Um ballet sem histórias e desconfiado da emoção

Quinze Bailarinos e Tempo Incerto marca o regresso à dança, passados 40 anos, do artista plástico João Penalva. A coreografia para a CNB é da autoria de Rui Lopes Graça.

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Quinze Bailarinos e Tempo Incerto Bruno Simão
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João Penalva Rui Gaudêncio
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João Penalva fez parte do corpo de bailarinos inaugural da companhia de dança de Pina Bausch, em 1973. Não demorou a perceber que não ficaria ali por muito tempo e quando, passados dois anos, se juntou a Gerhard Bohner, já duvidava de que o seu futuro se faria em cima de um palco. Os primeiros sinais de mudança tinham surgido com Bausch, quando a coreógrafa alemã procurava ainda um método de criação e a falta de entusiasmo de Penalva o levou a investir noutros interesses. “Estando na Alemanha, nos anos 70, com museus fantásticos, era aí que passava todos os meus dias livres”, recorda. “E quantos mais museus via, mais pensava que era aquilo que queria fazer.”

Em 1976, João Penalva mudara-se já para Londres – onde ainda hoje vive – a fim de estudar artes plásticas, fazendo um corte radical com a dança. E por lá continuaria, sem qualquer interesse particular em regressar a este meio, não fosse a directora da Companhia Nacional de Bailado, Luísa Taveira, tê-lo desafiado, passados 40 anos, a criar a peça que ocupará o Teatro Camões (Lisboa) até 23 de Outubro. Primeiro, Penalva convenceu-se que, sendo um artista plástico, estaria a ser convidado para tratar de cenário e figurinos. Mas a ideia era mesmo que fosse o responsável pelo conceito da coreografia, a ser trabalhada por Rui Lopes Graça.

“Acho que o convite partiu da ideia de que sou um artista plástico que trabalha com narrativa, mas a verdade é que não tinha interesse em trazer uma narrativa para a dança”, explica João Penalva. “Nunca me pareceu que a dança fosse um bom veículo para contar uma história.” O artista plástico chegou a recear que Lopes Graça pudesse reagir mal à sua proposta de que enveredassem por um “ballet branco”, sem narrativa, abstracto e ancorado apenas numa “linha de tempo dividida em secções”.

Só que o coreógrafo entusiasmou-se e apercebeu-se que, sem se ter dado conta, tinha-se afastado da sua própria exploração da composição mais abstracta que marcara os seus primeiros anos de criação. “Não me apercebi que estava a fazer outra coisa, mais narrativa”, reflecte agora. “Com o João voltei àquilo que me sai naturalmente, um movimento muito orgânico, que sugere algo e logo se transforma noutra coisa. Interessa-me esse movimento que obriga o espectador a ser muito participativo.” Afastada foi também qualquer tentação de trabalhar ume peça ancorada na emoção.

João Penalva chama à coreografia de Rui Lopes Graça “uma espécie de renda de bilros, em que é muito difícil ver tudo, tem de se tomar opções”. Com o conjunto dos bailarinos trajando um branco evocador do ballet sem história, a verdade é que o artista plástico armadilha o olhar do espectador ao colocar um elemento de contraponto, vestido de amarelo. É uma subtileza que o próprio define como “um falso solista: não faz nada de mais interessante ou de mais difícil, não é diferente dos outros, apenas está de amarelo”. Se o recado pode remeter para a facilidade com que o olhar é manipulado e para a atenção dada à diferença, é provocador também na conclusão inevitável de que nada de especial se passa com “o amarelo”. O que vemos, sempre, é o colectivo. O resto são perspectivas.

A narrativa na banda sonora

Em Quinze Bailarinos e Tempo Incerto ouvimos, às tantas, Gertrude Stein a recitar o seu poema If I told him, a completed portrait of Picasso. Na verdade, aquilo que ouvimos é o ritmo da voz de Stein, depois de João Penalva ter pedido a um músico a transcrição do ritmo da voz para linguagem musical. É um dos materiais com que abasteceu o compositor David Cunningham, “coisas muito cinemáticas” (sons de trovoada, sinos de igreja...) e que contribuem para a banda sonora, fornecedora da única narrativa admitida. “A música serve como elemento em que a memória das pessoas se possa ancorar ou criar uma história”, diz o coreógrafo. Mas no limite, acrescenta, “um corpo é sempre narrativo – basta pedir a um bailarino para entrar no palco e já há um universo inteiro naquele momento, naquela pessoa”.