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Comandos: "Desisti do Curso 127 por dignidade. Há coisas que não podemos aceitar"

O curso dos comandos no qual morreram dois instruendos em Setembro termina esta sexta-feira. Dos 67 que iniciaram a instrução, 26 desistiram. E entre estes alguns falaram ao PÚBLICO.

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Novos cursos nos comandos estão suspensos DR

Hugo Abreu era bom camarada, dedicado, uma pessoa alegre. Estava sempre a cantar e sempre pronto a ajudar. Dylan da Silva era excepcional e estava especialmente motivado para o Curso 127 dos Comandos – como todos os 67 instruendos que o iniciaram, depois de um estágio de três meses em que criaram laços de amizade. Em Dylan, porém, era como se o entusiasmo fosse mais visível. Já tinha comprado o material necessário para todas as fases do curso. Estava ali de corpo e alma.

Os dois jovens recrutas de 20 anos que morreram na prova de choque são assim lembrados por colegas que deixaram o curso pouco depois. Por medo? Não foi por medo, dizem. Foi mais por uma impossibilidade criada pelo inesperado e a brutalidade das circunstâncias, ou por pressão de pais e namoradas para que não ficassem expostos a tais perigos.

“Desisti porque fiquei mesmo em baixo, não tinha moral suficiente. Eles eram os meus melhores amigos”, diz Edgar. “Dylan da Silva era um amigo que eu não esperava perder tão cedo. E com Hugo Abreu, aconteceu uma coisa que nunca esquecerei. Nunca ninguém tinha morrido aos meus olhos.”

A prova começara ainda de noite, e prolongara-se pela manhã e tarde do fatídico dia – 4 de Setembro – até ser suspensa perante o número de instruendos que caíram na prova, sob um calor extremo. As armas queimavam, o chão escaldava.

"Ninguém me disse que ia ser difícil. Eu já sabia. Mas foi demasiado. Quem sobrevive a um calor daqueles com falta de água e muito pouca comida? Quando o Silva caiu, eu tinha caído um minuto antes dele. Vi-o só por uns momentos. Depois perdi a visão, fui levado para a enfermaria. Em nenhum momento senti medo”, conta.

“Eu estava na enfermaria, quando o Abreu estava a ser tratado. Ouvia o som estranho dele a respirar com muita dificuldade. E via os enfermeiros de volta dele. Acabei por adormecer e só acordei com a enfermeira a gritar por ajuda. Vieram os instrutores, tentaram as manobras respiratórias. Já não havia solução.”

Em circunstâncias normais, a prova de choque no Campo de Tiro de Alcochete teria durado três dias com pequenas pausas de duas ou três horas para dormirem. Mas naquele dia, os instruendos foram levados. Os que tinham feito a recruta com Hugo Abreu ou haviam aprofundado laços de amizade “desfaziam-se em lágrimas”, lembra Roberto, outro instruendo que deixou o Curso 127.

Os que, como ele, não foram hospitalizados nesse dia voltaram para o Centro dos Comandos da Carregueira. Retomaram uma rotina de exercícios técnicos, e exames médicos nos dias que seguiram. O ritmo abrandou, mas os exercícios continuaram. Seis dias depois, Dylan da Silva viria a morrer no Hospital Curry Cabral em Lisboa. No dia 30 de Setembro, o último instruendo hospitalizado teve alta.

Amanhã, sexta-feira, a cerimónia reunirá os que completaram o Curso 127, que termina sem que esteja marcado o início do próximo. Na cerimónia, espera-se que 23 instruendos recebam a boina, o diploma, o dístico, na presença de muitos dos que saíram antes do fim, e passem a Comandos. Até ao início desta semana, tinham desistido 26 e 16 foram eliminados por incapacidade ou lesão, segundo informação do Exército.

“Para mim não será difícil assistir à cerimónia. Fico feliz por quem terminou. Sair foi uma decisão minha, tenho de a assumir. É uma questão de dignidade. Há coisas que não podemos aceitar. Tenho pena por Abreu e Dylan. Acabaram por esbarrar no seu sonho”, diz Roberto, antes de um silêncio. “Eles deviam ser homenageados, mas até isso é mau, vendo a forma como morreram. Por outro lado, também é mau não lhes prestarem homenagem.”

