Entrevista

Álvaro Parente: "Combinar o campeonato GT e o de protótipos seria interessante"

Vencedor do campeonato americano de GT, o piloto português garante que está tudo em aberto para 2017. E assume que o Nascar não o atrai.

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Hugo Santos

Aos 32 anos, Álvaro Parente juntou um importante troféu a um currículo construído à base de diferentes desafios automobilísticos. Depois de ter levado a McLaren (e a K-Pax Racing) à vitória na competição de carros de Gran Turismo nos EUA, o piloto português encara 2017 com expectativa. Aberto a novas propostas, manifestou, em conversa com o PÚBLICO, no Porto, a vontade de continuar a estar "envolvido com uma marca".

Venceu há uma semana o campeonato norte-americano de carros GT, o Pirelli World Challenge. Em Março, quando disputou a primeira prova, imaginava que seria possível ganhar no ano de estreia?
Ganhar logo na primeira vez, frente a uma concorrência tão forte com a Cadillac, que tinha dominado o campeonato nos últimos anos, a Porsche, com Patrick Long, e outros pilotos da Nissan, que também eram fortes, foi excelente. Este foi o primeiro ano nos Estados Unidos e apenas tinha feito uma corrida em Laguna Seca, no A1 Grand Prix, há 10 anos. O Pirelli World Challenge era um campeonato novo para mim, mas muito especial e importante para a McLaren GT. Os Estados Unidos são um mercado forte para a marca e a equipa investiu bem.

A sua equipa, a K-Pax Racing, não era apontada como favorita…
Não éramos favoritos, mas percebi logo no primeiro treino que o carro era competitivo e que tínhamos hipóteses de lutar pelo título.

Duas horas antes de começar a última corrida, que era decisiva para a atribuição do título, a organização do campeonato retirou-lhe sete pontos, que alegadamente lhe teriam sido erradamente atribuídos numa corrida disputada em Maio. O que se passou? Estranhou esta decisão?
Fui informado na manhã da corrida dessa decisão. A equipa concorrente fez a reclamação depois desse tempo todo. É estranho, mas pelos vistos tinham isso na manga. Quando um piloto faz a volta mais rápida na primeira corrida, arranca no primeiro lugar na segunda e recebe sete pontos... Nessa corrida, eu fiz o segundo tempo, mas o piloto que fez o melhor tempo teve um acidente e não participou na seguinte. Como eu subi um lugar na grelha, atribuíram-me os sete pontos. Reclamaram por isso e a organização, de um momento para o outro, tanto tempo depois, tomou esta decisão. É um bocado estranho, mas aconteceu e tive que lidar com essa má notícia na manhã da corrida.

A perda desses sete pontos alterou por completo a sua estratégia para a corrida e obrigava-o a terminar à frente do Patrick Long.
Sim, sem a retirada desses pontos, se ele ficasse em segundo e eu em terceiro, era eu o campeão. Com essa decisão, teria obrigatoriamente que terminar à frente do Patrick Long. Foi duro.

Cada corrida tem 50 minutos e tudo foi decidido na última volta. Como foi essa parte final em que conseguiu ultrapassar o Patrick Long?
Na quarta curva da última volta, o piloto que ia em primeiro lugar cometeu um erro e o Patrick Long tentou aproveitar-se disso, mas acabaram por envolver-se num acidente e eu ultrapassei-o. Tive a estrelinha que faltou em corridas anteriores. No entanto, o arranque da corrida, em que subi do sexto para o terceiro lugar, foi crucial.

No início do ano já tinha vencido a emblemática corrida das 12 horas de Bathurst, a primeira prova da época do Intercontinental GT Challenge. 2016 foi um ano perfeito?
Não foi perfeito porque faltou ganhar na Europa o Blancpain Sprint Series, um campeonato de cinco corridas. Mas foi, sem dúvida, um ano muito bom.

O que é que se segue? Já há algo definido para 2017?
Ainda não há nada definido. Gosto de desafios novos, mas tudo será decidido mais em cima da hora, talvez em Janeiro. Dependerá do que as equipas clientes, que pagam pelos serviços, quiserem fazer. A McLaren tem-me colocado nos campeonatos que são mais importantes para eles.

Não é garantido que defenda o título no Pirelli World Challenge.
Não. Ainda não sei o que vai acontecer. A equipa está contente com o carro e com o serviço que demos, mas 2017 será outro ano e toda a gente quer ganhar mais corridas. Está tudo em aberto.

Fez neste mês 32 anos. A Fórmula 1 já é um capítulo encerrado?
Sim, sem dúvida. Já passou. Se me propusessem um contrato, estaria preparado a 100% para entrar no carro, mas já não penso nisso. Penso apenas em continuar a minha carreira profissional e em ganhar corridas, como tenho feito nos últimos anos. Gosto destes desafios de desenvolver um carro, de estar envolvido com uma marca. É isso que tem acontecido na McLaren GT.

O contrato com a McLaren GT termina em 2017. Gostava de prolongar o vínculo com a marca?
Como disse antes, está tudo em aberto. Estou preparado para ouvir outras propostas, mas quero continuar ligado a um construtor. Estou contente onde estou, tenho feito um bom trabalho e tenho vencido corridas. O que mais se pode querer? Mas estou disponível para ouvir propostas novas e tive contactos engraçados nos Estados Unidos. Se conseguir combinar o campeonato GT e o de protótipos, seria uma opção interessante.

Após esta boa experiência nos Estados Unidos não coloca a hipótese de, por exemplo, entrar num campeonato como o Nascar?
São corridas interessantes, mas completamente diferentes. Não me atrai muito, apesar de ser necessária muita estratégia e apesar de os carros serem engraçados de guiar. Mas não foi para isso que me preparei ao longo da carreira. Não penso nisso, apesar de ser um mundo enorme que envolve grandes patrocinadores e muito dinheiro.