Propostas contra a “lei da selva” que alimenta o turismo lisboeta

Livro reúne propostas de combate à gentrificação e à “claustrofobia” provocadas pelo turismo “desregrado” em Lisboa. Com foco na Mouraria, ouviram-se os moradores.

A Mouraria é um dos locais que "ainda têm um carácter local especial"
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A Mouraria é um dos locais que "ainda têm um carácter local especial" PATRÍCIA MARTINS

Integrar os habitantes das cidades com quem as visita; criar propostas para tornar o turismo menos invasivo; incentivar a iniciativa nas comunidades para que concretizem as suas ideias. Estes foram os desafios lançados durante a masterclass City making & tourism gentrification organizada pela Academia Cidadã, em Abril. As soluções saídas desta masterclass foram agora reunidas num booklet com o mesmo nome, a apresentar no próximo dia 16 de Outubro.

“Mais do que reflectir sobre os efeitos do turismo, queríamos apresentar soluções”, explicou ao PÚBLICO Leonor Duarte, psicóloga membro da Academia Cidadã e coordenadora da masterclass. Durante uma semana, reuniram-se em Lisboa 15 especialistas de planeamento urbano vindos de áreas como a arquitectura, sociologia, geografia, design e antropologia.

Ao todo há seis propostas que se servem do bairro da Mouraria como exemplo – “porque Alfama, a Alfamalândia que se criou, já quase não tem por onde se pegar”, comentou Leonor Duarte. As soluções vão desde “propostas muito simples, que a junta poderia integrar, até uma visão sistémica” que pede a intervenção camarária. O objectivo principal é, de dentro para fora das comunidades, combater “o que de mau vem com o turismo”.

Na verdade, Leonor Duarte considera que “o problema não está no turismo, mas na lei da selva, nesta actividade desregrada, nesta despreocupação com o facto do mercado mandar em tudo”. Um cenário que resulta “na perda de qualidade de vida dos cidadãos”, observa.

Nos últimos anos, a subida das rendas nos bairros históricos de Lisboa tem chegado aos 20% e 30%, observa Luís Mendes, investigador no Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa, que assina um texto no booklet. Neste cenário, à medida que moradores mais antigos são forçados a procurar casas na periferia por não conseguirem acompanhar a subida das rendas no centro, o arrendamento não declarado tem permitido aos investidores obter retornos na casa dos 20 e 25%, concluiu o geógrafo.

O que se traduz, não só no aumento do custo de vida no centro da cidade – para “preços de turista”, como se refere Leonor, mas também na saída da população para a periferia. Entre 2015 e 2016, Lisboa subiu 11 lugares no ranking global das cidades mais caras (Mercer’s Global Ranking of Most Expensive Cities), à medida que o número de eleitores inscritos no centro histórico diminuiu mais de 27%.

Neste cenário, a Mouraria é um dos locais que “ainda tem um carácter local especial”, porque ainda não vive a “claustrofobia” que atinge outros locais do centro histórico, entende Leonor. Na base destas propostas está a participação cidadã: “Queremos fazer planeamento urbano e fazê-lo falando com os cidadãos”. Estreitar relações de vizinhança é a base para que o modelo funcione. Partindo do pressuposto que se os vizinhos conhecerem, estará meio caminho andado para que se aceitem, comuniquem e se formem ideias que beneficiem a comunidade.

Taxi Tuk-tuk

“E se não fossem só os turistas, mas também residentes locais mais velhos a puder apanhar o tuk-tuk para ir à mercearia, à igreja, ao médico ou para chegar à estação de autocarro mais próxima?” – a proposta é apresentada com este exemplo, mas os investigadores esclarecem: Porque não criar um serviço de Tuk-tuk para os moradores, com preço ajustado às suas necessidades? Ou seja, o serviço turístico não se altera, mas pode surgiu um serviço paralelo para transporte local. 2 minutos por 1,65 euros, sugerem.

