Crítica

Observar comportamentos

Pynchon Park, a instalação de Dominique Gonzalez-Foerster no MAAT, é um laboratório onde se observam, de forma condescendente, comportamentos.

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Como laboratório, Pynchon Park tem a eficácia exigida; mas falta-se grandeza, exaltação
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No chão, as pessoas sentam-se ou deitam-se sobre colchões de alcatifa que replicam a forma de livros

A intervenção que inaugura o espaço central do novo edifício do MAAT, Pynchon Park da artista francesa Dominique Gonzalez-Foerster, oferece ao espectador a experiência de observar os comportamentos dos outros visitantes, antes de ele próprio ser observado. Eis a sua principal proposta, em consonância com a programação do museu, intitulada Utopia/Distopia. Somos espectadores e, se dispostos a entrar no jogo, seres humanos observados de um ponto distante e cimeiro.

Dominique Gonzalez-Foerster (1965, Estarburgo) é alguém que encontra na sua obra mais afinidades com o teatro ou com a arquitectura do que com a fabricação de pinturas e esculturas. Interessa-se pela possibilidade de interacção que os seus projectos permitem aos visitantes, espera que o seu trabalho proporcione outro tipo de envolvimento, que não a mera recepção e percepção de objectos. O movimento, a composição de ambientes, a experiência do espaço circundante tem vindo a estruturar a sua arte, na qual as obras site-specific têm um lugar central. Resumindo, Dominique Gonzalez-Foerster lida na sua produção, de um modo consciente e recorrente, com a efemeridade, a evanescência da arte, interrogando a necessidade da sua durabilidade, da sua materialização.

É o que volta a fazer, inspirada em Thomas Pynchon, ocupando, até 20 de Março, a galeria oval do MAAT, com escultura, som, luz e a performance dos visitantes. Quem entra nesse espaço, depara de imediato com um recinto que observará de cima, colocando-se ora na posição de espectador, ora na posição de vigilante (mais do que de voyeur). Posição cujo incómodo se tornará mais intenso à medida que os minutos vão passando. Resta, então, descer. Em baixo, o parque abre-se a quem chega e o quer experimentar, respeitando os protocolos. O número limite de visitantes é limitado e as portas abrem-se e fecham-se ao fim de um período definido, para que a interacção se faça sem grandes constrangimentos. A confusão provocada pelas multidões não faz parte da experiência, deve ser evitada.

No chão, as pessoas sentam-se ou deitam-se sobre colchões de alcatifa que replicam a forma de livros e muitas são as que não resistem a alongar os músculos com as inúmeras e coloridas bolas de “pilates” que a artista deixou no recinto. Divertem-se, exercitam o corpo como se estivessem num ginásio, parecem alheadas, sob o som das ondas (que sai das colunas) dos olhares indiscretos, não se perturbam com a rede que, sobre as suas cabeças, as prende no espaço, nem com a luz que segue os seus movimentos. Mas ao fim de 14 minutos, o dia vai cedendo à noite. A imagem do sol projectado numa das paredes da galeria transforma-se na da lua, a escuridão repousa sobre o recinto, engolindo as cores. E os visitantes relaxam, debaixo da presença mais intensa do foco de luz. São vistos, olhados, como se estivessem num palco e, ao mesmo tempo, capturados nos seus movimentos. Já não se divertem como minutos antes, parecem conversar, descansam, esperam pelo dia ou pela saída. Como laboratório, Pynchon Park tem a eficácia exigida. Dominique Gonzalez-Foerster põe-nos a observar o comportamento das pessoas, as suas reacções aos objectos, o modo como se sentam ou se levantam, os seus gestos, as suas reacções. Faz do lazer uma experiência artística, volta, na tradição de outros artistas, a trazer a vida (no seu sentido mais biológico/psicológico) para o espaço da arte. Mas é exactamente nesse sentido que a sua proposta desaponta. Não há qualquer grandeza, exaltação ou permanência no que vemos. A sua significância tornou-se reduzida (qualquer um de nós pode replicar este exercício no quotidiano), a sua pertinência crítica revela-se reduzida, limitada. Se a vida se transformou, finalmente, em arte e esta numa encenação do lazer, então qual será hoje a finalidade da arte? Ainda terá alguma? Que significado ainda pode dar, ainda ousar dar às nossas acções, à história, ao mundo? O que nos permite ela recordar? Pynchon Park coloca-nos estas questões, mas a julgar pela sua condescendência, coloca-as de modo involuntário.