Opinião

A Quarta Revolução dos semideuses

O anúncio de uma iminente Quarta Revolução Industrial atraiu a atenção dos media e Governos de todo o mundo como se se tratasse da revelação de uma profecia de um oráculo inelutável. A Quarta Revolução é apresentada como sendo imparável e incontornável. Segundo Klaus Schwab, fundador e diretor executivo do World Economic Forum, que reúne anualmente em Davos, e cujo tema este ano foi “Mastering the Fourth Industrial Revolution”, a nova Revolução irá modificar fundamentalmente o modo como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos uns com os outros. Ainda de acordo com Schwab, “as mudanças que irá trazer são tão profundas do ponto de vista da perspetiva da história humana que nunca houve um tempo com maior promessa ou perigo potencial”.

Não há alternativa à Quarta Revolução industrial. Ser uma promessa ou um perigo depende dos povos, dos eleitores e dos governantes de todo o mundo saberem ou não adaptar-se e beneficiar das forças de disrupção tecnológica que avançam inexoravelmente sobre todos nós. É como se a Quarta Revolução Industrial fosse uma profecia de semideuses que conhecem o melhor destino para os homens. Estes podem aceitá-lo ou correr o enorme perigo de o tentar rejeitar.

Mas afinal o que é a Quarta Revolução Industrial e quais as forças que a movem? A Primeira Revolução Industrial, que foi provavelmente a transição mais importante da história da humanidade e hoje consideramos ter surgido em meados do século XVIII, só foi identificada e nomeada em meados do século XIX. A expressão Revolução Industrial foi inicialmente utilizada em França cerca de 1820, para designar de forma algo escarnecedora, comparativamente à verdadeira revolução política de 1789, a mecanização da indústria têxtil na Normandia, Flandres Francesa e Picardia.

Na Grã-Bretanha, ao contrário da França e Alemanha, a expressão revolução industrial raramente se usava. Porém, o historiador da economia Arnold Toynbee (1852-1883), tio do conhecido historiador das civilizações Arnold Joseph Toynbee (1889-1975), ao analisar o desenvolvimento económico na Grã-Bretanha de 1760 a 1840, identificou e caracterizou uma transformação social, económica e tecnológica que marcou profundamente o país e serviu depois de modelo de desenvolvimento através do mundo, à qual deu o nome de Revolução Industrial. A expressão passou a ter um sentido específico bem definido e conheceu uma enorme divulgação, em parte com a publicação póstuma das Lectures on the Industrial Revolution in England de Arnold Toynbee. Segundo ele a essência da Revolução Industrial “foi a competição para substituir as regulamentações medievais que anteriormente controlavam a produção e distribuição da riqueza”.

Na Primeira Revolução Industrial a maior eficiência no aproveitamento da força motora da água e a invenção da máquina a vapor transformou profundamente a utilização da energia. A Segunda Revolução Industrial teve início na segunda metade do século XIX e apoiou-se no uso da eletricidade o que permitiu desenvolver as cadeias de produção nas fábricas. Foi nesse período que se fizeram invenções tecnológicas notáveis baseadas na ciência moderna, tais como o motor de combustão interna, telefone, fotografia, cinema, lâmpada elétrica, avião, televisão e antibióticos. A Terceira começou na década de 1960, baseou-se na chamada Revolução Digital, no contínuo e acelerado desenvolvimento das TIC (tecnologias da informação e computação), e permitiu aumentar a automatização da produção nos mais diversos domínios da atividade económica. Finalmente a Quarta Revolução Industrial é uma extensão da terceira mas distingue-se dela em termos de novos horizontes programáticos de automatização, robotização, interoperabilidade, uso de sistemas inteligentes de assistência técnica, decisão descentralizada e troca de informação nas tecnologias de produção de bens e serviços. Os principais domínios de atividade e tecnologias emergentes que irão suportar a Quarta Revolução estão as TIC, inteligência artificial, robótica, internet das coisas, big data, impressão 3D, blockchain, automatização dos veículos automóveis, agricultura de precisão, nanotecnologia, engenharia genética e a biologia sintética.

As ideias fundadoras da Quarta Revolução Industrial surgiram em 2011 na iniciativa de construção de um programa estratégico, com o horizonte temporal de 2020, liderado por empresários, políticos e académicos, designado Industry 4.0, destinado a aumentar a competitividade das indústrias alemãs por meio da crescente integração dos “sistemas ciber-físicos baseados na internet” nos processos fabris. Nos EUA há vários projetos análogos, como por exemplo a Industrial Internet Consortium fundada em 2014 e que reúne a General Electric, AT&T, IBM e Intel.

