Um Régio arábico na voz de Ricardo Ribeiro

Concretizando um sonho antigo, Ricardo Ribeiro canta no São Luiz a Toada de Portalegre, de José Régio, na companhia da Orquestra Metropolitana de Lisboa e com música de Rabih Abou-Khalil.

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NUNO FERREIRA SANTOS
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Há já muitos anos que Ricardo Ribeiro alimentava o sonho de um dia cantar o poema de José Régio Toada de Portalegre. Mas era uma possibilidade que lhe parecia sempre demasiado remota e na qual lhe parecia previdente não depositar grandes esperanças. O poema fora-lhe indicado ainda bastante jovem por um professor e reintroduzido na sua vida por um amigo que insistiu que voltasse a lê-lo, em voz alta, para sentir as palavras a tomarem forma e a habitarem-lhe o corpo. “Estávamos os dois em minha casa a jantar e, enquanto conversávamos, ele voltou a dizer-me para ler a Toada”, recorda o fadista ao PÚBLICO. Assim fez. “À medida que lia aquilo ia-se entranhando cada vez mais e passou a fazer parte de mim. Creio que não há um mês em que não leia ou não recorra a um dos seus versos.” Sobretudo nas “noites escuras das dúvidas, das fraquezas, das questões mais ligadas à permanência na Terra”. Quando tudo o resto falha, confidencia, sobram-lhe as palavras de Régio. “E então devolve-me a esperança, devolve-me o acreditar que às vezes de uma pequena coisa pode vir uma grande coisa – de uma pequena semente veio a grande acácia.”

Daí que ao ser contactado pelo maestro Pedro Amaral, director artístico da Orquestra Metropolitana de Lisboa (OML), para discutirem uma futura colaboração, Ricardo Ribeiro tenha confessado “um sonho que julgava que não era possível alcançar”. Em vez de entraves, Amaral pediu-lhe o contacto de Rabih Abou-Khalil, músico libanês com quem o fadista vem colaborando regularmente há dez anos. Na verdade, Rabih já tinha consigo os versos de Régio, enviados antes pelo cantor, testando a eventualidade de musicar alguns excertos. Mas a proposta de musicar o longo poema na íntegra era todo um outro desafio. “Um desafio algo surreal”, chama-lhe o libanês. E identifica como maior preocupação, enquanto compositor de um concerto com mais de uma hora de duração – apresentado desta quinta-feira a sábado no Teatro São Luiz, em Lisboa, no âmbito das celebrações do quinto aniversário da proclamação do fado como Património Cultural Imaterial da Humanidade –, “sentir-se que é um só poema e uma só peça, e não dez canções ou dez poemas diferentes”.

A atenção à palavra

“Os mais conservadores da literatura dirão talvez que é um pecado cantar uma coisa que é para ler, tão extensa”, antecipa Ricardo Ribeiro. “Mas para mim não é. Sempre que lia a Toada de Portalegre sentia a música, só que não tinha capacidade para a encontrar.” Abou-Khalil, filho de um poeta e confessadamente mais habilitado a “ler, sentir e compreender poesia” do que a falar português, garante que lhe aconteceu como desde o início da sua relação com o fadista: assim que Ricardo lhe mostra poesia portuguesa, ouve de imediato a música na sua cabeça. Depois, procura nas palavras sons que as traduzam, como o verso em que Régio se refere à “corda com que se enforcam” os desesperados e as cordas da OML – dirigida por Jan Wierzba e com participação do percussionista Jarrod Cagwin – parece desenhar a espiral de um corpo desvalido que roda sobre si mesmo.

Essa atenção a cada palavra, nota Abou-Khalil, é “o mais importante e não ter em conta as palavras é o erro que mais compositores cometem”. No seu entender, a escrita de música para um poema equivale à música para cinema, tendo de captar o sentimento que o poema já transporta. E é o poema que Ricardo Ribeiro afirma querer valorizar com este espectáculo. “É muito pouco conhecido, com grande pena minha, e acredito que se devia redescobrir. Não me quero arvorar em bom samaritano nem achar que o José Régio precisa de mim, mas é bom que o Régio seja falado e lembrado e que a Toada de Portalegre seja ouvida por todos.”

Desde há seis meses a trabalhar “afincadamente” num projecto posto em marcha há um ano, o fadista não esconde a imensa dedicação que implica cantar uma peça de grande complexidade e em que, apesar da repetição de algumas estrofes, a música vai regressando a esses versos incorporando pequenas alterações. Esse trabalho de minúcia, muitas vezes realizado madrugada dentro e de forma solitária, fê-lo estudando as partituras da orquestra e percebendo o lugar da voz no torvelinho de notas com nítido travo arábico com que Abou-Khalil pinta o poema.

Desde a gravação do álbum Em Português (2008), a relação entre os dois continuou a aprofundar-se nos palcos e em disco, tendo Rabih assinado o arranjo para quarteto de cordas e alaúde de Fado do Alentejo, incluído em Largo da Memória, terceiro álbum da discografia adulta do fadista. As fugas de Ricardo Ribeiro ao fado têm já novos capítulos marcados com o espectáculo Fado Barroco, em Dezembro, na Gulbenkian, e na carta-branca estendida pelo Centro Cultural de Belém para Outubro de 2017, onde prevê abordar a música árabe, mediterrânica e ibérica em concerto. Por agora, antes sequer de pisar o palco do São Luiz num misto de “felicidade, nervosismo e orgulho”, o cantor manifesta-se “cheio de paz e de amor” por este poema e pelo consolo que é saber que esta música já existe e pode ser cantada. O que virá a seguir não o preocupa.

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