Decadência e selvas futuristas na paisagem do Semibreve

Kara-Lis Coverdale e Kaitlyn Aurelia Smith passam pelo Semibreve confirmando o quanto a música electrónica e a vanguarda da composição são cada vez mais íntimas. Coverdale apresenta-se depois na ZDB.

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Kara-Lis Coverdale

Uma rosa largada em cima de uma mesa. Uma aranha a tecer a sua teia numa masmorra. São dois exemplos a que Kara-Lis Coverdale recorre para tentar provar que a beleza está por todo o lado e depende apenas do sítio de onde se olha. A música canadiana teve de convencer-se dessa qualidade elástica do que é belo quando o adjectivo começou a surgir com frequência para descrever a sua música. “Comecei por ficar um pouco confusa e bastante desconfiada”, comenta com o Ípsilon. Kara-Lis, que nunca colocara a procura pela beleza no topo da sua hierarquia de valores na composição, viu-se, de repente, cercada por essa ideia involuntária.

“Agora já não me queixo”, ri-se. Mesmo reconhecendo que a sua natureza lhe manda evadir-se de qualquer gaiola em que a tentem enfiar e que “o primeiro ponto da ordem de trabalhos da música experimental é subverter o protocolo”, Coverdale sabe-se também assombrada pela formação musical e não ignora que aquilo que a atrai está ancorado em estruturais tonais e num desenho harmónico e melódico devedor dos muitos anos que passou a dirigir coros e a tocar órgãos em igrejas estónias. E a Estónia é aqui essencial não apenas pela sua linhagem familiar e pela forte comunidade no Canadá – “passava os Verões em campos de férias que ensinam a ser-se estónio [risos], a aprender uma forma de vida comunal e intimamente ligada a música, dança e gastronomia” – mas também pela referência basilar que encontrava na figura do compositor Arvo Pärt. “Na universidade, sempre que tinha uma oportunidade escrevia ensaios a dissecar a obra dele”, lembra. “A estrutura da sua música agrada-me muito pela amplitude e pela ideia de poder ter menos e ainda assim preencher totalmente.”

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Kara-Lis Coverdale e Kaitlyn Aurelia Smith: duas figuras fundamentais da programação do Semibreve

Há todo um trabalho de desbaste audível nos seus álbuns Aftertouches e Sirens que Kara-Lis descreve como um processo em que coloca objectos dentro de uma caixa, depois olha-os com todo o cuidado e retira-os um a um, percebendo como pode aperfeiçoar a música reduzindo-a à quantidade mínima de elementos. Esses elementos revelam-se depois na forma como quatro ou cinco camadas de sons comunicam entre si e em contraponto, mesmo que essa comunicação possa, por vezes, ser perturbada por um ruído gerido com pinças. “Acho o ruído muito inspirador”, reforça. “Talvez não na forma de utopia tecnológica, mas na maneira como muitas coisas na natureza são orientadas pelo ruído. O ruído pode descrever as nossas envolvências naturais e as nossas culturas.” Por muito que a possa agastar, a verdade é que Coverdale trata tudo isto com uma sumptuosa capacidade de criar beleza.

Kaitlyn Aurelia Smith, outra das figuras fundamentais da sexta edição do Semibreve – a decorrer em Braga entre 28 e 30 de Outubro, tocando Kara-Lis ainda na ZdB, Lisboa, no dia 31 –, é também tocada pela natureza no seu processo de composição, ainda que eleja como influência primária não o ruído, mas o silêncio. Tanto Smith como Coverdale são apontadas, com justiça, como duas das mais inspiradas experimentadoras de uma composição claramente herdeira de técnicas, estruturas e pensamento da música escrita, aplicada a um mundo de possibilidades tecnológicas que lhes permite inventar uma espécie de música de câmara assente em recursos da electrónica.