A grande divulgação da Quarta Revolução Industrial nos media e nos meios empresariais e governamentais de todo o mundo, em particular através do World Economic Forum, é uma iniciativa filantrópica de aviso urbi et orbi sobre a nova direção da competição industrial e económica promovida pelas elites económicas e financeiras dos países com as economias mais avançadas e competitivas do mundo. Na sua génese e evolução não cabe qualquer tipo de atenção sobre o seu impacto, nos próprios países e no resto do mundo, em termos de emprego, coesão social e desigualdades, mas apenas a ambição própria da natureza humana, de manter a liderança e a competitividade desses países. O encadeamento das inovações tecnológicas tem uma dinâmica própria imparável que, para além de criar e satisfazer a procura por novos produtos, serviços e mercados tem também, ao longo do tempo, efeitos sociais, políticos e económicos através de um mundo progressivamente globalizado.

Não é possível travar o progresso da tecnologia porque ela nos deslumbra, diverte, distrai, cativa, aliena e vicia. É ela que dá um sentido linear ao tempo e o acelera. Sem progresso tecnológico a grande maioria das pessoas acharia que o tempo teria parado e que regressaríamos inevitavelmente ao primitivismo do passado.

O avanço da Quarta Revolução Industrial irá tornar um número crescente dos atuais empregos inúteis ou redundantes, devido principalmente ao carater disruptivo das novas tecnologias, e ao avanço da automatização e robotização. Provavelmente haverá novas multidões de desempregados e o próprio conceito social, político e económico de emprego irá transformar-se profundamente. Será provavelmente necessário introduzir o rendimento de cidadania. A maior perda de emprego irá ter lugar nos setores da saúde, energia, bancos, serviços financeiros, logística, transportes e apoio administrativo nos escritórios. O trabalho que é repetitivo ou que envolve rotinas de atividade manual tem elevado risco de ser eventualmente automatizado. Em contrapartida o trabalho que depende do exercício de pensar, do espírito de curiosidade, da criatividade, da capacidade de reflexão e análise, da experiência e da empatia com o próximo tem um risco baixo de automatização. De um modo geral a automatização e a robotização atinge mais a produção e o trabalho técnico e menos o trabalho que requer reflexão e inovação. Em contrapartida haverá criação de emprego nas TIC, serviços profissionais, informação, entretenimento e marketing.

Um dos avanços tecnológicos futuros mais decisivos para promover a automatização e robotização em larga escala será os computadores compreenderem a comunicação entre pessoas, ou seja, tornarem-se virtualmente mais uma pessoa ativa no ambiente de trabalho ou nas nossas casas. A combinação da robótica com a inteligência artificial, que permite aos robots adaptarem-se e reagirem ao que se passa em seu redor, tem a potencialidade de substituir um grande número de empregos e eventualmente transformar a sociedade. Estimativas recentes de Carl Frey indicam que 47% do total dos empregos nos EUA têm um risco elevado de desaparecerem nas duas próximas décadas. Note-se que a rarefação de empregos nas áreas de penetração das tecnologias mais avançadas está já a observar-se. De acordo com o mesmo autor, na década de 1980, 8,2% da força de trabalho nos EUA estava empregada nas novas tecnologias introduzidas nessa década. Porém, na década de 1990 essa percentagem desceu para 4,4% e na década de 2000 é menor do que 0,5%, incluindo novas industrias, tais como os leilões online, vídeo e áudio streaming, e web design.

Os que vão beneficiar mais das aplicações dos robots e da inteligência artificial vão ser os que têm a capacidade de investir nas tecnologias emergentes, ou seja, os detentores de capital. Devido às suas características intrínsecas a Quarta Revolução Industrial promove a substituição do trabalho pelo capital agravando ainda mais a tendência das últimas décadas de aumento das desigualdades. Os empresários que descobrem um produto ou serviço de sucesso enriquecem rapidamente porque com as novas tecnologias os custos marginais por unidade de produção tendem para valores baixos ou próximos de zero e os rendimentos de escala são elevados. Atualmente as empresas procuram avidamente as novas tecnologias porque lhes permitem aumentar a produtividade e baixar os custos marginais de produção e distribuição de bens e serviços, conseguindo assim, reduzir os preços, conquistar mais consumidores e aumentar os lucros. O papel do emprego na distribuição da riqueza, que se consolidou no último século, pode ficar comprometido. As implicações socias e económicas da Quarta Revolução Industrial têm um alto risco de desestabilizar profundamente a sociedade contemporânea, tanto nos países com economias avançadas como no resto do mundo. A probabilidade de tal suceder é muito elevada porque as forças motoras da Quarta Revolução Industrial são as mesmas que dinamizam o atual sistema económico e financeiro. Será provavelmente necessário reformar os conceitos de trabalho, emprego e rendimento. Provavelmente estamos mesmo num tempo de grandes promessas e perigos que os semideuses controlam.