"Falta de sentido humano"

Na cabeça o que tem são interrogações. “Há sempre violência, humilhação, mas naquela prova, houve uma anomalia, falta de bom senso e de sentido humano. Como foi possível avançar com a prova sob aquele calor? Como foi possível mais tarde ver uma socorrista tirar fotografias com o telemóvel aos meus colegas desfalecidos na enfermaria? E fazer isso a rir? Não esquecerei o sarcasmo.” Roberto refere-se a palavras de gozo de alguns comandos, que ignorando a gravidade da situação, e com Hugo Abreu às portas da morte, ainda diziam a rir que era melhor os “fraquinhos” irem para a sombra se não “ainda podiam morrer”. “Como foi isto possível? São duas mães que choram dois filhos”, diz Roberto.

Saiu do curso revoltado. A pancada, as agressões, por tudo e por nada, “porque se olha nos olhos do instrutor, ou porque não se olha nos olhos do instrutor.” Porque se cumpre demasiado ou não se cumpre o suficiente. “Porque algum superior implica connosco e a partir daí, é rebaixar, humilhar. O pior para mim não foi o esforço, foi a falta de sentido humano no curso.”

Roberto voltará no dia em que o curso seja revisto, e recupere “a verdadeira essência” dos Comandos, antes de o curso ser extinto em 1993. O curso retomou em 2002. “Mas perdeu-se a ligação da geração anterior à mais nova. Perderam-se valores essenciais”, defende, mesmo se antes de 1993, nove instruendos morreram durante ou logo após a prova de choque.

“É o inferno na terra”, diz sobre o curso, que conhece bem. “Qual o sentido que faz estarmos dias inteiros e noites completamente molhados, com frio, sem poder tirar a farda? Como foi possível naquele dia a prova prosseguir com tantos a caírem? Com alerta vermelho do calor, como é que ninguém pensou em dar mais água? Ou cancelar a prova substituindo-a por outros exercícios? Ainda me lembro de um colega cair para trás, de costas no chão, inconsciente, deixando as moscas rondarem-lhe a boca aberta. O corpo desligou.” A prova prosseguiu.

Na semana passada, cinco instrutores, o médico e o director da prova foram detidos por suspeita de vários crimes de abuso de autoridade e ofensas à integridade física que estarão na origem das duas mortes. A investigação foi conduzida por um procurador do Departamento de Investigação e Acção Criminal (DIAP).

"Houve negligência de muita gente", continua Roberto. Os que fraquejavam eram empurrados ou forçados a continuar, diz. Ele próprio parou na prova, fingindo perder os sentidos. “Eu já estava a sentir o meu corpo lento, desidratado, fiz-me desmaiado. Eu não queria cair inconsciente. Era esse o meu medo. Queria parar, sabendo o que me estava a acontecer.”

Foi levado para a tenda. “Ainda vi o Hugo Abreu, que tentavam reanimar, a vomitar. Não o vi ser agredido, mas vi que estava cheio de nódoas negras. Deve ter levado uma salva de porrada, e isso foi o que mais me revoltou. Temos um código do comando, mas poucos o praticam, ter em conta a capacidade e a dignidade das pessoas. Foi por dignidade que saí do curso. Há coisas que não podemos aceitar. Há sadismo, vinganças. Muitos recrutas choram quando sentem que não vão aguentar mais”, acrescenta. “Nem sei como em cursos anteriores ninguém, durante a prova de tiro, pegou numa arma e matou o instrutor.”

"Pediram-me para desistir"

Para Emanuel “o curso de comandos foi uma opção pessoal”, um objectivo que há muito tinha. “Por ser a melhor força de tropa especial. Estava bem fisicamente mas um dia acordei e não quis mais estar ali. Desisti por causa dos dois colegas que faleceram. Com as notícias, os meus pais e a minha namorada ficaram muito preocupados. Pediram-me para desistir.”

Gostaria de voltar. "Foi algo que sempre tive em mente. Gostava de convencer os meus pais que foi um acidente, acalmá-los e voltar. Houve um excesso, difícil de explicar", diz Emanuel.

Para Roberto, só se sai quando as chefias entendem. "Como se fôssemos prisioneiros. Temos de ficar contra a nossa vontade até eles concordarem com o nosso pedido de saída." No seu caso, saiu "por já não querer pertencer àquela família" onde as pessoas erradas estão nos lugares certos, naqueles que realmente importam. "Não quero pertencer ali apesar de ter lá bons amigos."

E ainda se lembra do tempo em que quem aspirava a ser comando dizia “pode ser duro, mas não me matam, nada de muito mau pode acontecer-me”. Deixaram de poder pensar assim. Morreram dois colegas. E muitos em outros cursos ficaram com sequelas para a vida. Roberto, Edgar e Emanuel são nomes fictícios

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