Criada na ilha Orcas, um paraíso natural no estado de Washington, Kaitlyn trará consigo o álbum Ears, lançado já este ano. Composto como tentativa de “criar a sensação de que viajamos por uma selva futurista”, descreve Aurelia Smith ao Ípsilon, Ears é fortemente inspirado pelo filme de Hayao Miyazaki Nausicaä do Vale do Vento – “tem selvas futuristas muito interessantes, a maioria das plantas e o ar são venenosos e há uma personagem que tenta preservar as poucas formas de vida que não o são” - e é o primeiro disco em que adiciona instrumentos tradicionais ao sintetizador modular Buchla Music Easel que, há cinco anos, revolucionou o seu percurso musical.

Depois de estudar composição de engenharia de som na Berklee College of Music, Kaitlyn havia de dedicar-se ao projecto indie folk Ever Isles, mas a partir do dia em que, ao voltar para Orcas depois da faculdade, um amigo lhe emprestou um Buchla toda a sua perspectiva sobre a música que fazia se alterou de forma radical. “Antes de ter encontrado este sintetizador”, confessa, “nunca senti que tivesse encontrado a minha expressão, a minha verdadeira voz. Com o Buchla foi a primeira vez que encontrei um instrumento que me compreendia e que eu compreendia.” Até então, compunha sobretudo para instrumentos orquestrais, por falta de ter descoberto um veículo para os sons que ouvia na sua cabeça e não sabia como reproduzir para o mundo exterior. Tudo foi acelerado pelo momento em que ao ajudar o amigo a montar o seu estúdio confessou a sua admiração por Terry Riley – compositor pioneiro no uso da electrónica, que descobrira anos antes na fonoteca da Berklee. “Quando tropecei na peça A Rainbow in Curved Air, do Terry Riley, e Music for 18 Musicians, do Steve Reich – que nem é bem electrónica –, fiquei doida com aquilo.”

Música com ideias

Antes da aclamação de Ears, o primeiro momento de afirmação de Kaitlyn Aurelia Smith dar-se-ia com Euclid, álbum em que explorava pela primeira vez o som da Buchla como ferramenta para a criação de ambientes sonoros em três dimensões, mas também compostos como banda sonora para vídeos de ginástica indiana, dinossauros, esquimós ou vida subaquática encontrados no YouTube. A esse modelo de trabalho Kaitlyn juntava uma pouco usual inspiração na música para mbira (instrumento africano, também conhecido como likembe e popularizado pelos Konono Nº1), cujas sobreposições melódicas, a que se juntam as vozes, desembocam num estado de alucinação que quis enxertar na sua música – tanto na forma como pensa as vocalizações como na transcendência das dissonâncias.

Faz tudo parte da necessidade de edificar uma “determinada linguagem visual, que pode ser formas, texturas ou cores”, fornecedora de uma série de balizas para que a música de Aurelia Smith circule. Kara-Lis Coverdale, que em Braga actuará em parceria com o artista visual MFO, também ateia sempre fortes rastilhos conceptuais para construir cada conjunto de composições desde que Tim Hecker lhe mostrou o caminho a seguir. Em Sirens, disco em duo com LXV, as composições desenvolvem-se em torno da ligação entre sedução e violência; com MFO, dedica-se a explorar “os contrastes entre o nascimento da vida e a decadência”. “É-me difícil escapar a conceitos porque há sempre alguma coisa a inspirar a composição”, reconhece. “Embora ache que hoje em dia há demasiada conversa sobre arte conceptual e já me soa um bocado estafado. Mesmo que tenha fundações conceptuais, prefiro que a música esteja no primeiro plano.”

Desde que percebeu a sua crescente “resistência ao cânone e à ideia do que é uma grande obra, daquilo que se deve ou não fazer” e ao concluir que “as ferramentas habitualmente usadas para compor são extremamente conservadoras”, o objectivo de Kara-Lis Coverdale passou a ser fazer música que nunca alguém tivesse ouvido antes, mais preocupada que está em olhar para si do que em escapar de si própria. O crescimento passa por aí e por não se apegar demasiado ao passado. Um amigo costuma dizer-lhe que, tal como Bob Dylan, também ela tem de tocar os seus (muito relativos) hits em concerto. Só que Kara-Lis sabe bem como Dylan não é particularmente respeitador do seu cancioneiro. “Há uns anos vi-o em concerto e toda a gente se perguntava o que era aquilo. Uma sala enorme, esgotada, e ele a tocar num velho teclado Casio.”