Editorial

Fixe esta sigla: CETA

Este é o nome do tratado comercial entre a União Europeia e o Canadá, mas também parece ser a designação do próximo falhanço da Comissão Juncker.

O CETA seria o primeiro tratado assinado entre a União e um parceiro do G7. A negociação demorou muitos meses e a assinatura deveria simbolizar uma nova abertura das empresas e consumidores europeus ao mercado global, mas o processo foi recheado de más decisões e reflectiu os piores hábitos da política europeia. Com a assinatura suspensa da vontade de um único líder regional, os textos sobre o tratado tomaram a forma condicional.

Por que é que o falhanço do CETA é preocupante? Por três razões:

Porque reforça a fraqueza de Jean-Claude Juncker, o presidente da Comissão que em Julho decidiu que este acordo seria validado pelos Estados-membros. Ao fazê-lo, pôs-se a jeito para que os interesses locais se sobrepusessem aos objectivos europeus, e foi exactamente o que aconteceu.

Porque ninguém acredita que a preocupação com os europeus venha de um socialista valão que até agora se tem empenhado em reforçar traços populistas, recorrendo ao habitual vício político de culpar os líderes de Bruxelas por tudo o que acontece de mau e de reclamar elogios próprios por tudo o que acontece de bom.

Porque agora ficam também em suspenso as negociações do TTIP, o importante tratado entre os Estados Unidos e a UE, que já era bastante mais polémico que este e que se arrisca a nunca ser fechado – a Comissão tinha prometido fechar as negociações até ao final de 2015, mas falhou os prazos e agora terá de lidar com um novo inquilino na Casa Branca – que até pode ser muito hostil a este acordo.

A União arrisca deixar de ser um parceiro credível, com quem vale a pena negociar. Porque aparentemente qualquer pequeno interesse local impede a conclusão de negociações que demoram anos a concluir e porque os interesses conjunturais dominam as opções políticas.

Tudo isto ajuda a que o mandato de Juncker seja tudo menos brilhante. O luxemburguês preside à UE no momento em que esta lida com a mais grave crise migratória da sua história e é unanimemente condenada pela inércia, leva em simultâneo com o inusitado processo "Brexit" e perde um membro fundamental, estando agora enfiado num processo negocial desastroso.

A Comissão está a fazer o pleno: derrota interna, derrota externa e derrota processual. Em contraponto, tem muito pouco de bom para mostrar e essa é a principal razão pela qual vale a pena recordar a sigla CETA. Ela promete ser o sinal mais visível de uma crise profunda que a Europa não pode viver.