Biografia do bairro

Um recepcionista brasileiro de um hostel. Um barman paquistanês de um restaurante asiático. Apesar do que os separa culturalmente, os investigadores encontraram o que une estes dois emigrantes àquela lisboeta que sempre morou na Mouraria ou ao estudante do interior que veio para a capital estudar. “Todos eles gostam da vida deles aqui – sentem-se em casa na Mouraria”, lê-se no booklet.

As suas histórias e as suas memórias são certamente diferentes, mas havendo um local a uni-los, porque não guardar as suas experiências e construir a biblioteca do bairro, com mil e uma histórias da Mouraria? Os investigadores recolheram informações pessoais de vários moradores e turistas e inquiriu-os sobre o futuro do bairro. Todos reconheceram que é necessária uma “transformação urbana para não destruir este tesouro de Lisboa.” Este modelo de “biblioteca viva” soma, assim, o útil ao agradável: permite ter uma biografia dos moradores e de muitos que passam no bairro e descobrir as opiniões e sugestões que trazem consigo.

Lembrar as ruas e dar-lhes nova vida

A vizinhança precisa de “espaços de interacção”, como lhes chamaram os investigadores, para que “vivam” o bairro e este não seja apenas um local para dormir. Sejam espaços privados que possam dar azo à partilha, sejam locais públicos, desde as ruas e espaços verdes aos parques de estacionamento. Aqui, podem remover-se as barreiras – as físicas que tantas vezes criam as sociais. Trata-se de fazer “micro alterações” nos espaços esquecidos ou inutilizados de forma a captar a atenção das pessoas para o potencial e as novas funções que estes podem ter.

Como? Com um escorrega no corrimão de uma longa escadaria, através de criação de espaços exclusivamente pedonais ou na utilização de arte urbana nas ruas mais recônditas, são alguns dos exemplos.

Encher as casas vazias

Face à falta de apartamentos para alugar e comprar na Mouraria, ocupadas a tempo inteiro pelos turistas ocasionais, os investigadores propõe uma “reviravolta na cadeia imobiliária” de forma a contrariar a saída de moradores permanentes do bairro. Para quem procura residência para longas estadias ou para negócios, porque não proporcionar oportunidades de co-investimento de casas vazias da Mouraria?

A ideia pressupõe o investimento conjunto de pessoas com interesses semelhantes, desde famílias jovens, trabalhadores, empreendedores, freelancers. Os investigadores propõem a criação de uma agência sem fins lucrativos que ponha em contacto estes investigadores, seja intermediária, salvaguardando os seus interesses, ajude na gestão e forneça know-how sobre o mercado.

Mouraria em rede

Ideias há muitas, eles bem sabem. Ao percorrer a Mouraria, os investigadores deparam-se com muito “boas ideias” acompanhadas por uma boa dose de falta de dinamismo. Sugestões, projectos, soluções que ficaram na gaveta à espera que algo acontecesse – ou viesse numa manhã de nevoeiro como D. Sebastião. Foi a lenda do rei português e a espera do seu povo que inspiraram os investigadores a propor a criação de uma plataforma online de empoderamento local. Ou seja, um local que conecte as pessoas da Mouraria, as suas ideias, necessidades e ofertas: a página comunitária no Facebook, chamada Namouraria.

Útil para aquela associação que procura um local para realizar um evento ou aquele grupo de dança que procura um espaço para ensaiar. Ou para aquele café que quer partilhar um evento.

Prestar contas aos moradores

Apoiam a utilização de um Urban Wheel Canvas (um esquema circular de organização de um determinado local, neste caso relativo a planeamento), que permita mapear todos os stakeholders, recursos, oportunidades e desafios para que os actores envolvidos os conheçam. “[O Urben Wheel Canvas] cria uma rede que organiza a colaboração necessária entre todas as entidades da Mouraria ou em qualquer determinado território”, lê-se. O objectivo é permitir a transparência e prestar contas aos moradores.