Não dançar para olhar para trás – e ver o que vem a seguir

No âmbito do festival Circular, João dos Santos Martins apresenta esta quinta-feira, no espaço da mala voadora no Porto, uma conferência-performance-instalação em que questiona o seu percurso à luz da história da dança.

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João dos Santos Martins e a sua dança em crise Susana Pomba

Nos anos 90, quando João dos Santos Martins (n.1989) fazia coreografias de músicas pop do TOP + numa aldeia de Santarém, não imaginava vir a tornar-se bailarino e coreógrafo profissional. Nem que viria a trabalhar, como intérprete, com Eszter Salamon e Xavier Le Roy, dois nomes incontornáveis da dança contemporânea europeia.

Também não imaginava chegar a 2015/ 2016 e fazer uma conferência-performance-instalação sobre como herdou uma dança em crise – uma dança que Vera Mantero preferiu não dançar numa noite de 1992, no Théâtre de la Cité Internationale em Paris, por causa dos acontecimentos políticos da altura (Guerra da Bósnia, violência racial a explodir em Los Angeles, a ressaca da Guerra do Golfo…). Sentado por trás de uma mesa de três metros, esta quinta-feira na mala voadora. porto, João dos Santos Martins também decide não dançar.

Não pela crise existencial do mundo (a guerra na Síria, a crise de refugiados, o golpe de Estado no Brasil, o assassínio em série de negros nos EUA pelas forças policiais, a ascensão de Donald Trump…), mas pela crise existencial da dança. Em Dança da crise ou talvez ele pudesse pensar primeiro e dançar depois ou como fazer coisas sem dança ou oldschool#40, apresentada em mais um capítulo da 12.ª edição do Circular – Festival de Artes Performativas, João dos Santos Martins diz que herdou “uma dança em crise” e “em crise” a dele ficou.

“Refiro-me ao movimento dos anos 90, a que a Nova Dança Portuguesa também pertence – pelo menos uma parte, representada pela Vera Mantero e pelo João Fiadeiro – que questiona este viés de corpo-movimento, esta questão do não dançar”, explica o coreógrafo, também artista residente da Circular Associação Cultural. Não é um arrebatamento niilista, é uma forma de decifrar e repensar o seu percurso. “Tento relacionar esta ideia de crise estética em dança com o meu devir bailarino e coreógrafo e questionar a minha prática aos olhos dessas práticas”, diz.

“Isto aconteceu, talvez seja por isso que agora estou neste sítio de imobilidade, nesta exaustão de conteúdos sobre a possibilidade ou impossibilidade da dança, e talvez por isso esteja nesta hesitação sobre de que forma produzir discurso. E como avançar, mas ao mesmo tempo avançando.” Este sobressalto intelectual e questionamento artístico através da história da dança, mas sem esbarrar na recuperação revivalista, já é uma marca identitária de João dos Santos Martins. Em trabalhos como Le Sacre du Printemps (2013), Autointitulado (2015) e Projecto Continuado (2015, que lhe valeu o Prémio Autores SPA de 2016) havia também esta relação reflexiva (e discursiva) com a história, de forma a questionar o presente e de ver o que vem a seguir.

Rejeitar, questionar

Esta peça, que estreou no final do ano passado no âmbito do projecto Old School de Susana Pomba, na Rua das Gaivotas 6, em Lisboa, teve origem numa conferência-performance chamada Dança da Crise, apresentada em 2013 na Academia de Belas-Artes de Viena. Debruçava-se sobre a ligação entre dança, crise e finanças, e João interpretava uma curta coreografia encomendada a Cyriaque Villemaux, amigo e colaborador regular.

Nesta versão mais recente, iluminada pela influente conferência-performance Product of Circumstances (1999) de Xavier Le Roy, João decidiu não dançar também para “reenfocar este espaço expandido e de hibridismo formal que é a dança”, expondo a coreografia em formato de instalação/arquivo, com um vídeo, um poema, uma carta e uma partitura. E para, assim, discutir as barreiras que são constantemente colocadas entre dança e performance, o instinto compulsivo pelos rótulos e as definições hegemónicas ocidentais do que é dança ou não é dança. “Acho que esse discurso também vem de uma tentativa das instituições culturais em definir a sua função. Normalmente são obsoletas porque perpetuam, com uma garra essencialista, uma distinção formal entre objectos e um gosto estético”, nota João.

Esta conferência não é nem pretende ser um manifesto político. Mas no meio de uma cronologia autobiográfica intercalada com citações à história da dança (parte do título é, ele próprio, uma referência invertida a um espectáculo de Vera Mantero, que por sua vez cita Samuel Beckett), o autor acaba por levantar problemáticas relativas à retórica político-cultural e ao aparelho hierárquico e conservador das instituições culturais, sobretudo do sistema de ensino. Mesmo involuntariamente e indirectamente, paira por aqui o pensamento de Bojana Kunst, filósofa e teórica das artes performativas com quem João teve aulas em Giessen.

Nota-se um constante conforto e desconforto perante o circuito da dança contemporânea. João dos Santos Martins é um dos jovens coreógrafos e bailarinos portugueses mais bem-sucedidos da sua geração a nível internacional (o que, contudo, não se reflecte na conta bancária graças à velha história da precariedade dos artistas com base fiscal em Portugal), mas isso não o salva de “um sentimento simultâneo de pertença e exclusão”. “Senti sempre esse conflito por diferentes razões. Quando entrei na Escola Superior de Dança era porque não tinha faculdades técnicas de movimento. Depois na P.A.R.T.S. [dirigida pela coreógrafa belga Anne Teresa De Keersmaeker] por sentir que a escola fazia censura de algumas propostas. São três anos de treino mas não se questiona o que treinamos. O ensino de dança cria formatos de corpo para os adaptar a certos regimes.”

Por rejeitar essa lógica de subalternidade, de um corpo sem domínio autoral e discursivo, João optou por fazer um percurso como artista independente, em que o pensar primeiro e o dançar depois está na base conceptual dos seus projectos. “Na minha prática é claramente uma forma de fazer arte e pensar a arte. Jamais me poria ‘para aí aos pulos a dançar’, como diz a Vera [Mantero].”