“Um alerta contra a indiferença, um alerta pela liberdade”

Uma distinção bicéfala num continente em convulsão: duas figuras universais unidas pela Europa, o ensaísta Eduardo Lourenço e o cartoonista Plantu, receberam o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva na Gulbenkian.

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Eduardo Lourenço e o cartoonista Plantu esta segunda-feira na Fundação Gulbenkian Miguel Manso

Pela primeira vez desde que foi criado, em 2013, o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva distinguiu ex-aequo duas personalidades, um português e um francês, ligados pela sua relação apaixonada e crítica com a Europa e ambos universais. Depois dos escritores Claudio Magris (italiano, em 2013) e Orhan Pamuk (turco, em 2014), ou do músico e maestro catalão Jordi Savall (2015), foi agora a vez do professor e ensaísta Eduardo Lourenço e do cartoonista Jean Plantureux, do Le Monde, conhecido por Plantu.

Mas não foi por eles que a sessão na Fundação Gulbenkian começou, no final da tarde de segunda-feira. Foi por outros dois prémios, distinguindo duas acções exemplares na recuperação do património cultural: a reabilitação da Catedral e Museu Diocesano de Santarém e o projecto de desenvolvimento sustentável do Planalto da Mourela no Parque Nacional da Peneda-Gerês, apresentados respectivamente por Eva Raquel Neves e Rita Ferreiro perante um auditório 3 cheio. Antes, o presidente da Gulbenkian, Artur Santos Silva, lembrando o papel da Fundação no estudo, restauro e conservação do património, anunciou para 2019 o 1.º catálogo raisonné digital neste âmbito, dizendo: “Sem património não há memória e sem memória não há identidade.” E sem estes não haveria o prémio seguinte, que levaria ainda Artur Santos Silva a elogiar os premiados, dirigindo-se a Eduardo Lourenço como “o maior pensador português do nosso tempo.”

Humor e atitude crítica

Maria Calado, presidente do Centro Nacional de Cultura (CNC, que criou o prémio com a Europa Nostra, ampliando depois essa aliança ao Clube Português de Imprensa) evocou Helena Vaz da Silva (1939-2002), a precocemente desaparecida fundadora do CNC e Pieter Steinz (1963-2016), autor do livro Made in Europe, vencedor da menção honrosa do júri em 2014, que sucumbiu este ano a uma esclerosa lateral amiotrófica. Além, disso, justificou a atribuição do prémio ex-aequo este ano com a forte defesa, pelos premiados, dos valores europeus. O mesmo faria mais tarde Dinis de Abreu, presidente do Clube de Imprensa, apresentando-os como “escolhas inadiáveis do júri”.

Mas foi a Guilherme d’Oliveira Martins, presidente do júri, que coube a “defesa” de Lourenço, enquanto Denis de Kergorlay, presidente executivo da Europa Nostra, teria depois a seu cargo falar particularmente de Plantu. Para Guilherme d’Oliveira Martins, o ensaísta que Lourenço é “não se fecha numa visão redutora”, assentando o seu olhar sobre a Europa numa realidade viva. Evocou Montaigne, Herculano e Antero, e disse até que Lourenço começa sempre a leitura do Le Monde pelo cartoon de Plantu, prova de “sentido de humor na sua profunda atitude crítica” face à realidade que nos cerca. Este prémio duplo, disse, é “um alerta contra a indiferença, um alerta pela liberdade.”

Denis de Kergorlay, por sua vez, retratou Plantu como um “idealista e humanista”, que é também um “federador” de vontades “contra os ditadores, os populistas, os sectários”, que usa uma arma potente que não é detectada em nenhum aeroporto: caneta e papel. Ah, e lembrou (foi o primeiro a fazê-lo) o pequeno rato que Plantu insistentemente põe num canto dos seus desenhos. Um rato que talvez lembre que, apesar da destruição, “há sempre esperança.” “Continua a tua missão, estamos todos contigo”, disse, a terminar.

“Os populismos não triunfarão”

Por fim, os premiados. Eduardo Lourenço preferiu evocar Helena Vaz da Silva. Elogiou o humor de Plantu (“Quando abre a Bíblia, Deus ri; do que os homens fazem em seu nome”) e, dela, lembrou momentos vivos e felizes, como certo dia em Cannes junto ao mar, onde, “sorrindo à vida, parecia simplesmente imortal.” Já Plantu, mesmo falando, desenhou (em computador, imagens projectadas): um acorde em dó (“a vida política é em dó maior”), mostrou cartoons da pequena exposição posta à entrada do auditório, falou de guerras, de dores, e do seu reflexo nos traços enérgicos com que as retrata. Como um crocodilo erguido, com o cadáver do bebé Aylan nos braços e uma lágrima no olho, tendo a seus pés muros e arame farpado. A Europa vista por Plantu, hoje.

Eduardo Lourenço, no início da sua intervenção, saudou a presença, entre outros, do “secretário-geral das Nações Unidas”. Mas António Guterres, sentando praticamente à sua frente, fez um gesto brando com as mãos, como se dissesse “calma”. Plantu, que também não falharia o tema, fez (e mostrou) desenhos de Guterres (na ONU, claro), de Eduardo Lourenço e de Marcelo Rebelo de Sousa e entregou-lhos no final da sessão, após receber o prémio. Quando chegou a vez do Presidente da República encerrar a sessão, já quase tudo tinha sido dito. Mas Marcelo, eloquente, depois de se referir também a Guterres como “secretário-geral da ONU”, e de lembrar, também de forma emotiva, Helena Vaz da Silva, reforçou a ideia deixada antes por Oliveira Martins: para lá das actuais “sombras de divisão, dos nacionalismos, xenofobias, populismos”, ainda há esperança. “Nós acreditamos na Europa”. Ou: “os populismos não triunfarão.”