Opinião

O fantasma das elites

Com a vitória de Trump, regressou o discurso de crítica das elites. Quem o defende, ignora tudo de uma sociologia das elites, porque para eles as elites são apenas a estranheza, o não homogéneo.

Na sequência das eleições americanas, assistimos a um curioso discurso de denúncia das “elites”, integrado numa vulgata analítica que cumpre bem uma tarefa de cretinização de inaudita envergadura. Que elites são essas tão vagamente nomeadas? Não é possível saber, nem há nada a saber, porque este discurso tem o objectivo de uma palavra de ordem, um refrão, que nada diz de substancial, mas chama a atenção sobre quem o profere. E quem o profere, neste caso, são os porta-vozes de um filisteísmo bem conhecido que constitui também uma elite: a elite consensual dos indivíduos que se vão adaptando à temperatura ambiente (já alguém lhes chamou “indivíduos-termostato”) e captando as formas de homogeneidade. Eles mimam a estupidez do homem genérico e marginalizam uma razão crítica, essa coisa elitista. Estão bem representados nos painéis da Opinião e nos debates e comentários televisivos e radiofónicos, dos quais são animadores de eleição (a palavra “elite”, de origem francesa, incorpora a originária raiz do verbo latino eligere, escolher).

Em França são conhecidos como os panélistes, os indivíduos que circulam pelos inúmeros painéis, onde fazem de intelectuais politólogos, sociólogos e psicólogos e outros “logos”. Estes comunicadores são a elite do “agir comunicacional” contemporâneo, mas, em ocasiões como a das eleições americanas, sentem-se no dever de restituir ao Homem Médio a palavra que lhe foi confiscada. Falam muito de populismo e fizeram dele uma palavra-maná, um significante flutuante, uma “coisa”; apontam-no como um fenómeno temível do nosso tempo, mas participam convictamente e sem má consciência na lógica e nas manifestações do populismo cultural.

As elites que eles agora vieram denunciar, sabemos muito bem, sucedem-se segundo os ciclos das “vacas magras” e das “vacas gordas”. Como já alguém disse, a História é um cemitério de aristocratas. Mas eles são a elite que não quer ficar reduzida a despojos, a fósseis. Por isso, têm aquela psicologia racional muito respeitosa dos Grandes Equilíbrios.

Mas quem são afinal as elites cujo “erro” e “arrogância” eles denunciam? É difícil saber, não passa de uma classe fantasmática. Mas sabemos, isso sim, que a elite consensual que nomeia e denuncia as elites acredita nas ficções estatísticas e no equilíbrio social. É esta elite que fabricou o Homem Médio e a cultura mediana, a semi-cultura que não é elitista; e conseguiu o autêntico milagre de uma colonização pacífica que teve o resultado que podemos verificar: o gosto cultural das elites passou a confundir-se com o gosto cultural das massas.

Nas artes, esta elite consensual reclama o regresso dos neo-classicismos contra os desvarios da arte contemporânea. E, na literatura e nos livros, deleita-se com a “ficção” e a “não-ficção” de circulação universal. As elites consensuais que nomeiam e denunciam as elites que não sabemos quem são (são, no fundo, uma fantasmagoria) conseguiram expulsar do espaço público e reduzir a uma condição cada vez mais minoritária tudo o que não entra no espaço da aclamação pelo grande número. Em boa verdade, estes detentores de um discurso de crítica das elites ignoram tudo de uma sociologia das elites, nem sabem sequer a que categoria se referem. Mas, dotados de um termostato, mantêm-se à temperatura ambiente e tentam controlar as leis da termodinâmica política e cultural. São consensuais e hegemónicos, servem com gáudio os mecanismos de expulsão de tudo o que lhes é estranho. Para eles, as elites são isso: a estranheza ou apenas o não homogéneo.