Há novas regras para tentar salvar o mamífero mais traficado do mundo

O comércio de pangolins, cujas escamas são usadas na medicina tradicional chinesa, foi banido e foram aprovadas medidas coercivas para caçadores e traficantes.

Os pangolins representam cerca de 20% do tráfico total de animais
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Os pangolins representam cerca de 20% do tráfico total de animais AFP/JEKESAI NJIKIZANA

Está longe de ser o animal mais bonito do mundo, mas diz-se que é, de longe, o mamífero mais traficado de todos. Os pangolins são um animal nocturno, com o corpo coberto de escamas, que se alimenta de formigas e vive em regiões tropicais em África e na Ásia. Além de a sua carne ser considerada uma iguaria em certas regiões da China, as escamas também são um ingrediente muito procurado na medicina tradicional chinesa. Isso ajuda a perceber porque é que estão à beira de desaparecer na China e porque é que são os alvos privilegiados de caçadores furtivos nas florestas da Indonésia e do Vietname. 

Apesar de serem um animal pouco conhecido, estima-se que os pangolins representem 20% de todo o tráfico ilegal de espécies selvagens e que na última década mais de um milhão tenha sido capturado, escreve a BBC.

Entre Janeiro e Setembro deste ano, as autoridades capturaram mais de 18 mil toneladas de escamas destes animais ameaçados de extinção em cerca de 19 países, de acordo com um estudo do grupo de conservação da natureza Annamiticus. A maioria destas escamas era proveniente de animais africanos, oriundos dos Camarões, da Nigéria e do Gana. Segundo o especialistas, por cada quilograma de escamas é preciso matar três ou quatro animais. 

O facto de a procura por pangolins continuar a crescer levou a que recentemente a Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção (organização que junta governos de todo o mundo e é conhecida como CITES) tenha, no seu último encontro, em Joanesburgo, votado a proibição total do comércio de qualquer uma das oito espécies conhecidas (quatro vivem na Ásia e outras quatro em África). Além disso, a CITES aprovou uma série de medidas coercivas que os seus membros devem por em acção para combater o tráfico ilegal destes animais.

Segundo dados publicados pelo Worldwatch Institute, a enorme procura por parte da China já levou ao “grande declínio” nas populações de pangolins de países como o Camboja, Vietname e Laos. Actualmente, são os pangolins provenientes da Indonésia e da Malásia que abastecem grande parte da procura, além daqueles que vêm de África.

Ainda que a China seja membro da CITES, o país permite o consumo de pangolins, nomeadamente as escamas, por respeito às tradições médicas chinesas, lembra o Worldwatch Institute. E, por outro lado, embora vários países tenham proibido a caça furtiva e o comércio internacional instituindo penas pesadas, a verdade é que a sua eficácia é reduzida porque são poucos os que têm os meios humanos e financeiros necessários para uma fiscalização activa, nota a organização.

Foi em 2013 que um acidente de barco expôs, por acaso, a crua realidade do tráfico desta espécie ameaçada. Quando um barco de pesca chinês embateu contra um recife de coral ao largo das Filipinas e as autoridades subiram a bordo para o examinar, descobriram mais de 2000 pangolins mortos e acondicionados em 400 caixas. 

Foi precisamente um trabalho sobre a captura ilegal de pangolins que deu ao fotógrafo Paul Hilton o prémio Wildlife Photographer of the Year. O fotojornalista de Hong Kong chamou-lhe The pangolin pit (a fossa de pinguins). Nessa imagem, captada em Sumatra (Indonésia), podem ver-se os cadáveres de cerca de quatro mil pangolins, enrolados (tal como o ouriço-cacheiro, enrolam-se quando se sentem ameaçados), em processo de descongelação, momentos antes de serem incinerados pelas autoridades indonésias.

Esta foi uma das maiores apreensões de pangolins de que há registo – cerca de cinco mil toneladas, segundo a BBC Earth. Além disso, foram encontrados 96 animais vivos devido ao seu tamanho. Explica a BBC que são alimentados à força, para crescerem e poderem ser vendidos por um preço melhor. "Os crimes contra as espécies selvagens são um grande negócio, mas só vão acabar, quando acabar a procura”, diz Hilton.