da reabilitação, a Casa da Arquitectura fará um investimento de dois milhões de euros em equipamento e de outros 700 mil euros exclusivamente no arquivo. No primeiro ano, o director-executivo espera ter um orçamento de funcionamento e programação entre os dois milhões e os 2,5 milhões euros.

O que a Casa de Arquitectura já perdeu foi grande parte do arquivo de Álvaro Siza, doado com alguma polémica à mistura pelo mais internacional dos arquitectos portugueses ao Centro Canadiano de Arquitectura , em Montréal, embora alguns desenhos tenham ficado em Portugal à guarda das fundações Gulbenkian (projectos de Lisboa) e de Serralves (projectos do Porto).

Neste “embrião”, diz o arquitecto João Belo Rodeia, que recebeu uma encomenda da Casa para expandir o arquivo na segunda fase, é “ideal” que todos os arquivos comecem por estar interligados, o que não é especialmente difícil com os meios digitais actuais, haja quem pague o investimento. Espólios como os de Cottinelli Telmo, Nuno Teotónio Pereira ou Vítor Figueiredo, três arquitectos de Lisboa, estão actualmente no Forte de Sacavém, um arquivo de património arquitectónico e urbanístico, com uma riquíssima herança ligada aos monumentos nacionais, e que depois de muitas vicissitudes e algum desinvestimento foi integrado recentemente na Direcção-Geral do Património Arquitectónico.

“Temos de construir as condições para que o Estado possa entrar na Casa da Arquitectura. Porque esta injustiça de um Estado que não está presente na arquitectura um dia tem de acabar”, espera o director-executivo. O que promete – “e é uma preocupação muito grande” – é que a Casa não vai ser de Matosinhos, nem do Porto, “mas uma entidade nacional”.

Uma história das primeiras décadas da democracia

A primeira colecção a ser construída pela Casa da Arquitectura é dedicada aos primeiros 25 anos de democracia em Portugal e tem como comissários João Belo Rodeia, Graça Correia e Ricardo Carvalho, cuja missão é recolher “200 projectos de referência” de cerca de 100 autores. “É um panorama que abrange o período de 1974 a 1999, quando foram criadas muitas infra-estruturas e o país se equipou, e o remate é a Expo-98”, explica o arquitecto João Belo Rodeia, que já foi responsável pelo património no organismo que antecedeu a Direcção-Geral do Património Cultural e presidiu também à Ordem dos Arquitectos.

Reconhece que as obras do SAAL, que puseram os arquitectos a fazer projectos em diálogo com a população carenciada logo a seguir ao 25 de Abril, são um candidato óbvio, mas lembra que algumas coisas podem já não estar disponíveis, como os projectos de Siza.

“A primeira colecção quer começar com um período mais recente que, de alguma forma, ainda está por arquivar. Depois, pode-se começar a andar para trás no século XX.” Muitos contactos já foram feitos, embora o trabalho encomendado aos arquitectos tenha sido a criação de uma lista. “Talvez vá ultrapassar os 200 projectos, mas depois as negociações com os ateliers cabem à Casa da Arquitectura.”

A segunda colecção, também já encomendada, será dedicada à arquitectura brasileira e tem como comissários Guilherme Wisnik e Fernando Serapião. Quer juntar 70 projectos dos períodos moderno e contemporâneo.

No ano de inauguração, a Casa da Arquitectura terá um bilhete de cinco euros. Nuno Sampaio, o seu director-executivo, diz que esse é um valor “promocional” e que deverá subir em 2018, porque não quer praticar preços muito diferentes dos outros equipamentos culturais da região.

Com um primeiro fim-de-semana de festa e entrada livre, a Casa da Arquitectura abre ao público no dia seguinte com a exposição Poder Arquitectura, cujos comissários, Jorge Carvalho, Ricardo Carvalho (crítico do PÚBLICO) e Pedro Bandeira, estão também em Veneza.

Os três comissários explicam que a exposição vai ocupar as paredes da nave central da Casa, que tem 800 metros quadrados, deixando livre o espaço do meio, com 75 metros de comprimento. Uma ocupação densa que quer mostrar, numa teia de ligações, os poderes internos inerentes à própria arquitectura e os poderes externos que actuam através dela. “Qualquer porta é uma forma de nos regular, mas ela também está regulada”, dizem os arquitectos, tentando explicar o projecto nas várias escalas. 

Serão mostrados cerca de 45 projectos internacionais e nacionais, alguns inéditos ou até aqui pouco divulgados, que explicitam oito formas de poder, como o económico, o tecnológico, o mediático ou o doméstico. O último, por exemplo, dá a ver os poderes que se exercem dentro de casa, desde as relações entre quem a habita aos objectos. “A escala dos objectos que encontramos, por exemplo, no Ikea molda as nossas vidas.”

A segunda exposição, a inaugurar em finais de Setembro, trará a Matosinhos a mostra Universalistas, que esteve na Cité de la Architecture et du Patrimoine, em Paris, numa parceria da Casa com a Gulbenkian.

Notícia corrigida: Pedro Bandeira, e não Pedro Barateiro, é um dos comissários da exposição Poder Arquitectura.